Dar Coisas aos Nomes

A mão do oleiro e o relevo do mundo: lendo ‘A Caverna’, de Saramago

A mão do oleiro e o relevo do mundo: lendo ‘A Caverna’, de Saramago

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[começar]

«Fui ao cemitério, dei um cântaro a uma vizinha e temos um cão lá fora, acontecimentos de grande importância todos eles» (p. 51). Sublinhei a frase na minha edição do livro A Caverna (2000), de Saramago, admitindo à partida que não há nada que sobressaia nela, nada do ponto de vista estilístico, nenhum adágio orelhudo que justifique o impulso para deslizar o lápis e inscrever na folha o sulco desvairado de mim como leitor. Apenas isto: uma fatia desossada do real, um remate enxuto de pobreza. No limite, A Caverna não tem muito mais a oferecer, nem a muito mais se presta a personagem principal, Cipriano Algor. São «acontecimentos de grande importância» os pequenos nadas que demarcam aquilo que somos daquilo em que não estamos dispostos a tornar-nos. Os pequenos nadas que são tudo o que tomamos por nosso – rosto, casa, ofício, um estar em comum – contra a neblina diluente que esfrangalha o limiar do sentido, que deslassa o peso granuloso de uma coisa que a palma da mão sustenta, a prova sem drama de que se é alguma coisa em vez de nada.

De novo: o cemitério, um cântaro e um cão. Que tem o cemitério? Os nossos mortos, a memória deles, o testemunho abissal de que o amor é a única vida após a morte que há a cultuar como uma religião que não nos desacredita, que é a força mágica da memória a reinventar o halo de um retrato na lápide, das flores colhidas num jarro. E dizer amor é o mesmo que dizer ternura, cuidar do próximo: «Não fale da morte, pai, É enquanto estamos vivos que podemos falar da morte, não depois» (p. 34). E um cântaro? É uma coisa entre coisas, cumpre uma função, guarda outra coisa em si: água, vinho, teias de aranha. Mas é porque uma asa se lhe quebrou que nasce, neste livro, uma história de amor: Cipriano Algor, viúvo há três anos, dá um cântaro a Isaura Madruga. Só isto: a quem basta o essencial para viver, a quem recusa cânticos de sereia e se contenta com o vento baço a fremir os galhos, os troços de lenha a rachar, os grãos de pó que douram o ar quando se varre o alpendre, um cântaro pode ter a solenidade de uma aliança, de uma relíquia de santo. E se é dado, sela-se desde logo o pacto imanente ao que é a gratuitidade da dádiva, o potlach sem usura, sem retenção ou capital. Dando-se mais do que aquilo que, à partida, parecia estar prometido. Dando-se justamente o que é já pertença do outro. Eis o amor como excesso transbordante, acontecimento supremo – no desamparo inicial de quem, a cada encontro, a cada acidente de percurso, está sempre prestes a recomeçar a criação do mundo. Por fim, que tem um cão? Um cão que se perdeu e que ali se achou, e por isso mesmo recebeu como nome «Achado». Mais um benfeitor canino nas errâncias de Saramago, mais um animal que irrompe no letargo angustiante do vazio para nos vir beber as lágrimas e, nesse afago inocente, intervala uma trégua neste desastre de mundo que nos pôs a chorar. Uivemos com ele.

É à tona deste real que A Caverna se mantém em suspenso ao longo da quase totalidade das suas trezentas e cinquenta páginas, sem os habituais estrilhos do absurdo que Saramago, herdeiro de Kafka, inflige à trama narrativa, deslocando uma ordem nova no coração da súbita desordem. Não há, desta vez, jangadas de pedra arrancadas ao continente europeu rumo ao desconhecido de si mesmas, nem hordas de cegos pondo a nu a feroz fragilidade do que somos, nem passarolas ou vidências extraordinárias rompendo os céus de chumbo da Inquisição no século XVIII. Não chegou sequer o ano de imaginar a morte fazendo greve à sua inelutável condição de matar, vestindo-se de sedutora mulher, siderada a ouvir Bach.

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Pelo contrário, o enredo de A Caverna é relativamente simples e alegoricamente esquemático: um homem, Cipriano Algor, sessenta e quatro anos, oleiro de profissão, é confrontado com a inutilidade do seu ofício, quando os púcaros e as malgas que lhe saem das mãos perdem eficácia e razão de ser face à invulnerabilidade do plástico e à mão invisível do mercado, que define a escala do valor. Viúvo, partilha uma casa modesta com a filha, Marta, que está grávida de Marçal Gacho, um guarda do «Centro», assim denominado para condensar o terror frio do seu poder autocrático, a sua compulsão devoradora, que tudo vai assimilando até ao mais esbatido nivelamento, à mais lisa neutralidade: «são os gostos do Centro que determinam os gostos de toda a gente» (p. 42), lê-se de modo lacónico, como se um baque da evidência caísse em seco no saco roto do destino. O «Centro» é, em simultâneo, local de trabalho, moradia, parque temático, superfície comercial, praia artificial, simulador de neve, panóptico, consórcio transnacional, económico e financeiro, monstro burocrático, «uma cidade dentro de outra cidade» (p. 258), «perfeito distribuidor de bens materiais e espirituais» (p. 292), alfa e ómega. O «Centro», no fundo, é tudo em potência – se a potência excluir, aqui, o direito à transgressão, à singularidade resistente, ao sobressalto em aberto de uma decisão humana. Teme-se que seja para o «Centro» que Cipriano e Marta acabem por ir viver se Marçal progredir na carreira, como aparentemente deseja.

Quando já não faz sentido continuar a modelar louças, Cipriano acata a sugestão da filha, para dar de novo ânimo ao desamparo do pai: porem-se a fabricar «bonecos, estatuetas, manipanços, monos, bugigangos, sempre-em-pés» (p. 69), confiando aos humores do mercado a emergência de mais um nicho que possa acolher estes novos objectos de cerâmica. Mas, duzentas páginas depois, o projecto sai gorado. O êxito comercial como valor absoluto do Centro não passa mais pela olaria de Cipriano Algor. A humanidade deste oleiro sai implacavelmente degradada. Mesmo quem nunca se projectou em vida como um retumbante herói, não sabe como se continua a existir quando se é invalidado como pessoa, despojado de todo o sentido existencial que recheia animicamente a vida.

[recomeço]

A Caverna como um ensaio sobre a paciência. Não a paciência de quem se resigna e, nessa resignação, assume envergonhadamente a derrota contra a farsa hígida do progresso betuminoso e a face cada vez mais opaca do poder; mas a paciência de quem resiste porquanto ainda respira e se vê como senhor do seu corpo e da escuridão que leva dentro, à imagem de outra personagem de Saramago, o Senhor José de Todos os Nomes (1997). Um corpo existe, uma coisa existe, o hábito e a repetição no dia-a-dia de Cipriano Algor dão fundura ao tempo, como se também este, sendo levado ao forno, fermentasse a olho nu, na qualidade de substância física. De novo, o cântaro dado à vizinha: é toda uma vida que se inscreve no objecto. Uma pequena história de gestos, erros, hesitações e modelagens; uma pequena história de afectos, porque é na curva da dádiva que um simples cântaro passa a conter, dentro de si, não apenas água, mas uma história de amor, a memória desse vínculo entre Cipriano e Isaura. É a atenção incisiva de um homem cuidando das coisas que vê nascer entre as mãos, em comparência plena de si e dos outros, reencontrando-se e redescobrindo-se um e outros, e uns aos outros.

E quem diz coisas, por sua vez, diz também palavras: «Cipriano Algor afastou-se em direcção ao forno, ia murmurando, como uma cantilena sem significado, Marta, Marçal, Isaura, Achado, depois por ordem diferente, Marçal, Isaura, Achado, Marta, e outra ainda, Isaura, Marta, Achado, Marçal, e outra, Achado, Marçal, Marta, Isaura, enfim juntou-lhes o seu próprio nome, Cipriano, Cipriano, Cipriano, repetiu-o até perder a conta das vezes, até sentir que uma vertigem o lançava para fora de si mesmo, até deixar de compreender o sentido do que estava a dizer, então pronunciou a palavra forno, a palavra alpendre, a palavra barro, a palavra amoreira, a palavra eira, a palavra lanterna, a palavra terra, a palavra lenha, a palavra porta, a palavra cama, a palavra cemitério, a palavra asa, a palavra cântaro, a palavra furgoneta, a palavra água, a palavra olaria, a palavra erva, a palavra casa, a palavra fogo, a palavra cão, a palavra mulher, a palavra homem, a palavra, a palavra, e todas as coisas deste mundo, as nomeadas e as não nomeadas, as conhecidas e as secretas, as visíveis e as invisíveis, como um bando de aves que se cansasse de voar e descesse das nuvens, foram pousando pouco a pouco nos seus lugares, preenchendo as ausências e reordenando os sentidos.» (pp. 126-7).

A palavra, a palavra. Sei à partida que posso encontrar em Saramago a eloquência refinada, o brilho diáfano da frase espirituosa, esse requinte de oficina que, nos melhores casos, eleva a literatura acima do repasto cultural. Mas procuro outra coisa aqui. Sai-lhe a língua tosca, um prosaísmo raso, como se desse jeito patusco pudesse assegurar mais fielmente o princípio de não trair a liminar exterioridade das coisas – e assim, nesse movimento da língua, a palavra escrita pudesse tocar no real e, sobretudo, tocar o que nele continua inacabado, ou inacabável, atiçando uma propensão para a esquiva, o esgar anedótico que desarruma as convenções do dizível, as derivas trampolineiras que escancaram as portas secretas da vida, sem torcular os grumos. Em suma: o prazer generoso da lista, a escrita que aflora o infinito, «a enumeração», segundo Borges, «a que os eruditos chamam caótica e que, de facto, é cósmica, porque todas as coisas estão unidas por vínculos secretos» («Alguém sonha», in Os Conjurados, p. 496).

Todas as coisas, todos os nomes. Como no Génesis, Cipriano repete o gesto de nomear, já sem inocência, nem tão-pouco o jogo perverso de se julgar no papel de Deus. Talvez um cansaço, um langor que repousa sobre as coisas como um pó remanescente, o calor do embalo que advém dessa íntima certeza, de restar ao menos o pó para atestar que o mundo existe. E esse embalo emerge na cadência da voz, no efeito de «homerização» do romance, como o próprio autor não se cansou de dizer: o romance que é menos «um género literário» do que «um lugar capaz de acolher toda a experiência humana, um oceano que receberia, e onde de algum modo se unificariam, as águas afluentes da poesia, do drama, da filosofia, das artes, das ciências…» (Cadernos de Lanzarote IV, 2017, p. 209).

Uma voz de ressonâncias milenares, galgando todos os tempos e geografias. O grão antiquíssimo de vozes nómadas trilhando o pó dos caminhos, acendendo fogueiras à noite e, à sua volta, contando histórias e estrelas, tomando a imaginação como um signo encorpado, um alimento tão substantivo quanto o é a massa do pão. Ao sabor da litania, como uma prece insensata, «vertigem […] para fora de si mesm[a]»: eis a voz da personagem, do narrador, do autor, ou a voz de ninguém (no que neste indefinido ressoa como lastro homérico do anonimato mítico de Ulisses, atiçando com a sua astúcia a ira do ciclope Polifemo; esse ninguém indefinível, ou essa coisa sem nome, fazendo tremer no que somos quaisquer pressupostos ontologicamente rígidos, ou rigidamente ontológicos). Uma voz entre vozes, que, no seu espaçamento, no seu lançar-se no mundo, entra de imediato numa vertigem para o exterior de si. Tal e qual como no canto, segundo Jean-Luc Nancy: durante o tempo do canto, quem canta «não é um sujeito», está para lá de qualquer subjectivação, precedendo o próprio sujeito (Nancy, O Peso de um Pensamento, a Aproximação, 2011, p. 35). (E note-se como foi justamente pelo canto, pelo desfiar de um «rosário profano de sons» nas mãos do músico Scarlatti, que Eduardo Lourenço se deixou enlevar lendo-escutando Memorial do Convento, cf. O Canto do Signo, 2017.) Por outras palavras: a voz é mais do que uma voz naquele que fala; é em si mesma diálogo, polifonia, cântico coral; «não é uma coisa, é a maneira pela qual alguma coisa – alguém – se afasta de si-mesma e deixa ressoar esse desvio» (idem, p. 37). Por isso o entrelaçar-se dialogante na escrita de Saramago; daí o ondear de desvios que espacejam essa escrita, como águas distintas que se misturam no rio do texto; daí, finalmente, o romance como lugar onde as vozes sonham a possibilidade imanente do corpo, a aproximação do corpo a outros corpos, o sentido do que está sempre em vias de nascer – «o sentido da iminência inesgotável do sentido», o simples «fruir da presença» (p. 118).

Voz entre vozes, então. A falar, a escutar, escrevendo, ex-crevendo (cf. Nancy). Apanhando desprevenida a palavra mais banal, vendo reacender-se nela uma oblíqua primitividade – a pedra por dentro da estátua, segundo ajuizou Saramago a respeito da sua escrita a partir de O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991). No jogo da repetição, um pequeno desvio surpreende um desamparo inicial nas palavras, como se estas, de súbito, se desapegassem dos nomes que a convenção estacionara para tornar possível o discurso. Voz entre vozes, no fundo, que espalmam a plenitude da vida diante de nós, expondo o grande e o pequeno, o triunfal e o anónimo, o sábio e o ignorante. Desfia-se a História em estórias, espreita-se por debaixo da enorme pedra tumular com que se encerra o passado num hausto de vencedores, verdades transparentes, mitomanias tão palermas quanto assassinas.

Um ensaio sobre a paciência, repito. A própria relação com a leitura implica o prazer da demora e, em particular, o prazer táctil na feição objectual dos livros, na sua consistência e facticidade como coisas no mundo, assim como o texto é igualmente teia e tecido, numa contiguidade envolvente com o laço entre pai e filha. Afinal, é nos livros que Cipriano e Marta se inspiram para extrair bonecos ao barro informe, folheando enciclopédias que «são como cicloramas imutáveis, máquinas de mostrar prodigiosas»: «Debruçados sobre as velhas e amarelecidas páginas, respirando o odor húmido durante anos recluído, sem o toque do ar nem o bafejo da luz, na espessura macia do papel, pai e filha aproveitam hoje a lição, procuram o que necessitam naquilo que pensavam não servir mais» (A Caverna, p. 74).

Tornar o tempo habitável, espacializar o tempo. Anuir com o sem porquê da vida, deixando que a lentidão se infiltre pela passagem das horas, das linhas na página, pelos grúmulos de barro no sabugo das unhas, nas fendas do chão. O tempo n’A Caverna dilata-se, elanguesce, cai com a calma das aves que declinam no soneto de Miranda. Um tempo que exige tempo para que reconheçamos os sinais da sua passagem, a greta na tábua, o grelado na parede, a ponta dos dedos desdobrando o apetite dos olhos, a fome do saber, do sabor a mundo. O filósofo André Barata observa que «[é] como barro que nos moldamos com olhares, palavras e encostos que são apenas variações da mesma força do trabalho das mãos a tocarem o barro com familiaridade. Não é a matéria que é o erotismo da consciência, tudo ao contrário: é a consciência o erotismo da matéria humana.» (O Desligamento do Mundo e A Questão do Humano, 2020, pp. 65-6). A transcendência, a alma, a intangibilidade da imagem – tudo isto é sucedâneo da aparição primordial do corpo, do conhecimento fundado nos dedos: «O cérebro da cabeça andou toda a vida atrasado em relação às mãos», medita o oleiro, «e mesmo nestes tempos, quando nos parece que passou à frente delas, ainda são os dedos que têm de lhe explicar as investigações do tacto, o estremecimento da epiderme ao tocar o barro, a dilaceração aguda do cinzel, a mordedura do ácido no chapa, a vibração subtil de uma folha de papel estendida, a orografia das texturas, o entramado das fibras, o abecedário em relevo do mundo. E as cores.» (A Caverna, p. 83).

Nota-se neste e noutros momentos do livro uma ternura pela vulnerabilidade sem adornos, uma lhaneza nos gestos do oleiro e no pormenor descritivo que os enlaça na frase, no aparecer sem sombras, sem margem para ambivalências semânticas, de palavras como «caulino», «cofragem», «barbotina», «desfloculantes» (pp. 151-2). Ou no desvelar atmosférico de um espaço interior, a intimidade mesma do forno na olaria: «outra vez a primeira chama da lenha, o primeiro bafo quente que vai rodear como uma carícia a argila seca, e depois, aos poucos e poucos, a tremulina do ar, uma cintilação rápida de brasa, o alvorecer do esplendor, a irrupção deslumbrante do fogo pleno» (p. 35). Espécie de gratidão pelo contemplar das coisas e dos fenómenos, a começar pelos mais simples, como o arder da chama. E, entretanto, sabe-se pelo corpo, pela consciência física de se estar na vizinhança súbita de algo, que contemplar é, em primeira instância, delinear na realidade um templum, achar deus num pormenor, o nada que é tudo. Por um instante que seja, como disse Borges, há uma altura do dia em que se está no paraíso.

[pausa]

Uma temporalidade espessa, imersiva, morosa, como a que se pensa e sente n’A Caverna está nos antípodas da sensologia digital, no avesso deste rosário perecível de instantes e nano-segundos, de aqui’s-e-agora’s momentâneos e atomizados, reféns de um fôlego que tem tanto de consumista como de suicidário. Uma vertigem imparável de contabilidades acrescidas reduz o humano a uma espécie de ralo ou «cano de esgoto / que deixa passar / tudo» (Tadeusz Różewicz): fluxos do capital, fervor competitivo, positividade tóxica, metas de eficiência, o online como disponibilidade total, sem diferença nem fronteira entre o dia e a noite, o ócio e o negócio, a exposição e o recolhimento; mais o histerismo esponjoso da nossa atenção ao chorrilho de factos, verdadeiros e falsos, que nos chegam com idêntico aparato de notícia, como se aí, nessa absorção de tudo, se jogasse a tentação de controlar o que acontece e o que não acontece, levando «a que a atenção se sinta sitiada» (Mark Fisher, 2020, p. 43), comprimindo o futuro no umbigo do presente.

O que, de resto, esgarça a sensação de presença, como se esta nunca se substantivasse em experiência e memória. Risivelmente sombrio, o paroxismo seria, por exemplo, o que Borges desenha neste poema, do livro Cifra (1981), entre o desalento e um pouco de humor à mistura:

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A materialidade do corpo, a densidade das formas – aquelas «investigações do tacto» que Cipriano Algor tão bem conhece –, substituem-se por bits de informação. Ou, no dizer de Hannah Arendt, à qual chego lendo André Barata, substitui-se progressivamente a Terra, «que Hannah Arendt definia como a quintessência da condição humana», pelo Mundo, «na utopia do digital se ‘materializar’, na total absorção do analógico pelo digital» (André Barata, O Desligamento do Mundo, p. 60). Em consonância, pese embora um tom mais sentencioso, Byung-Chul Han afirma que «[r]umamos para uma era trans- e pós-humana, na qual a vida humana será uma pura troca de informação. O ser humano liberta-se do seu ser condicionado, da sua facticidade, que o torna precisamente o que é. Humano deriva de humus, isto é, da terra. A digitalização é um passo consequente no caminho até à anulação do humanum. É provável que o ser humano do futuro seja pré-determinado: ele anula-se, para se tornar absoluto» (Não-Coisas, 2022, p. 80). Absoluto, por exemplo, enquanto depósito de informação algorítmica que, na era do «capitalismo de vigilância» (Shoshana Zuboff), transforma o contingente e o inesperado da vida em grelhas determinísticas: viver em smart homes que sabem a que horas saímos de casa e a que horas voltamos, que nos sugerem as peças de roupa ou regulam a temperatura do forno, conhecendo à partida quão bem ou malpassada gostamos da carne; viajar em automóveis sem condutor que avaliam o tráfego e decidem por si o melhor trajecto; gizar-se, por fim, entre a casa, o automóvel e o smartphone que trazemos no bolso um regime de monitorização da nossa agenda, avaliando a nossa execução de tarefas, se chegamos ou não a tempo ao nosso destino, se a indumentária foi ou não bem escolhida, etc., etc.

A existência plena torna-se plana, o enigma e a margem de sombra aplacam-se, esbatem-se. A luz elimina, mais do que ilumina, a filogénese do que somos. Tornamo-nos simultaneamente jovens e obsoletos, como se nada gozasse da plenitude de ser suficiente e de poder bastar com generosa duração. Dizermo-nos de carne e osso supõe a mortalidade, a fragilidade da nossa matéria constituinte, mas igualmente uma opacidade que não transige sem resistência: somos corpos com peso e volume, estamos nos sítios, vemos e somos vistos, ocupamos espaço, condicionamos necessariamente a presença dos outros em nosso redor. O mesmo para as coisas, para a sua facticidade que, por extensão, também se torna de carne e osso. Mas as coisas vão cedendo a vez ao império das não-coisas, dos objectos imateriais, dos ficheiros descarregáveis. Que tipo de proximidade, ou de vínculo afectivo, pode nascer a partir do próprio de uma selfie ou de um gif como mensagem de aniversário? O espaço que ocupam é virtual, o seu tempo de existência é o do instante reactivo. O relevo, a fisionomia, o atrito sensível, a cheiro, a noção de consistência, a tangibilidade, o envelhecimento – tudo isto se esboroa no mundo das não-coisas, tudo se alisa e se aplana no vidro do ecrã, no surf desimpedido dos dedos na superfície do tablet. (Quantos milhões de anos terão que passar até à erosão completa das impressões digitais?) O íngreme da montanha, o brilho de um gato, as estrias da pele, este lugar ou aquele, esta ou aquela pessoa, viva ou morta – «Eis o grande sinónimo: / o que não interrompe» (Rui Nunes, Nocturno Europeu, p. 14).

Não é que isto seja o fim do mundo, com o que há nele de iminência tragicamente definitiva. Mas não deixa de ser a crescente espectralização desse fim parasitando em nós, o seu arrastar-se imorredoiro, numa progressiva ubiquidade, até à extinção da noite, do lapso, da ruga. Um fim do mundo endovenoso, que tinge todos os gestos que fazemos com o sarro do que é vão e inútil, que seca as mínimas aspirações, que nulifica o desejo. Insisto: não é ainda esse fim do mundo, mas um abandono entorpecente, o «sabor a cinzas» que descaroça inteiramente a figura de Kirsten Dunst no filme Melancholia (Lars von Trier, 2011), tornando o apocalipse um fenómeno psicopatológico. Uma morte, enfim, fazendo morrer em nós o que merecia ser o princípio de algo, o recomeço do mundo, o florir jubiloso, indeciso mas desejante, de não-sei-quê que quer nascer, que quer estar vivo na vida, no tocar das coisas, no comum da Terra, no prazer de esperar, estando à escuta: «[…] diz-se que cada pessoa é uma ilha, e não é certo, cada pessoa é um silêncio, isso sim, um silêncio, cada uma com o seu silêncio, cada uma com o silêncio que é» (A Caverna, p. 190).

Cipriano Algor e a sua paciência de oleiro incarnam, com uma fulmínea justiça à Tolstoi, uma ideia de bem engessado, a nobreza da vida simples contra o mal do Centro, que está no centro do Mal. Mas incarnam, essencialmente, o próprio da carne, a carnação fulva desta desengonçada corporalidade, metida em apuros desde o dia em que nasce, até ao osso de um lugar-comum: «Não há nada mais triste, mais miseravelmente triste do que um velho a chorar» (p. 288).

Pode uma vida sem assombro ser mais do que a sobrevivência nua de um estado de coisas, um respirar só porque sim? Pode essa nudez sobreviver a si mesma movida à base de uma «ira impotente» (p. 36), como esmurrar água no oceano, contra tudo o que se encaminha para uma transparência agreste, uma neo-realidade sem ângulos nem veios? Wittgenstein propunha que, na iminência destes desaires, acreditar em Deus encheria a vida de sentido, o sentido como alegria permanente desse Deus vivo na imanência. Mas como levar um não-crente a crer no que não crê por tresmalho do instinto? Como desarmadilhar este abandono anémico, a desistência atroz face ao nada, e não ceder à tentação intermitente que luz no suicídio, à pura e manifesta vontade de não mais existir para isto? Há um certo júbilo maligno em constatar, preto no branco, que quem se mata por se julgar num beco sem saída mata igualmente o inominável desespero que pesa sobre cada passo embotado que dá, seja em que direcção for. Como se o prémio de consolação fosse apenas esse: o de não se ser mais consolado por se continuar a existir a contragosto. Porque somos trazidos ao mundo – e é só. Nascemos, e temos que fazer alguma coisa com o dado fáctico de termos nascido, de ainda aqui estarmos, de existirmos assim, tentando escapar à condição de refugo. Tudo o mais são ficções intermédias que nos obrigamos a inventar para que a ficção suprema não nos engulhe de vez – «pouco mais que aparência, ilusão, ausência de sentido, interrogações sem resposta» (A Caverna, p. 242).

De resto, «A gente habitua-se. Sim, ouvimos dizer muitas vezes, ou dizemo-lo nós próprios, A gente habitua-se, dizemo-lo, ou dizem-no, com uma serenidade que parece autêntica, porque realmente não existe, ou ainda não se descobriu, outro modo de deitar cá para fora com a dignidade possível as nossas resignações, o que ninguém pergunta é à custa de quê se habitua a gente.» (idem, p. 249).

[de novo]

Resta a vida. Que não eclode n’A Caverna com a manigância estrondosa de heróis contra vilões, nem é tão-pouco clamorosamente extraordinária. Resta esta vida que não se pretende um resto, mas uma plenitude, tão acesa quanto a fé mais inamovível, tão sanguínea como a recusa de tudo o que a mata. A insurreição da vida enquanto se vive: «Já não posso o que podia, dizia consigo mesmo, mas, lá muito ao fundo da sua consciência, uma voz que também era sua contrariava, Nunca pudeste tanto, Cipriano, nunca pudeste tanto. Dormia como se imagina que uma pedra deverá dormir, sem sonhos, sem estremecimentos, parecia até que sem respiração, descansando sobre o mundo o peso todo da sua infinita fadiga. Algumas vezes, como uma mãe inquieta, antecipando, sem nisso ter pensado, desassossegos futuros, Marta se levantou a meio da noite para ir ver como estava o pai. Entrava silenciosamente no quarto, aproximava-se devagarinho da cama, inclinava-se um pouco a escutar, depois saía com os mesmos cuidados. Aquele homem grande, de cabelos brancos e rosto castigado, seu pai, era também como um filho, saberá pouco da vida quem isto se recuse a entender, as teias que enredam as relações humanas, em geral, e as de parentesco, em particular, sobretudo as próximas, são mais complexas do que parecem à primeira vista, dizemos pais, dizemos filhos, cremos que sabemos perfeitamente de que estamos a falar, e não nos interrogamos sobre as causas profundas do afecto que ali há, ou a indiferença, ou o ódio. Marta sai do quarto e vai pensando Dorme, eis uma palavra que aparentemente não fez mais do que expressar uma verificação de facto, e contudo, em cinco letras, em duas sílabas, foi capaz de traduzir todo o amor que num certo momento pôde caber num coração humano. Convém dizer, para ilustração dos ingénuos, que, em assuntos de sentimento, quanto maior for a parte de grandiloquência, menor será a parte de verdade.» (A Caverna, pp. 208-9).

Sublinhei integralmente a passagem. Parece-me exemplar do porquê de ter gostado deste livro, do porquê de gostar de Saramago, e de gostar de gostar dele. Sem nunca o ter conhecido, face a face, mão a mão. Sei o que todos sabem, o que por aí se lê, o que o próprio deliberou escrever sobre projecções alheias, fartar-vilanagens, ajustes de contas, pecadilhos: que ele era duro, que não sorria, que isto e aquilo pontuado de arrogância, altivez, maledicência, vaidade. Mas leio-o, ouço-o nas entrevistas gravadas, vejo o rosto dele dizendo serenamente as coisas que entende dignas e justas, os gestos nada histriónicos, nada altivos. Não é nenhuma esfinge intocável, nem se presta aos ares de rebuçado de que a literatura é somente a película de prata em volta. É um homem, um homem sério, com inquietações sérias, que dá gosto escutar, que daria gosto ter conhecido, face a face, mão a mão. É um autor no livro todo – e que «há muito [diz] que todos os livros, e já agora em particular os [seus], deviam levar uma cinta com estas palavras: atenção, este livro leva uma pessoa dentro» (numa entrevista a José Carlos de Vasconcelos, em 2003). Não se verga à tirania empática da adulação, nem diz o que lhe convém para agradar. Se frequenta as feiras do livro, se engole o frete do mediatismo literário e, não obstante, tira proveito notório dele, acolhendo audiências e aplausos do mundo inteiro antes e depois do Nobel, apresenta-se na inteireza cívica de quem não se acobarda na hora de chamar os bois pelo nomes, usando palavras como punhos para atacar o que rouba à coexistência humana a dignidade de existir num futuro mais digno, num futuro que, à falta de melhor palavra, não nos envergonhe de o apelidar de humano. No seu entender assumidamente parcial, enquanto «comunista hormonal» como se definiu um dia, basta folhear ao calhas os vários Cadernos de Saramago, respigando aqui e ali o que nos mantém a todos prisioneiros na contemporaneidade desta caverna: a gadanha supranacional da alta finança, a instrumentalização neoliberal do Estado forte, o humano reduzido ao automatismo consumidor e clientelista, a elite plutocrática – ou «a riqueza como uma nova forma do arianismo» (Último Caderno de Lanzarote, 2018, p. 38) –, a humilhação dos pobres e renegados, a cumplicidade de todos nessa humilhação, o egoísmo bárbaro, os imperialismos de toda a ordem, o legado colonial, «a soberana tranquilidade do poder» (idem, p. 102), os neofascismos, o flagelo climático, a violência religiosa, os retalhos autistas do que sobrou do dito socialismo real, a crítica acídula a esse mesmo socialismo e ao que nele se veio a tornar mais performance do que convicção ideológica, aliando-se à fachada de um consenso democrático que se enche de políticos mas expulsa toda a política e, nesse processo, ajuda a minimizar o ónus desta denúncia: a de que «os povos não elegeram governos para que estes os levassem ao Mercado, é o Mercado que está condicionando os governos para que lhe levem os povos» (Cadernos de Lanzarote V, 1998, p. 218).

O desassossego não estanca aqui, o desassossego não acaba nunca enquanto o mundo for mundo – e «a tudo isto se junta que cada vez menos me interessa falar de literatura, que duvido até que se possa falar de literatura, […] sem a certeza de que as explicações expliquem…» (Último Caderno…, p. 146).

Saramago nunca quis ser um grande escritor, mas tão-só escrever. Escrever sem o drama ensimesmado da escrita, nem alegadas obscuridades místicas, metendo musas ao barulho e misteriosas cintilações de génio. A escrita é um trabalho, uma deliberação – aprofundada, meticulosa, crítica – da vontade: escreve-se porque se tem algo a dizer, um murro na mesa a dar, o baque seco de um não que abala a impostura ordenante das coisas com um grão de dissenso. Escreve-se, age-se, está-se no mundo – e a verdade irredutível de cada gesto mede-se em conformidade com a disposição para se ser consequente. Não se dá espaço a palavras vãs, arranjos florais de retórica, os sentimentos nobres talhados à medida como um fato de gala. Palavras como «paz», «justiça» ou «democracia» não são bandeiras, são compromissos provocadoramente éticos: mata-se e manda-se matar em nome dessas e demais abstracções, e por isso o mínimo que se exige a quem opte pela vulnerabilidade humana, em detrimento de posar eternamente como vedeta ou semideus do pechisbeque literário, neste bruaá em directo, é uma dolorosa disposição para se ser autocrítico no abuso que se faz das palavras, para que não sejamos nós abusados por elas, atirados para o meio do vórtice onde a lama e a alma se vendem pelo mesmo preço, o da contínua exibição. Numa inquieta distância implicada, de olhos vidrados no desastre, sofre-se o mundo e a sua miséria, leva-se no próprio corpo a mossa infligida pela angústia da impotência – e é com isso que se escreve, que se faz da escrita um pensamento em carne viva. Não esquecer, portanto: que, «[…] em assuntos de sentimento, quanto maior for a parte de grandiloquência, menor será a parte de verdade» (A Caverna, p. 209).

Mas é ainda outra abstracção palavreada que se impõe aqui, a respeito daquela passagem d’A Caverna. «Dorme», pensa a filha quando espreita o pai no quarto. Em vez de um «amo-te», aberto na sua desfaçatez consoladora, um simples «Dorme» basta para que o amor se dê. De igual modo, diria Saramago, não precisamos de palavras de amor explícito no Memorial do Convento para que fique claro aos nossos olhos o que une Baltasar a Blimunda. Há intimidade, há um profundo respeito pela integralidade de outra pessoa, há a surpresa imanente que se dispõe a acolher o inesperado, ou o imponderável, de alguém – a mão que toca na outra mão, a linha de sombra de um corpo na ombreira da porta, o não querer que nos morram aqueles com quem a vida se fez vida, por entre «moldes, tacelos e caldas» (p. 209).

Origens humildes, a Azinhaga do Ribatejo, o gelo invernal passado no quente da cama entre os avós e os bácoros, o avô Jerónimo despedindo-se, uma a uma, das árvores no pomar com um abraço, por saber que nunca mais as veria – tudo isto molda a estreme humanidade de uma pessoa. Tudo isto molda, como na olaria, os gestos irrepetíveis com que ficcionamos a breve eternidade dos nossos pés de barro. E é justamente nesta última palavra que, por desleixada osmose, ou pura relação instintiva, vejo acender-se o livro Barro de Rui Nunes, que fora amigo de Saramago, e cuja amizade aqui se estende como um sublinhado na página, com a leniência do traço que faz aparecer à nossa vista o que, mesmo já lá estando, distraidamente se tinha ignorado: «Não esqueço. Não esquecerei. É na memória, pela memória, que as escolhas mais íntimas são feitas. A viagem aos lugares do início purifica. Aos rostos, às pessoas, às roupas, às casas. A pobreza vista e sentida, vivida algumas vezes, impede-me de qualquer retórica, faz-me suspeitar das palavras, torna clara a fraude da veemência que elas alimentam. As palavras têm o poder do esconderijo e da mentira: é preciso desarticulá-las, macerá-las, até apagar a sua longa história de violência. Ou obrigá-las a cada instante a mostrar essa história, para que não mais enganem.» (Barro, 2012, p. 51).

[recomeço]

Suspeitar das palavras, a fraude da sua veemência. Eis como acaba este romance: instala-se a família no cubículo que o Centro lhe destina, mas apenas por três semanas. Isto porque, nas suas deambulações pelo novo espaço, roendo o osso do seu indefectível cepticismo, Cipriano Algor acabou por desvelar o segredo de toda aquela monstruosa estrutura: nas catacumbas do edifício, no piso zero-cinco, o oleiro descobre nada menos do que as ruínas da própria Caverna, a famosa alegoria de Platão. Encontra dentro dela seis corpos ressequidos, agarrados a bancos de pedra, mirando uma parede com as «órbitas encovadas» (p. 332).

A descoberta, diga-se, tem tanto de fulminante quanto o escancarar-se de uma porta desde sempre aberta. Do título do livro à epígrafe de Platão (República, Livro VII), precipita-se a intriga para este logro, fazendo ver como pisamos o real de cada dia com a leveza insubstancial das sombras, desvelando um nome para o que sempre existira silencioso ou silenciado no comum dos dias: «[…] Que foi que viu, quem são essas pessoas, Essas pessoas somos nós, disse Cipriano Algor, Que quer dizer, Que somos nós, eu, tu, o Marçal, o Centro todo, provavelmente o mundo» (pp. 334-5).

A alegoria é óbvia. Assim como a intenção moral, o dever ser que pulsa no simples ser da escrita. A desmaterialização por excelência começa exactamente ali, no idealismo platónico: transcendendo o devir, buscando-se nada menos do que a essencialidade intangível e invariante, o supremo arquétipo exemplarmente bom, belo e justo, a eternidade sem mais. Em suma: a vida como pura contemplação, os corpos como remanescências, meras sombras sem nada que as agarre ao que há de físico na terra, nas coisas e nos outros. Ou melhor: desvitalizando a própria tessitura de tudo o que nos prende à terra, às coisas e aos outros, fazendo equivaler a imanência do real ao mais ínvio da escória. Sombras, no fundo, à sombra de uma «ideia» universalista, totalitária, de sujeitos como consumidores exímios de tudo quanto o Centro lhes presenteia como essencial para viver. E é isto.

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Sem arrebatamentos líricos, nem intempestividades, no fim de um enredo tão terra-a-terra, eis como Saramago enxerta o absurdo como pólvora seca. A relevação dá-se de forma célere; apetece atrasar o ritmo, esticar um pouco mais aquela massa do tempo que vinha detrás, da olaria, da proximidade distante do cão Achado ao pé do dono. Mas Cipriano, com as habilitações escolares que tem, sabe ao certo onde está, o que tudo aquilo é – e representa. E sem demoras, nem hesitações metafísicas, o texto inteiro se contrai num pronto gesto de recusa, como o de Bartleby: dizer que não, ser consequente com isso, abandonar o Centro.

Sobrepor a esta renúncia activa uma leitura simbólica, entrevendo nela algum resquício de salvação, seria reinvestir A Caverna com algum desavindo determinismo engagé. Há que dissipar falsas dúvidas quanto a isto, que mais não seriam, aqui, do que onanismo hermenêutico; afinal, vinte anos depois da publicação deste livro, eu, que escrevo este texto, sou já um funcionário do «Centro», integro plenamente o sistema, divulgo o artigo pelo Facebook. Não estou do lado de fora, como Cipriano e a família idealmente se julgam ou imaginam, menos por quixotismo desbragado do que por uma «ira impotente» disposta a sentir na pele a solidão e o desespero das consequências por vir. O que me leva, por sua vez, a pensar na acção deste núcleo duro de protagonistas enquanto hipóstase da cólera pasoliniana, quer dizer, como que prolongando o ódio e as invectivas funestamente apocalípticas do autor de Vadios e Empirismo Herege contra a «juventude burguesa» do seu tempo, que «através do neocapitalismo […] está para se tornar na própria sociedade» e «coincidir com a história do mundo» (Pasolini, Entrevistas Corsárias, 2022, p. 66). Como se o clã Algor, com o seu amor profundamente realista, ligado ao conhecimento profundo da realidade que é a sua, desafiasse este diagnóstico sombriamente cassândrico que Pasolini traçou sobre o poder do consumo, ou o consumo elevado a poder na vida contemporânea: «Qual é a tragédia? A tragédia é que já não há seres humanos; há máquinas estranhas que batem umas contra as outras» (idem, p. 120); «Nesta arena, somos empurrados como um exército estranho e sombrio onde alguns têm os canhões e alguns têm as trancas. E então a primeira divisão, a clássica, é estar com os fracos. Mas creio que, num certo sentido, fracos são todos, porque todos são vítimas. E são todos culpados, porque estão todos prontos para o jogo do massacre e do ter. A educação que recebemos foi: ter, possuir, destruir.» (p. 122). E, por fim, como dois espelhos colocados de frente um para o outro, criando no intervalo que os demarca um vazio ebuliente ou um silêncio explosivo, há que vincar a importância do «não» tanto em Saramago como em Pasolini: se o Nobel português privilegiava o «não» como a mais necessária das palavras – «Creio que há que dizer ‘não’ até àquilo que neste momento ainda não merece que se diga ‘não’. Para preparar o caminho. Porque a verdade é pior do que o ‘não’.» (in Ler, Julho-Agosto de 2010, p. 41) –, Pasolini fala da rejeição como «um gesto essencial», comum aos «poucos que fizeram história»: «Os santos, os eremitas, mas também os intelectuais» (op. cit., p. 119).

A esses santos e eremitas, A Caverna acrescenta os oleiros com a fibra moral de Cipriano. Para onde vai o oleiro e os seus, tendo negado a vida no Centro? Não sabemos. Objectivamente, a furgoneta que os leva «desceu a ladeira» e, «chegando à estrada, virou à esquerda» (p. 349). No itálico, como no pormenor, reside tanto deus como o diabo; e, se é de Saramago que falamos, também o autor aí está, ciente do caminho a evitar, empenhado em fazer um caminho outro. Tudo o mais nos é vedado pelo texto, excepto pelo que nele nos é dado a imaginar. E pelo menos isso, ainda, por enquanto: aceitar que não se sabe, aceitar o que não se sabe, poder esperar o imponderável. Sem medo de ter medo. Livres para imaginar, como Isaura Madruga, consolando as aflições do amante Cipriano, «que há ocasiões na vida em que devemos deixar-nos levar pela corrente do que acontece, como se as forças para lhe resistir nos faltassem, mas de súbito percebemos que o rio se pôs a nosso favor, ninguém mais deu por isso, só nós, quem olha julgará que estamos a ponto de naufragar, e nunca a nossa navegação foi tão firme» (p. 346).

Há ainda Marta, com um filho na barriga. E, como neste poema de Rosario Castellanos, «Nada é. Nada existe / entre o abrir e o fechar das pálpebras. // Mas se alguém vai nascer (o seu anúncio, / a possibilidade da sua iminência / e o seu peso de sílaba no ar), / transtorna o que existe, / pode mais que o real / e desaloja o corpo dos vivos.» Assim seja, diz o desejo, promessa infinita de si mesmo. Uma ida ao cemitério, um cântaro que se dá, um cão que nos chega – e um bebé por nascer. A resistência íntima das coisas próximas, pegadas ao corpo, excessivas. Como a grave pedra tem por arte o centro desejar da natureza, é pois em repto camoniano, sob o crivo de uma paixão bruta por se existir em pleno, que a grave pedra que nos atrai ao chão é, em duplo sentido, o da gravidade física e o da gravitas moral, como bem notou Jean-Luc Nancy (2011). Quer dizer: os corpos e as coisas têm simultaneamente um peso medível, ou quantificável, e esse outro peso exorbitante, excedível, e mesmo assim tão próximo, tão dentro. Tal como Marta, portanto: grávida, com a gravidade embutida no ventre, carregando o peso de uma vida e de um mundo outro por vir. Como se nestas matérias precárias restasse a derradeira argamassa para negar à imaterialidade do mundo o seu vazio irradiante. Com o resto de paciência que, segundo Kafka, desprezámos demasiado cedo, o que nos fez perder aqui o paraíso – e «a paciência é tudo» (Rilke).

 

[entretanto, não sei acabar]

José Saramago: «Ainda que te possa parecer estranha a comparação, os gestos, para mim, são mais do que gestos, são desenhos feitos pelo corpo de um no corpo do outro.» (A Caverna, p. 116).

Rui Nunes: «um livro acarinha como o sossego de um atalho que nos leva ao encontro? à nossa face, passo a passo, redesenhada? Um livro é a voz que o lê? Onde se perde?» (Barro, p. 13).

José Saramago: «Vivi, olhei, li, senti, Que faz aí o ler, Lendo, fica-se a saber quase tudo, Eu também leio, Algo portanto saberás, Agora já não estou tão certa, Terás então de ler doutra maneira, Como, Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, A não ser, A não ser, quê, A não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, a sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá de chegar, […]» (A Caverna, p. 77).

 

Referências 

André Barata, O Desligamento do Mundo e A Questão do Humano, Lisboa, Documenta, 2020.

Jorge Luis Borges, Obras Completas III – 1975-1985, Lisboa, Teorema, 2010.

Rosario Castellanos, «Falsa elegia», in Poemas Escolhidos, introdução e tradução de Jorge Melícias, Lisboa, Antígona, 2020.

Mark Fisher, Fantasmas da Minha Vida. Escritos sobre Depressão, Hantologia e Futuros Perdidos, tradução de Vasco Gato, prefácio de Mariana Pinho, Lisboa, VS, 2020.

Byung-Chul Han, Não-Coisas: Transformações no Mundo em Que Vivemos, tradução de Ana Falcão Bastos, Lisboa, Relógio D’Água, 2022.

Franz Kafka, Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, prefácio e tradução de Cristina Terra da Motta, Sr. Teste, 2019.

Jean-Luc Nancy, O Peso de um Pensamento, a Aproximação, tradução de Fernanda Bernardo e Hugo Monteiro, Coimbra, Palimage, 2011.

Rui Nunes, Nocturno Europeu, Lisboa, Relógio D’Água, 2014.

_______, Barro, Lisboa, Relógio D’Água, 2012.

Pier Paolo Pasolini, Entrevistas corsárias sobre a política e sobre a vida, tradução e nota introdutória de João Coles, Lisboa, VS, 2022.

Tadeusz Różewicz, «O novo homem», in Os Ossos do Meu Duplo. Traduções de Poesia, tradução de Diogo Vaz Pinto, selecção e introdução de Luís Filipe Parrado, Língua Morta, 2021.

«Todos os nomes. Um dicionário de Saramago por ele próprio», Ler, Julho-Agosto de 2010, pp. 38-42.

José Saramago, Cadernos de Lanzarote. Diário – V, 2.ª edição, Lisboa, Caminho, 1998.

_______, A Caverna, 2.ª edição, Lisboa, Caminho, 2000.

_______, Cadernos de Lanzarote. Diário – IV, 6.ª edição, Porto, Porto Editora, 2017.

_______, Último caderno de Lanzarote, Porto, Porto Editora, 2018.

José Carlos de Vasconcelos, «Sou uma pessoa amada, tenho a certeza absoluta» (16 de Janeiro de 2003), in Conversas com Saramago. Os livros, a escrita, a política, o país, a vida, ed. Jornal de Letras, s.d.

A escrita deste texto foi financiada por fundos nacionais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, no âmbito do projecto de pós-doutoramento «Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes» (referência: SFRH/BPD/114849/2016).

Fotografia de fundo: autoria de Sebastião Salgado.

Outras fotografias: Diogo Martins.

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Acerca do Autor

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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