‘Toda a história desta guerra, supostamente para ‘desnazificar a Ucrânia’, tem tido o efeito contrário’

O Nazismo e a Ucrânia

O Nazismo e a Ucrânia

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A cruz de ferro é ou não um símbolo nazi? Com o atual conflito armado que opõe Rússia e Ucrânia no território desta última instalou-se a dúvida sobre esse facto entre aqueles que seguem o desenrolar dos acontecimentos. Alguns jornalistas, em vários media, concluíram que não é.

Em história trabalhamos com factos, indispensáveis, mas não trabalhamos só com factos, trabalhamos com contextos, estruturas, dinâmicas, processos, teorias, a história é um filme, não é uma fotografia; e em jornalismo também não deveria ser assim. Caso contrário bastaria alguém – até um computador hoje – coleccionar factos, colocá-los numa linha do tempo, e podíamos dispensar o trabalho dos historiadores. Toda a automação e pressão algorítmica vai aliás nesse sentido para o jornalismo… Muitos jornalistas, infelizmente, acreditam que a sua profissão está resumida a elencar factos.

A Ucrânia, país nascido no século XX do colapso dos impérios na I Guerra, passou por várias disputas. Entre elas refira-se a dos movimentos anarquistas contra os exércitos anti-bolcheviques brancos, que depois se rebelaram contra os bolcheviques também. Mais tarde a Ucrânia – essencial às tropas nazis pela sua capacidade produtiva de trigo e milho, a base de qualquer alimentação – , foi o palco de recrutamento de aliados pró-nazis (descritos magistralmente em As Benevolentes, de Jonhatan Littell), porque Estaline tinha feito aí a brutal colectivização forçada. Hitler foi recebido bem na Ucrânia, por isso. Até começar a pilhar os camponeses locais e estes terem feito um aliança para derrotar os nazis, mas sempre assente num nacionalismo radical. Um dos líderes pró-nazi, que se tornou herói nacional, é Bandera, que é o inspirador do Batalhão Azov, um dos batalhões que até há pouco tempo toda a imprensa internacional classificava de “milícia neonazi” (e as ONG ainda classificam) e agora são “resistentes nacionalistas”. Este símbolo passou a ser usado, com outros, pelos neonazis ucranianos, e pelos nacionalistas ucranianos. O Chega foi ouvir Zellensky à Assembleia da República falar no 25 de Abril ostentando, como sempre, a bandeira de Portugal na lapela e o braço ao peito. Neste contexto a bandeira de Portugal é evidentemente um símbolo de extrema-direita como o é a cruz de ferro.

A ‘desnazificação da Ucrânia’ tem tido o efeito contrário

O mais importante é isto. Toda a história desta guerra, supostamente para ‘desnazificar a Ucrânia’, tem tido o efeito contrário. Essa é uma das grandes consequências desta guerra. A Ucrânia é hoje o palco de uma nazificação acelerada, que a invasão russa (e a resposta bélica da NATO) só veio acentuar.

A normalização na UE e no mundo ocidental da extrema-direita, sob a capa de resistência do povo ucraniano, tem permitido a incorporação destas milícias no exército, o seu treinamento pela NATO, a abolição de partidos políticos, perseguições a jornalistas e gente de esquerda e imposição da censura nos media ucranianos – um clima explosivo feito sob a lei marcial em nome de salvar “o povo ucraniano”. A guerra da Ucrânia criou mais nazis do que toda a extrema-direita junta nos últimos anos em qualquer país, armou-os, preparou-os militarmente, e sobretudo, o mais perigoso, naturalizou-os. Hoje, estes nazis, ontem banidos e proibidos, são legais, foram reintegrados pelo Facebook e por outras redes sociais, e nos jornais aparecem como “nacionalistas”.

Não tenho dúvidas que a maioria do povo ucraniano não é nazi, como não tenho dúvidas do peso que hoje têm os nazis na direcção do Estado ucraniano, na direcção militar, na política do país. Zellensky ostenta a cruz de ferro porque tem uma alienação objectiva, em guerra, com neonazis e nacionalistas. Isso não torna a invasão russa legítima, mas tão pouco torna Zellensky o líder que povo ucraniano mereceria para resistir.

Virá a Ucrânia a transformar-se num estado falhado?

A outra grande questão interessante é tentar perceber que tipo de país é a Ucrânia para ter sido tão facilmente transformado num Estado que permite milícias nazis (desde pelo menos 2012-14 que o Estado tinha perdido o monopólio da violência), e como foi transformado, também com relativa facilidade, num palco de uma guerra entre os EUA e a China, e seus aliados, União Europeia (UE) e Rússia. A hipótese da Ucrânia como um Estado falhado é uma hipótese real. Um Estado corrupto, que perde o monopólio da violência, e mais de 15% da população activa a fugir dos baixos salários, é um Estado inviável – como a UE vai descalçar a bota da adesão é o que vamos ver nos próximos anos.

Entretanto o país está destruído, conquistado a leste pela Rússia, e a ocidente, onde os camponeses nacionalistas têm força – a Ucrânia tem uma das maiores populações europeias na agricultura porque até Zellensky era proibido vender as terras herdadas das leis pós-queda do Muro -, as terras vão passar a estar concentradas e sob a égide de multinacionais da UE. Portanto, uma nova vaga de migrantes do Oeste, fugidos à expropriação de terras (“venda” de terras em economês liberal), outros à guerra no Leste, espera-se nos próximos anos. Ou seja, um Estado a desaparecer, a Oeste e a Leste. Que deu entretanto à UE mão de obra barata, à Rússia domínio geopolítico, à NATO e UE venda de armas, e à China e Rússia e aos EUA um campo de disputa onde se medem forças pelo domínio do mundo, e não só da Ucrânia.

Um protetorado russo de um lado, uma semi-colónia da NATO do outro, e claro, um ninho de neo-nazis, que voltarão aos nossos países, com treinamento e armas, para fazer o que sabem – perseguir gente de esquerda, sindicalistas, intelectuais de esquerda e democratas. Tudo apoiado pela UE para “salvar a Ucrânia”. Uma cruz, de ferro.

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Categorias: Crónica, Guerra, História

Acerca do Autor

Raquel Varela

Raquel Varela é Historiadora, Investigadora e professora universitária/ Universidade Nova de Lisboa /IHC e Fellow do International Institute for Social History (Amsterdam). Foi Professora-visitante internacional da Universidade Federal Fluminense. É coordenadora do projeto internacional de história global do trabalho In The Same Boat? Shipbuilding industry, a global labour history no ISSH Amsterdam / Holanda. Autora e coordenadora de 25 livros sobre história do trabalho, do movimento operário, história global. Publicou como autora 51 artigos em revistas com arbitragem científica, na área da sociologia, história, serviço social e ciência política. Foi responsável científica das comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril (2014). Em 2013 recebeu o Santander Prize for Internationalization of Scientific Production. É editora convidada da Editora de História do Movimento Operário Pluto Press/London e comentadora residente do programa semanal de debate público O Último Apaga a Luz na RTP. Entre outros, autora do livro Breve História da Europa (Bertrand, 2018).

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