‘No dia a seguir à guerra as únicas pessoas que estarão onde sempre estiveram são aquelas que sabem que a guerra é a guerra mesmo que nunca tenham vivido nenhuma, pessoas que desconfiam que não há nenhum ato de razão que supere o absurdo de qualquer guerra’

A guerra é a guerra

A guerra é a guerra

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A guerra é a guerra, como canta Fausto, evidenciando que todas as guerras se parecem, com o seu desfile de crueldades e excessos que nos horrorizam e fascinam; e esta que a Rússia conduz na Ucrânia não é diferente. Porém, se o horror da guerra é imediato, o seu absurdo leva tempo a revelar-se. Dispor-se a matar outras pessoas e a aceitar a possibilidade de morrer em nome de uma bandeira ou, pior ainda, da fidelidade a um líder político, é um absurdo que exige distanciamento para ser percebido. Existindo em todas as guerras, talvez devamos ver nessa disposição por lutar até à morte por causas que pouco ou nada dizem ao combatente a expressão de um instinto territorial básico, matricial à própria espécie e manipulável a partir de diferentes instâncias de poder. Não sei. O que se observa, isso sim, é o modo como a experiência da guerra, não apenas para quem a faz mas também para quem a ela assiste, é um terreno fértil para o abandono da razão, para a criação de trincheiras onde se acoitam e combatem os defensores de verdades absolutas. Cada um da sua, bem entendido.

Reduzir os ucranianos a quase nada

Por vezes, esta «verdade absoluta» é apenas um reflexo pavloviano: «Qual é a posição dos EUA? Ah, é essa, então sou contra». O PCP especializou-se nesta matéria, que tem vários outros afloramentos à esquerda. Parece um paradoxo, mas esta absolutização da verdade verdadeira, quase sempre invisível aos demais, exige um enorme disciplina de relativização: «Somos solidários com o sofrimento do povo, MAS outros povos sofreram também»; «O Putin não é flor que se cheire, MAS há outros que cheiram tão mal ou pior»; «Os ultranacionalistas russos são neonazis, MAS o batalhão Azov é ainda pior». E por aí vai. O PCP consegue fazer bem esta relativização porque teve muito treino. Quem tem idade para isso lembra-se, certamente, do tempo do parcialismo antinuclear do PCP, um arrebatamento em nome da paz que distinguia entre bons e maus mísseis. O mesmo se podia dizer da militância ambiental, quando o PCP esverdeou, apontando uma culpa exclusiva ao capitalismo, deixando de fora os catastróficos desastres ambientais cometidos pela URSS e seus aliados. Convém dizer que nada disto contraria a justeza das adversativas que referi: é verdade que muitos outros povos sofreram e sofrem ainda sem que a solidariedade mundial-ocidental se manifeste; que Putin é apenas uma das faces da plutocracia que governa o mundo por detrás da cortina de uma democracia cada vez mais reduzida ao formalismo do voto; que os EUA, coadjuvados ou não pela NATO, levaram miséria a milhões de pessoas sem que nada o justificasse. Tudo isto é verdade e mais se poderia juntar ao rol. A insanidade está em entender que esta agressão russa é uma espécie de resposta justa a agressões anteriores, como parece ser o que julgam algumas almas que se acham de esquerda. Insanidade que reduz os ucranianos a quase nada: vítimas acidentais e sem espessura ou serventuários do poder capitalista justamente castigados por essa irremovível culpa.

Pior que uma guerra

À direita, os liberais não são menos pavlovianos ou imbecis. Pouco dados a complexificações, usam a receita costumeira, a única que conhecem: se há um problema foi a disfunção dos mercados que a provocou; se se procura uma solução é no mercado que se encontra. Dizem que em vez de ser um player justo nos mercados abertos e livres, a Rússia optou por uma economia concentracionária, criando a figura sinistra do oligarca, que em nada se confunde (era o que mais faltava!), com os empresários do mundo livre. Para estes pensadores iluminados o fracasso económico explica tudo… exceto o que é explicado pelo sucesso económico. Tal como os comunistas, têm a certeza do caminho e, como sempre sucede em tais circunstâncias, há muito de místico nessa certeza do rumo no exato momento em que o caminho nos leva para um lugar desconhecido. É a fé que os guia e é na falta de fé que depressa esbarram, na incapacidade de perceber os que não veem a luz que os orienta. Não entendem a guerra – «Como é possível entender uma ação deliberada que afeta o crescimento económico?», perguntam eles espantados – mas acham que a resolvem ameaçando cortar a mesada ao Putin – nem sequer a cortando, que deixar de comprar gás e petróleo seria mau para a economia, e o que é mau para a economia é pior que uma guerra!

Antecipar ganhos de causa

À direita desta direita fica, ainda assim, uma chusma de gente, ultranacionalistas que sopesam e comparam o nacionalismo putinista e o ucraniano; populistas que arreganham o dente adivinhando a crise que aí vem e antecipando ganhos de causa; fascistas que sonham ter a sua própria guerra para serem heróis como Zelensky

‘Não há nenhum ato de razão que supere o absurdo de qualquer guerra’

No meio de tudo isto, talvez nos interstícios das certezas que ninguém pode ter, achamos as pessoas comuns. Aquelas que se afligem com o sofrimento alheio, que sofrem mais desta vez que em situações anteriores não por distinguir entre ucranianos e iraquianos mas apenas porque as televisões decidiram mostram um lado da guerra que noutras ocasiões omitiram. Pessoas que sabem que a guerra é a guerra mesmo que nunca tenham vivido nenhuma, pessoas que desconfiam que não há nenhum ato de razão que supere o absurdo de qualquer guerra. No dia a seguir à guerra são estas as únicas pessoas que estarão onde sempre estiveram, sem rejubilarem por uma vitória que sempre se fará à custa de incontáveis mortes, nem precisarem reajustar a narrativa do que se passou às certezas absolutas que cegam quem as profere.

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Obs: texto previamente publicado na página de facebook de Luís Cunha, tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.

Imagem: Sponichi / Livedoor News

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Categorias: Crónica, Guerra, Violência

Acerca do Autor

Luís Cunha

Professor universitário. Braga.

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