‘Ai de quem diga que não. Quando se provar que estávamos enganados, negamos tudo.’

Eis a terra que vos dou… ou antes pelo contrário

Eis a terra que vos dou… ou antes pelo contrário

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1.

Eis a terra que vos dou. Crescei e multiplicai-vos. E os homens cresceram e multiplicaram-se. Não entendiam bem os homens aquele feitiço da mulher que trazia, não se sabe donde, os filhos, nem como. Mas nem por isso deixavam de a procurar, e assim foram crescendo, até que um dia souberam, e multiplicaram-se ainda mais.

2.

Povoaram a terra, num movimento contínuo de expansão, à procura de alimento e, certamente, uma vez por outra, sentiam um não sei quê, além do conforto do sustento, e era o aflorar da descoberta e do espanto, traduzido ainda em gritos, saltos, mímicas inatas, imitações onomatopaicas.

3.

Sim. Foram os sons da natureza e dos outros animais, as sensações de bem ou mau estar, da euforia e do medo que os ensinaram a falar. E as fantasmagorias da noite e do dia. E foram chegando, daqui e dali, e foram-se afastando para ali e para acolá, até que chegaram a todos os recantos mais hospitaleiros, primeiro, e aos mais inóspitos.

4.

E mesmo naqueles onde era muito difícil ser e estar, crescer e multiplicar, arranjaram forma e deixaram suas marcas. Eram solitários muito. Grupos pequenos. Mas cresceram e cresceram. Tanto que começaram a tropeçar uns nos outros. Cada vez se concentravam mais, e cada um achava que era o outro que lhe estava a roubar o espaço. E, para agravar o problema, cada um queria sempre mais espaço do que o que necessitava. E começaram a matar-se conscientes e a comer-se uns aos outros.

5.

E continuaram, e continuaram. E cada vez mais concentrados, meteram-se dentro duma espécie de jaulas que inventaram para sua protecção e sossego, mas isso só fez deles prisioneiros e não resolveu nada. Antes agravou. Ficaram sem espaço vital, e isso fê-los regredir até ficarem piores que os outros animais.

6.

E foi assim que transformaram os seus dias numa guerra diária de vida e de morte, cada um lutando, gemendo e chorando, pedindo e suplicando, numa forma bélica sempre, impotente e manhosa, de todos contra um, de um contra todos, dos de cima contra os de baixo, dos debaixo contra os do meio, e nunca mais tiveram sossego.

7.

Poetas vieram. E vieram santos. Vieram profetas. Até deuses vieram. Vieram filósofos. Vieram generais. Ergueram-se impérios. Impérios caíram. Levantaram-se templos, que se destruíram. Houve libertações para todo o sempre. Matou-se a servidão para nunca mais. De nada valeu. Nada adiantou. Está tudo na mesma. Matamo-nos uns aos outros, continuamente. O homem não mudou. Nem o pensamento. Só o armamento.

8.

Na verdade, só entendemos o jogo da maldade. Não queremos pensar. Gostamos da nossa forma assim mais animal. Queremos um que vá à frente. Um qualquer. Quanto mais dementemente próximo de nós, melhor. Até nos inventámos todos iguais, mas só a brincar. E aplaudimos o nosso ladrão e o nosso assassino, um santo comprovado, garantimos, a pé junto, e juramos. E duma qualquer copa de palha fazemos um herói, que inventamos. E ai de quem diga que não.

9.

E quando se provar que estávamos enganados, negamos tudo. Que nunca, ora essa! Antes pelo contrário. E se alguém nos lembrar a nossa palermice e a nossa estupidez, ofendemo-nos muito, e desfazemos-lhe logo ali, com toda autoridade, o seu argumento, chamando-lhe fascista ou comunista, ou do antigamente, conforme o que na altura for mais conveniente.

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Categorias: Cultura, Literatura

Acerca do Autor

António Mota

Professor. Braga.

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