‘O Pai Natal pode revelar-se, afinal, um ilusionista, capaz de ser um bom artista, mas no truque só cai mesmo quem quer’

Cotrim, o Pai Natal em janeiro

Cotrim, o Pai Natal em janeiro

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Por acharem que trouxe ideias frescas e boas, a maioria dos comentadores mais ou menos encartados adoram João Cotrim de Figueiredo. O facto de acharem semelhante coisa não abona nada acerca do discernimento de tais «achadistas», mas de tão repetido este encantamento com Cotrim de Figueiredo acabará por ter reflexo eleitoral. É bem sabido que a comunicação social gosta de ideias claras e simples, exceto nas ocasiões em que detesta ideias simples e claras. Tudo depende de quem as enuncie, naturalmente.

Confesso que já dei por mim com vontade de aplaudir com entusiasmo, e até com lágrima no canto do olho, o bom do Cotrim. É que aquele liberalismo retórico é profundamente socialista! A questão é: pode alguém de esquerda, um verdadeiro socialista, não concordar com este homem, ele sim ungido por Deus para nos colocar no bom caminho?! Se quisermos encontrar o slogan que melhor define o Iniciativa Liberal (IL) é fácil: «Menos Estado, logo mais Estado!» Exatamente: uma daquelas ideias simples que se revelam geniais! O Estado é o saco que o Pai Natal Cotrim transposta às costas. E é um saco sem fundo, como convém a um verdadeiro Pai Natal.

Com Cotrim, o Estado paga e cria um socialismo que não deixa ninguém para trás

Questões magnas da nossa vida coletiva, como a educação e a saúde, resolve-as o Cotrim em menos que nada. É o ovo de Colombo aplicado à governação. «As famílias de menores recursos estão condenadas a colocar os seus filhos em escolas públicas da treta?», pergunta o pensador. E ele mesmo responde: «Claro que não. A família deve poder escolher a escola que mais lhe agrade e seja mais prometedora para o futuro da criançada!». O mesmo se aplica à saúde, pois então. Com o liberalismo socialista de João Cotrim de Figueiredo ninguém ficará à míngua de cuidados de saúde: «A cada um a sua maleita e a cada maleita o melhor dos doutores». Em ambos os casos o Estado paga, dessa forma se criando um verdadeiro socialismo que não deixa ninguém para trás. No Colégio Alemão e similares, os Cotrins desta vida passarão a ter como colegas de carteira os Toninhos e os Zé-Tós da periferia, enquanto as imaculadas salas de espera das clínicas privadas se tornarão numa espécie de Feira do Relógio para dar resposta às insuficiências do SNS. Não vai faltar quem queira ver o milagre. Ressuscita, Fellini, vem filmar!

No liberalismo da IL, o Estado paga: a educação, a saúde, a habitação, a alimentação…

Só tenho pena que o Pai Natal Cotrim não vá tão longe como podia e como merecem tão arejadas ideias. Então, Cotrim?! Resolvidos os problemas da educação e da saúde com esta generosidade estatal, a mesmo receita deve ser aplicada a questões tão centrais como a habitação e a alimentação. Por que razão deve uma família pobre acantonar os seus quatro filhos no único quarto disponível do pardieiro onde vive? Tal como na escola, é da mais elementar justiça que cada família possa escolher a casa que lhe convém, ficando o Estado com o encargo, está bem de ver. E a alimentação, santo deus, mas haverá coisa mais básica que a alimentação? E no que a esta concerne, será justo que essa mesma família pobre só tenha acesso ao prato do dia na Tasca da Leontina?! Caros amigos, confiem na IL e no Cotrim! Justo, justo, é que uma família possa escolher o restaurante que mais lhe convém, pelo que em breve teremos o Belcanto do Avilez transformado numa genuína Cozinha Económica para desfrute não apenas de quem pode, mas também de quem não pode mas merece. O Estado assinará o cheque.

O Pai Natal, um verdadeiro ilusionista

Não sei se é possível falar com seriedade das elucubrações liberais de Cotrim e seus rapazes. Muitos comentadores acham que sim, parecendo que nenhum se deu ainda ao trabalho de pensar como as ideias simples que o IL defende se aplicam na prática. Veja-se a escola como exemplo. A ideia é a do cheque-ensino (digamos de 200 euros), atribuído por igual a todas as crianças, deixando aos pais a escolha da escola. O Martim, que anda num bom colégio privado, recebe o seu cheque, tal como o Zé-Tó, que anda numa escola pública, o recebe também. Os pais de Martim, profissionais liberais, com rendimentos acima da média, embolsam os 200 euritos, que abatem à conta do colégio privado. Os pais do Zé-Tó, desempregados mas que ambicionam o melhor para o filho, depressa percebem que com aquele cheque só conseguem mesmo pagar a escola pública, devolvendo o cheque à proveniência e ficando com o bolso vazio, tal como estava antes. Moral da história: o Pai Natal pode revelar-se, afinal, um ilusionista, capaz de transferir valor de quem menos tem para quem tem mais sem que ninguém disso se aperceba. O artista é um bom artista, mas no truque só cai mesmo quem quer.

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Obs: texto previamente publicado na página pessoal de facebook de Luís Cunha, tendo sofrido ligeiras adequações editoriais na presente edição.

Imagem: CdM

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Acerca do Autor

Luís Cunha

Professor universitário. Braga.

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