Filme multipremiado de Catarina Vasconcelos imagina factos desconhecidos complementando documentário sobre vida real da sua avó Beatriz

Um retrato de segredos de família em ‘A Metamorfose dos Pássaros’

Um retrato de segredos de família em ‘A Metamorfose dos Pássaros’

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A Metamorfose dos Pássaros , de Catarina Vasconcelos, é um dos mais belos filmes portugueses dos últimos anos. Vai ser exibido pelo Lucky Star – Cineclube de Braga muito em breve, no próximo dia 18 de janeiro, pelas 21h30, na Biblioteca Municipal Lúcio Craveiro da Silva. A exibição acontece no âmbito de um miniciclo que o cineclube bracarense dedica ao ‘Cinema Português Contemporâneo’.

Mortos e segredos em família

‘Os mortos não sabem que estão mortos. A morte é uma questão dos vivos’. E ‘as famílias são uma coleção de segredos’, diz a realizadora, referindo-se ao conteúdo principal de A Metamorfose dos Pássaros, como que antecipando a partilha de alguns mistérios da sua vida, tal como tantas vezes fazemos com amigos e conhecidos, esperando que depois também nos correspondam na mesma moeda. E, sim, trata-se de um registo biográfico, ainda que nem sempre exato.

A Metamorfose dos Pássaros, documentário em grande parte ficcionado

Apesar da forma próxima do documentário, Catarina Vasconcelos afirma que a história de Beatriz – a avó paterna da realizadora, que nunca chegou a conhecer, e da sua família, em especial a mãe -, narrada em A Metamorfose dos Pássaros, nunca o poderia ser ‘no sentido de um filme que retrata ‘a’ realidade’. ‘Se não conheci o meu pai e os meus tios enquanto eram jovens, então tinha de os imaginar. E em relação a Beatriz… ela foi crescendo com o que me contaram, com o que eu observei e com aquilo que imaginei que ela seria. Como um puzzle’.

A avó Beatriz afinal não era apenas uma fotografia

‘Durante muitos anos acreditei que a minha avó era uma fotografia: aquela fotografia de Beatriz, alta, vertical como as árvores, com o casaco apoiado sobre os ombros e um sorriso enigmático como o de Mona Lisa, estava nas casas de todos os membros da minha família. Em casa do meu pai, esta fotografia esteve sempre em cima do móvel que guarda as memórias e coleções da minha mãe. Sempre foi ali que a avó, que gostava de ser tratada por Triz, viveu. Como que a olhar pelas recordações da minha mãe. Esta fotografia, que vivia em forma de altar em todas as casas, sempre me fez sentir que havia qualquer coisa para eu saber’, revela Catarina Vasconcelos.

Esse qualquer coisa viria ao de cima quando o seu pai lhe comunicou que a correspondência entre a sua avó e o seu avô Henrique iria ser queimada. Ficou ‘muito chocada’ e, ao mesmo tempo, com ‘a certeza de que queria fazer um filme sobre Beatriz. Porque não é justo os mortos morrerem duas vezes. Estávamos em 2014’.

Afinal, ‘a avó Triz não era uma fotografia. Ela existia e eu precisava de saber quem era’. E, assim, Catarina Vasconcelos iniciou um profundo trabalho de investigação que a ajudaria a descobrir quem, de facto, era, foi, a sua avó Beatriz. A partir dos seus resultados, realizou um filme belíssimo e que toca qualquer um. ‘Existem coisas neste filme que não aconteceram bem assim. Mas podiam ter acontecido’. As famílias são sempre um imenso desconhecido; é o ‘mistério das famílias’.

Busca incessante pela memória

‘A particularidade de A Metamorfose dos Pássaros encontra-se na sua incessante busca pela memória, um processo que executa através dos objetos afetivos que se indiciam como atalhos para essas réplicas emocionais. Da mesma forma que existe genuinidade e ternura neste gesto proustiano de perpetuar o passado (mais do que experienciar o presente), há também uma farsa cometida que se instala como uma readaptação ao seu cerco cinematográfico. As recordações, essas, são verídicas, mas a realizadora Catarina Vasconcelos recorre à encenação, aos pseudónimos, aos embelezamentos que a própria revela para tornar todo esta genealogia de alma numa belíssima galeria de quadros pintados, muitos deles remetendo à natureza morta, pelo qual delineiam a fronteira deste microcosmo’, destaca Hugo Gomes, em C7nema.

‘É um retrato familiar, mas quem são os actores — e de quem é a história?’

Sobre o filme, Alexandre Pinto, na Comunidade Cultura e Arte acrescenta: ‘É como um jogo oferecido, uma bonita oferta, que nos liberta a necessidade de o intelectualizar. Pois nele tudo é tão simples: é composto maioritariamente por planos de câmara estática, frequentemente muito aproximados, com objetos, ou detalhes, que descrevem uma vida; e quando se estica na distância, alongando a cena com movimentos gentis, nasce algo que só pode ser poesia. Quase tudo o que é filmado se narra, e a música abunda; a história vai-se fazendo com calma, entretecida em todas as partes formais que compõem o filme. Há pinturas, e há imagens que são autênticos quadros; naturezas-mortas elegantes e austeras, e uma curiosidade infantil pela cor do mar, pela cor das plantas. A narrativa discorre, lentamente, como um novelo que se transforma em tecido — é uma das imagens evocadas logo no início, entre as ternas brincadeiras de infância. É um retrato familiar, sem dúvida; mas quem são os actores — e de quem é a história?’

Filme multipremiado e multirreconhecido

O filme de Catarina Vasconcelos teve estreia mundial no festival de Berlim, em fevereiro de 2020, onde conquistou o Prémio da Crítica Internacional. Só mais tarde, A Metamorfose dos Pássaros estreou em Portugal, no IndieLisboa, onde conquistou o Prémio de Melhor Realização para Longa-metragem Portuguesa e o Prémio do Público. Foi ainda nomeado como representante do cinema português nas candidaturas à 94ª edição dos Óscares. A estreia comercial aconteceu apenas em outubro de 2021, tendo entretanto também estreado em televisão.

Desde a estreia absoluta, A Metamorfose dos Pássaros tem conquistado diferentes distinções, em diferentes certames, como o Prémio de Melhor Filme no Festival de Vílnius, na Lituânia, e o Prémio Especial do Júri no Festival de Taipei, em Taiwan, num total de mais de 2 dezenas de prémios internacionais, tendo também sido exibido em mais de 60 festivais de cinema em todo o mundo.

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Ficha técnica

Título original: A Metamorfose dos Pássaros (Portugal, 2020, 100 min.)

Realização: Catarina Vasconcelos

Interpretação: Manuel Rosa, João Móra, Ana Vasconcelos, Zé Maria Rosa, Henrique Móra, Inês Melo Campos, Nuno Vasconcelos, Henrique Vasconcelos, Catarina Vasconcelos

Trailer: A Metamorfose dos Pássaros na Berlinale Encounters 2020

Fica ainda muito do mistério evidente no filme para descobrir. Não deixe de o fazer, este é mesmo um daqueles filmes a não perder.

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Imagens: FCF

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Categorias: Agenda, Braga, Cinema, Cultura

Acerca do Autor

Pedro Costa

Diretor e editor.

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