‘Percebi outra vez que a poesia era aquilo que acontecia na leitura, uma luz, uma coisa do outro mundo’

Lembrei-me de um poema

Lembrei-me de um poema

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Sento-me agora um pouco.

Passei o dia de um lado para o outro a tratar de coisas, compromissos, recados, visitas.

Soube-me bem passar na Queijaria Central, aqui bem no centro de Braga, e então lembrei-me, era eu pequenito, a loja estava virada ao contrário, comprávamos as bolachas, o fiambre, o queijo a granel, um bocadinho de cada vez. Lembrei-me do queijeiro, o senhor Dias, e da esposa, sempre muito fresca, arrebitada, manga arregaçada, e a cidade escorregava nas lamas do regime e às vezes o passeio podia parecer mais alegre, mas isso era por altura das festas, dos ranchos, da fanfarra, da banda da Trofa a encher o coreto, as tílias cheias de pardais.

Encontro o meu amigo sentado no mesmo sítio, um pouco mais velho, mais doente, mais pobre, a mesma miséria, a doença visível no rosto inchado, na cor, no discurso repetido, a falta de quase tudo, e ele era pequenito e brincava na Avenida Central e eu já era professor e vejo-o sentado, suportando os séculos da cidade, as muralhas mudadas em chuva, humidade, presságio.

Olho vagamente a grande árvore de Natal a engalanar o chafariz. Não ligo muito, mas gostei de ver o Jardim de Santa Bárbara.

Lembrei-me de um poema, deve ser por isso, e depois trouxe o “Ulisses”, de Benjamin Fondane e percebi outra vez que a poesia era aquilo que acontecia na leitura, uma luz, uma coisa do outro mundo.

“Eu era um grande poeta nascido para cantar a Alegria –

mas soluço na minha cabina,

ramos de água do mar murcham nos vasos

o Outono do meu coração leva ao Père-Lachaise,

a eternidade está aí, olho calmo do tempo morto

é chegar verdadeiramente só chegar ao porto?

Armand a tua cinza pesa tanto na minha mala.

Aqui está a tua vida imensa que rebenta com as pontes.

Sabes nadar, eu sei, mas o rio é longo!

Éramos esmagados por essa luz desumana.

Porquê cantar tão alto? Garganta cheia

que só pede para cantar?

Se o castelo estivesse assombrado?

Se os deuses se divertissem a usar-nos como alvo?

Entraste vivo nas mãos do deus terrível

e até à morte continuaste vivo…

… Porque é que a onda não me quer arrastar?

Oceano,

a tua onda furiosa fustiga o velho Outono!

(…)”.

Doem-me os pés, posso ficar gelado, não digo nada a ninguém.

Na esplanada da Praia Grande de Porto Covo

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Obs: texto previamente publicado na página facebook do autor José Miguel Braga, tendo sofrido ligeiras adequações editoriais.

Imagem: MBRG

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Categorias: Crónica, Memórias, Poesia

Acerca do Autor

José Miguel Braga

Professor, encenador, ator.

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