Alguns factos inusitados sobre o escritor que se transfigurou de homem comum em símbolo nacional

Dez (ou onze) curiosidades sobre José Saramago

Dez (ou onze) curiosidades sobre José Saramago

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A 16 de novembro, José Saramago celebraria 99 anos. Assim, ao longo do próximo ano, celebrar-se-á o Centenário do escritor que se transfigurou de homem comum em símbolo nacional. Recordamos, por isso, o Prémio Nobel da Literatura, em 1998, partilhando algumas curiosidades sobre o autor de Viagem a Portugal, recentemente reeditado em edição especial comemorativa. Já as conhece?

1. Sabemos a importância que um primeiro livro tem na vida de um leitor. Mas sabe qual foi o primeiro livro que José Saramago teve? Foi um presente da sua mãe, um romance de Émile de Richebourg, intitulado Toutinegra do Moinho.

2. Sabia que o seu apelido não era Saramago? Sim, um dos nomes mais reconhecidos da literatura portuguesa poderia ter sido diferente, não tivesse sido o caso de, na altura do seu nascimento, um funcionário do Registo Civil da Golegã ter decidido incluir, como apelido na sua certidão de nascimento, a alcunha familiar, Saramago. Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha das pessoas com mais dificuldades económicas. Não tivesse sido assim e José Saramago seria conhecido hoje como José Sousa, tal como o seu pai.

3. Se o seu primeiro emprego não é o que sonhava, não desespere. O  primeiro emprego do único (até à data) Nobel português da Literatura foi de serralheiro mecânico, numa oficina de reparação de automóveis, tendo ainda trabalhado durante muito tempo como funcionário público. Filho e neto de camponeses, de origens humildes, dificilmente poderia ter imaginado o que o futuro lhe guardaria.

4. Para ajudar às finanças da família (mas também por gosto, segundo o próprio) dedicou-se durante mais de duas décadas à tradução, tendo traduzido autores como Colette, Pär Lagerkvist, Jean Cassou, Maupassant, André Bonnard, Tolstoi, Baudelaire, Étienne Balibar, Nikos Poulantzas, Henri Focillon, Jacques Roumain, Hegel e Raymond Bayer.

5. Se tem o sonho de viajar mas continua a adiar esses planos, lembre-se que, embora a obra literária de Saramago tenha viajado, e continue a viajar, um pouco por todo o mundo, Saramago só fez a sua primeira viagem aos 47 anos. O destino eleito foi Paris.

6. Antes de conhecer Pilar del Ríoa mulher que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar, Saramago foi casado com a pintora Ilda Reis, com quem teve a sua única filha (Violante) e teve uma relação com a escritora Isabel da Nóbrega.

7. Tendo sido alvo de censura pelo Governo português e pela Igreja Católica, pelo seu sobre o romance O Evangelho segundo Jesus Cristo, mas também pelo seu militantismo comunista, mudou-se para Lanzarote com Pilar, onde ficou até ao final dos seus dias. Contudo, mantinha em Lisboa uma casa no Bairro do Arco do Cego, que lhe servia de residência durante as suas permanências na capital.

8. Sabe como Saramago descobriu que tinha sido laureado com Nobel da Literatura? Foi uma assistente de bordo que lhe disse. No dia anterior, Pilar tinha recebido um telefonema de um amigo, professor na Suécia e ligado à Academia Sueca, a informá-la que, no dia seguinte, a Academia Sueca iria anunciar que o Nobel seria atribuído a Saramago e pediu-lhe segredo. Coube-lhe, contudo, a responsabilidade de garantir que Saramago não embarcasse no voo que tinha agendado, de regresso a casa, sem, no entanto, lhe revelar o motivo. Nessa noite, Pilar tenta convencer Saramago a ficar, alegando que se embarcar perderá o anúncio do Nobel. Ao que o mesmo, sem se dar por convencido, riposta: “E se ficar, perco o Nobel e o avião. Já no aeroporto de Frankfurt, os representantes da comitiva portuguesa são informados que Saramago já havia embarcado. Depois de explicado o motivo, os funcionários aceitam entrar no avião e pedir a Saramago que regressasse. Foi aí que uma assistente da companhia aérea Ibéria, lhe fez o comunicado.

9. Se tem um daqueles nomes que as pessoas insistem em pronunciar mal, não se sinta mal. Também Saramago, após o reconhecimento internacional que obteve com o Nobel, passou pelo mesmo. Na altura, todos os nomes eram válidos para satisfazer a curiosidade do mundo: “Samarado” “Saranago” ou “Siromago”. O The New York Times esclareceu os seus leitores: “It’s pronounced Saw-ra-maw-go”.

10. José Saramago tinha três cães – Pepe, Greta e Camões. Este último ganhou o nome do poeta português pois apareceu na vida do autor na época em que este foi anunciado como vencedor do prémio Camões (1995). Sobre isso, Pilar recorda: “E assim, pelo menos em Lanzarote, Camões foi mencionado centenas de vezes por dia, foi vida e foi homenagem.” Quando o autor faleceu, o amigo que estava lá em casa e ali passou a noite, atribuiu, no dia seguinte, o seguinte título à sua coluna jornalística: “Camões chora por Saramago”.

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Alguns livros de José Saramago:

O ano da morte de Ricardo Reis

  • Sinopse: “[em O Ano da Morte de Ricardo Reis] é como se eu tivesse a preocupação fundamental de tornar o real imaginário e o imaginário real. Foi como se quisesse fazer desaparecer a fronteira entre o real e o imaginário, de modo a que o leitor circule de um lado para o outro sem se pôr a si mesmo a questão: isto é real?, isto é imaginário? Gostaria que o leitor circulasse entre o real e o imaginário sem se interrogar se aquele imaginário é imaginário mesmo, se o real é mesmo real, e até que ponto ambos são aquilo que de facto se pode dizer que são.”

Viagem a Portugal

  • Sinopse: “Entre outubro de 1979 e julho de 1980, José Saramago percorreu o país lés a lés a convite do Círculo de Leitores, que comemorava o décimo aniversário da sua implantação em Portugal. Disse o autor após essa deambulação, misto de crónica, narrativa e recordações, que «o fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite… É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos». Este é um livro decisivo para José Saramago, na medida em que se constituiu como um marco que ofereceu ao autor condições materiais para se dedicar à escrita a tempo inteiro. Esta edição especial de Viagem a Portugal inclui todas as fotografias que Saramago fez ao longo da sua viagem — quase todas inéditas —, a par de fotografias de Duarte Belo, e a sua publicação coincide com o início das comemorações do Centenário de José Saramago.”

Ensaio sobre a cegueira

  • Sinopse: “Ensaio sobre a Cegueira é uma espécie de imago mundi, uma imagem do mundo em que vivemos: um mundo de intolerância, de exploração, de crueldade, de indiferença, de cinismo. Mas dirão: “Também há gente.” Pois há, mas o mundo não vai nessa direção. Há pessoas humanizáveis, pessoas que se vão humanizando por um esforço de supressão de egoísmos. Mas o mundo no seu conjunto não vai nessa direção.”

A jangada de pedra

  • Sinopse: “O romance que então escrevi [A Jangada de Pedra] separou do continente europeu toda a Península Ibérica para a transformar numa grande ilha flutuante, movendo-se sem remos, nem velas, nem hélices em direção ao Sul do mundo, “massa de pedra e terra, coberta de cidades, aldeias, rios, bosques, fábricas, matos bravios, campos cultivados, com a sua gente e os seus animais”, a caminho de uma utopia nova: o encontro cultural dos povos peninsulares com os povos do outro lado do Atlântico, desafiando assim, a tanto a minha estratégia se atreveu, o domínio sufocante que os Estados Unidos da América do Norte vêm exercendo naquelas paragens… Uma visão duas vezes utópica entenderia esta ficção política como uma metáfora muito mais generosa e humana: que a Europa, toda ela, deverá deslocar-se para o Sul, a fim de, em desconto dos seus abusos colonialistas antigos e modernos, ajudar a equilibrar o mundo. Isto é, Europa finalmente como ética. As personagens da Jangada de Pedra – duas mulheres, três homens e um cão – viajam incansavelmente através da península enquanto ela vai sulcando o oceano. O mundo está a mudar e eles sabem que devem procurar em si mesmos as pessoas novas em que irão tornar-se (sem esquecer o cão, que não é um cão como os outros…). Isso lhe basta.”

Memorial do convento

Sinopse: “Para escrever este romance [Memorial do Convento], cuja ação se situa entre 1711 e 1739, a primeira exigência é um conhecimento tido por suficiente dessa mesma época. Isso significa que se tenha que dar um mergulho nesse século através da leitura de documentos. Durante muitos meses vivi no fim do século XVII e no século XVIII. Precisei de ler e quase de falar como então se falava. Olhei muito para a pintura da época e ouvi muita música. Talvez não fosse necessário, mas senti-me bem ao fazê-lo. No que toca à investigação, que ponho sempre entre aspas por não ser rigorosa, tive de consultar e de decifrar documentos da época, de preocupar-me com aspetos económicos e sociais, com a questão do Santo Ofício, não tanto para vir dizê-lo, mas como se quisesse senti-lo.”

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‘Que mais resta [então] dizer’ sobre José Saramago?

Nada como ‘viajar’ e descobrir por si mesmo.

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Obs: artigo previamente publicado em Blogue Somos Livros, tendo sofrido adequações editoriais na presente edição.

Imagens: DR

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