‘“Nós somos o povo!”, sujeito histórico do inevitável’

A ‘Epopeia’ da História

A ‘Epopeia’ da História

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Celebra-se a 9 de novembro a queda do Muro de Berlim, um grande dia para a humanidade. O socialismo ‘real’ era uma ditadura contra qualquer possibilidade de socialismo, uma ditadura feita em nome dos trabalhadores contra os trabalhadores. Nenhum Estado tem tanto sangue comunista nas mãos como a URSS e outras ditaduras burocáticas, que se organizaram em torno de partidos comunistas que se transformaram em castas do aparelho de Estado, incluindo as do Oriente. Não foi depois de 1989 que os direitos no Ocidente se esboroaram nem por causa de 1989, nem Estaline ‘venceu’ a II Guerra, apesar de terem sido os russos, eslavos, que pagaram o preço maior dos 26 de milhões de mortos para derrotar Hitler, que começou a perder em Estalinegrado (a idolatria até nome de cidade e múmias deu!).

A revolução popular que levou à queda da URSS foi uma revolução de base, trabalhadora, uma ‘epopeia da história’ como o são todas as revoluções, o que aconteceu depois de 1989 foi a vitória do capitalismo que nesta fase histórica de acumulação na decadência se chama neoliberalismo, hegemónico, aqui também, e cujos resultados estão à vista – total ausência de segurança no emprego (enquanto clamam por mais segurança no Estado e nas Polícias); patologias da solidão por todo o lado; destruição dos laços comunitários e de confiança nos locais de trabalho; ausência de esfera pública; exaustão, horários de trabalho do século XIX, destruição de serviços públicos de qualidade, e a fulanização (e também já idolatrização) da política com messias salvadores, mais ou menos autocontidos, seja na forma frenética mediática seja recorrendo à fala rude, o regresso da política sem massas, sem gente que trabalha, é um marco depois de 1989.

Tal não é responsabilidade das revoluções de 1989 – como alega tanta gente de esquerda –, mas do facto de, no Ocidente, antes de 1989, os grandes sindicatos e partidos de esquerda terem aceite a precariedade e o fim do Estado Social Universal, em troca do Estado Assistencial, que marca toda a história da União Europeia (UE) E desde 1982/84. As revoluções de 1989 foram dirigidas no fim pelos Estados e burocracias/burguesias/elites várias que preferiram negociar o seu quinhão no aparelho de Estado a defender o socialismo – que nunca chegou, que só poderia existir na igualdade e na liberdade plenas.

A derrota dos direitos na Europa começou muito antes de 89, com a derrota dos mineiros ingleses e a adesão massiva dos sindicatos europeus, ainda nos anos 80, às pré-reformas em troca de trabalho precário para os jovens, seus filhos. Milhões de trabalhadores foram substituídos com direitos por uma massa de jornaleiros modernos. A isto somou-se a deslocalização para a China, cujas negociações começaram em 1970, naturalmente. A queda do muro tem as costas largas, porque desculpa os partidos de esquerda e os sindicatos dos seus erros históricos. Estaline não é o herói da derrota nazi, é o carrasco da revolução russa que, por não apoiar a revolução alemã, espanhola, francesa e austríaca não conseguiu impedir a ascensão do nazismo. Só a revolução internacional podia ter impedido as burguesias europeias e norte-americana de mergulharem o mundo na vertigem da II Guerra para saírem da (sua) crise de 1929. O que vivemos hoje são os escombros da derrota da revolução de 1989, não da sua vitória. A revolução e a contra-revolução podem ser no tempo próximas mas são dois processos radicalmente distintos. 1989 foi a derrota revolucionária de uma ditadura de uma casta que se dizia comunista; a reunificação alemã foi a vitória contra-revolucionária do capitalismo alemão. Uma não apaga a beleza histórica da outra. Porque uma não deveria ter sido necessariamente (“inevitavelmente”) a outra. Em história não há inevitáveis, a história é histórica, mudança, transformação. O povo dirigiu-se à sede da polícia política em Leipzig, onde se guardavam pedaços de cheiro de roupa dos “dissidentes”. Gritavam “Nós somos o povo!”.

O povo dirigiu-se à sede da polícia política em Leipzig, onde se guardavam pedaços de cheiro de roupa dos “dissidentes”. Gritavam “Nós somos o povo!”. É a epopeia da história. Passados poucas semanas, sem direcção revolucionária, gritavam “Nós somos um povo!”. Agora com salários a ruírem e 2% da população, hoje, de Berlim dependente da assistência social, diz-se a brincar “Nós somos um povo estúpido!”. A vitória do “interesse nacional” alemão, sob hegemonia de uma classe, que lidera a UE, foi uma derrota, o futuro não chegou, ao contrário do que cantaram os Scorpions, mas a responsabilidade não é de quem saiu à rua em 1989 a gritar “Nós somos o povo!”. Eles estavam certos. Foram derrotados, mas foram os sujeitos históricos do inevitável.

Obs: artigo previamente publicado no blogue Raquel Varela – Historiadora, contendo ligeiras adequações editoriais.

Imagens: DR

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