Espiritualidade

A espiritualidade cátara como utopia

A espiritualidade cátara como utopia

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No dia 24 de agosto de 1321, pelas 8 horas da manhã, há setecentos anos, o último perfeito cátaro conhecido, Guilhèm Belibasta, momentos antes de ser queimado na fogueira em Villerouge Termenes, na região atualmente francesa de Ocitânia, declarou publicamente: “Em setecentos anos, o louro ficará verde novamente e os bons homens e mulheres regressarão”.

Os cátaros consideravam o louro o símbolo sagrado do amor puro. O catarismo, como expressão da gnose na Idade Média, promoveu no mundo o ideal do amor puro e incondicional como novo paradigma para a humanidade. Um amor simultaneamente transcendente e imanente e que os grandes mensageiros espirituais, entre eles Jesus, Sidhartha Gautama, Zoroastro e Mani, têm promovido junto da humanidade.

O amor permite reconhecer a nossa essência de seres espirituais, filhos e filhas do Divino, a Fonte absoluta, eterna, ilimitada e imutável, da qual emana tudo o que existe. Saber reconhecer esta essência e expressar o amor puro e incondicional é a missão comum de todos os seres humanos que vivem no planeta Terra. Em plena Idade Média, os cátaros compreenderam e praticaram este ensinamento intemporal.

A utopia como dimensão transversal da cultura humana 

A palavra utopia foi criada pelo escritor inglês Thomas More no início do século XVI; partir da justaposição dos termos gregos antigos “οὐ” (prefixo de negação) e “τόπος” (lugar), significando o “não lugar” ou “lugar que não existe”.

Thomas More tinha ficado entusiasmado pelas narrações extraordinárias das explorações marítimas promovidas por Portugal e Espanha nas Américas, em África e na Ásia. A obra foi escrita num tempo do Renascimento, em que os europeus encontraram povos desconhecidos, ideias e costumes diferentes, o que abriu novas possibilidades para a evolução da humanidade. Foi precisamente de Portugal, o principal país protagonista dessas viagens intercontinentais, que veio a personagem central da obra de More: o navegador Rafael Hitlodeu, que dá a conhecer a ilha da Utopia.

Se a palavra utopia foi criada no século XVI, a utopia, como ideia de uma sociedade que está organizada de uma forma superior e perfeita, é transversal a diversas culturas humanas de diversos contextos temporais e geográficos. Podem ser referidas como exemplos de utopias a República de Platão e as Ilhas Afortunadas entre os gregos, a Terra da Juventude e a ilha de Avalon entre os celtas; o Eldorado e a Terra Sem Mal entre os ameríndios, a Jerusalém celeste para os cristãos de várias épocas, a Primavera em Flor de Pessegueiro, do poeta chinês Tao Yuanming e a sociedade sem classes do marxismo, entre outras.

As crenças cátaras

Inspirado pelo maniqueísmo, uma das principais linhagens da gnose na Antiguidade, o catarismo considera que a Divindade, infinitamente perfeita, não pode considerada a origem do mal.

Na visão cátara, existe uma Realidade Divina verdadeira, última e transcendente, que está além de todos os universos. Portanto, existe uma unidade espiritual original e transcendental que veio a emanar uma vasta manifestação de pluralidades.

Na origem do mundo material, está o princípio do mal, uma divindade má. Existiam comunidades cátaras baseada num dualismo mitigado, que que consideravam que o deus do mal, Satanás, tinha sido um verdadeiro servo de Deus antes de se rebelar contra ele. Outros, acreditavam num dualismo absoluto, onde os dois deuses eram entidades de mesmo poder e importância.

Toda a matéria visível, incluindo o corpo humano, foi criada ou trabalhada pelo princípio do mal. Portanto, a matéria estava contaminada e corrompida.

Os seres humanos eram considerados como seres espirituais seduzidos pelo princípio do mal. Para recuperar o estatuto angelical, era preciso que os seres humanos renunciassem completamente ao eu material e superassem o ciclo de reencarnações.

Os cátaros estabeleciam uma distinção entre Cristo e Jesus. Segundo o catarismo, o Deus verdadeiro enviou Cristo, o Filho de Deus, e o Espírito Santo para a libertação das almas humanas aprisionadas no mundo material.

Cristo manifestou-se num ser humano chamado Jesus, a partir do batismo, e foi este ser que assumiu a condição corporal da missão divina. A pessoa de Jesus é para Cristo o que o corpo é para a alma, um veículo ou invólucro finito.

Por isso, os cátaros diziam que Cristo não sofreu nem morreu, porque eles não se referiam ao homem Jesus, mas a sim a Cristo como o princípio divino com o qual esse homem se relaciona.

Os cátaros encaravam a missão de Jesus como fundamental. Ele revelou o Deus verdadeiro e inefável junto da humanidade e a opressão das forças malignas que dominam o mundo material. Jesus, manifestando o Cristo e inspirado pelo Espírito Santo, ensinou á humanidade a sua verdadeira natureza, a sua origem e a sua essência espiritual.

Os cátaros tinham igualmente apreço pelas figuras de Maria Madalena e de Maria, mãe de Jesus, embora com conceções diferentes do catolicismo romano.

A ideia de que os seres humanos são centelhas da Luz Divina presas no mundo material teve um conjunto de consequências.

Em primeiro lugar, não havia razão para considerar os homens melhores do que as mulheres. A parte importante, a alma, era a mesma. Apenas o corpo material era diferente. Por conseguinte, o catarismo enfatizava a igualdade entre homens e mulheres, um aspeto revolucionário em plena Idade Media.

Em segundo lugar, a sexualidade com fins procriativos era considerada negativa, dado que da conceção resultaria um outro ser aprisionado na matéria. O casamento era aceite para os crentes comuns apenas como concessão à fraqueza humana. A condição de perfeito implicava rejeição total e definitiva a qualquer prática sexual devido ao perigo que ela significa para a alma. A contraceção era considerada com aprovação. Além disso, não havia razão para condenar qualquer forma de sexo não procriativo, desde que livremente consentido.

Em terceiro lugar, era desaconselhável comer animais ou produtos de origem animal (leite e derivados, ovos), devido ao facto da reprodução dos animais ser de cariz sexual. Esta norma fosse mais aplicável aos perfeitos do que aos simples crentes. O consumo de peixe era permitido porque na Idade Média considerava-se que eles se reproduziam assexuadamente.

Em quarto lugar, dado que os objetos materiais eram criações do princípio do mal, era absurdo imaginar que eles pudessem ter qualquer virtude. Assim, por exemplo, jóias, dinheiro, relíquias, reproduções da cruz e edifícios eclesiásticos não tinham nenhum valor. Não havia dizimo, uma das principais fontes de rendimentos da Igreja católica medieval. Os perfeitos viviam do próprio trabalho e de doações em gêneros alimentícios, vestuário ou dinheiro. Na visão cátara, a sociedade terrena ideal, dentro do que era possível para algo construído na materialidade e cuja meta era justamente ultrapassar essa materialidade, deveria ter certos pontos básicos. Viver do próprio trabalho era uma delas. O paraíso celeste era descrito como um local onde todas as almas teriam igual felicidade. Isto contribuiu para uma ampla difusão dos ideais cátaros em todas as camadas da sociedade, desde o campesinato dos campos à burguesia das cidades, passando pela nobreza que desejava libertar-te da tutela da Igreja institucional.

Os rituais cátaros

Como todas as formas de espiritualidade humana, o catarismo tinha uma dimensão ritual, muito baseada na simplicidade.

Os cátaros reconheciam um único sacramento, o consolament (em occitano) ou consolamentum em latim, que era uma imersão (ou batismo) no Espírito Santo. Implicava a receção de todos os dons espirituais, incluindo a absolvição do pecado, a regeneração espiritual, o poder de pregar e a elevação a um plano superior de perfeição. Era feito através da imposição das mãos e das Escrituras sobre a cabeça. Era mesmo tempo rito de ordenação para a elite espiritual das comunidades e unção para os crentes moribundos.

O aparelhament (“preparação”) era um ritual com periodicidade mensal, que consistia numa confissão feita individualmen­te, em público, com absolvição coletiva, mas sem caráter sacramental.

O melhorament (“melhoramento”) era um ritual realizado pelos crentes na presença de um perfecti. O perfecti, como portador do Espirito Santo, abençoava os crentes e pedia intercessão.

Os cátaros tinham uma refeição sagrada comunitária, que apresentava uma semelhança notável com a cerimónia eucarística do cristianismo primitivo. Eles abençoaram o pão e o partilhavam entre si.

Os cátaros valorizavam também o beijo da paz, que era dado entre eles, como confirmação da fraternidade, a oração, que se limitava praticamente ao Pai Nosso, que devia ser recitado diversas vezes ao dia, a meditação e a contemplação.

A organização cátara

Os cátaros não consideravam os perfeitos como sacerdotes, no sentido católico do termo. Seguiam a linha orientadora do cristianismo primitivo em relação ao sacerdócio universal de todos os crentes.

Contrariamente à Igreja centralista, hierárquica e misógina do catolicismo, no interior do catarismo havia uma situação mais igualitária. Enquanto a organização eclesial católica estava dividida cada vez mais rigidamente entre clérigos e leigos, e a passagem dessa condição àquela era restrita (ou mesmo impossível, no caso das mulheres), na organização cátara a fronteira entre perfeitos e crentes comuns estava sempre aberta.

O crente cátaro, independentemente do sexo, que desejava ser perfeito frequentava uma escola cátara por certo tem­po, submetia-se a prolongado jejum (três vezes por semana durante um ano, às vezes mais) e por fim recebia o consolament, no qual todos os perfeitos presentes impunham a mão sobre quem recebia a ordenação,3 diversamente do rito católico de ordenação, monopolizado pelo bispo.

A organização eclesial cátara era descentralizada (não havia um poder central como o papado) e pouco hierarquizada (somente episcopus, filius major, filius minor, diaconus). Além disso, os cátaros elegiam os bispos de cada comunidade de entre os perfeitos e as grandes decisões da Igreja eram tomadas por concílios baseados na democracia participativa.

Os perfeitos pregavam em língua vulgar, ao contrário dos padres católicos que usavam o latim, entendido por pouca gente, e desempenhavam atividades comuns (da mesma forma que os discípulos e discípulas de Jesus), podendo ser camponeses, artesãos, mercado­res ou médicos.

Em jeito de conclusão

O catarismo teve um impacto profundo na Europa medieval, nomeadamente no Languedoc, na região de Lyon, na Itália, na Renânia, na Inglaterra e na Península Ibérica.

Tinham uma postura tolerante com os crentes de outras confissões, fossem eles católicos, judeus, muçulmanos e outros.

Aparentemente, o catarismo desapareceu em fins do século XIII e nos princípios do seculo XIV, como resultado de uma repressão implacável por parte de uma aliança entre o papado e um conjunto de poderes temporais da Europa feudal.

Na atualidade, existem condições propícias para que o louro renasça e o legado da gnose, do qual o catarismo é uma linhagem especialmente relevante, como utopia do amor e da bondade renasça no coração dos homens e das mulheres de boa vontade.

O presente e o futuro da humanidade passa pela ligação com a dimensão mais profunda do nosso ser, de modo possamos reencontrar a nossa verdadeira essência, recordando as palavras sábias de Jesus no Evangelho de Tomé, que os cátaros tão reverenciavam:

“Mas o Reino está dentro de vós e fora de vós. Quando vos conhecerdes a vós mesmos, então sereis conhecidos e compreendereis que sois vós os filhos do Pai vivo. Mas se não vos conhecerdes, então vivereis na pobreza e sereis a pobreza.”

“Se produzirdes o que está dentro de vós, o que produzirdes salvar-vos-á. Se não produzirdes o que está dentro de vós, o que não produzirdes destruir-vos-á”.

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Imagem: Swordscookie/Flickr [Diz-se que esta pedra no sopé da montanha rochosa marca o local onde os mártires cátaros foram queimados numa enorme fogueira em 1244. Diz-se também que a pedra representa a cruz cátara. Por seu lado, a forma de uma cruz com uma protuberância circular no centro é esculpida no topo do círculo. A inscrição afirma simplesmente que a cruz foi erguida para homenagear os cátaros que morreram na fogueira. Além disso, segundo a Wikipedia, o Cerco de Montségur refere-se ao cerco de nove meses pelas forças reais francesas do Castelo de Montségur, controlado pelos cátaros, com início em maio de 1243. Após a rendição do castelo, cerca de 210 crentes perfecti e impenitentes foram queimados na fogueira em 16 de março de 1244.]

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About Author

Daniel Faria

Nasceu em 1975, em Vila Nova de Famalicão. Licenciado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e pós-graduado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida pela mesma Instituição. É diplomado pelo Curso Teológico-Pastoral da Universidade Católica Portuguesa. Em 1998 e 1999, trabalhou no Centro Regional da Segurança Social do Norte. Desde 2000, é Técnico Superior no Município de Vila Nova de Famalicão. Valoriza as ciências sociais e humanas e a espiritualidade como meios de aprofundar o (auto)conhecimento, em sintonia com a Natureza e o Universo. Dedica-se a causas de voluntariado. É autor do blogue pracadasideias.blogspot.com e da página Espiritualidade e Liberdade.

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