Regresso surpreendentemente rápido dos talibãs ao poder suscita outra vez curiosidade sobre geostratégia, história e sociologia do país da Ásia central

Dez (ou onze) livros para compreender a situação atual no Afeganistão

Dez (ou onze) livros para compreender a situação atual no Afeganistão

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Nos últimos dias, o mundo tem assistido, horrorizado, ao regresso dos talibãs ao poder, na cidade de Cabul, capital do Afeganistão. Para as mulheres afegãs, esta é uma perspetiva especialmente preocupante, uma vez que pode significar o regresso aos tempos em que direitos humanos essenciais, como o da educação, lhes eram negados.

Relembrando as palavras da proeminente ativista pelo direito à educação das mulheres no Médio Oriente, Malala Yousafzai, que defende que “um livro, uma caneta, uma criança e um professor podem mudar o mundo”, partilhamos consigo uma lista de dez (ou onze) livros que podem ajudar a ter uma melhor compreensão da ameaça que paira atualmente sobre o Afeganistão.

Afeganistão - Literatura - Bertand Somos Livros

1. Rapazes de Zinco, de Svetlana Alexievich

Para entender a situação atual no Afeganistão, é preciso olhar primeiro para o seu passado. Entre 1979 e 1989, o exército soviético combateu o Afeganistão, numa guerra que gerou cerca de quinze mil mortos e mais de quatrocentos e cinquenta mil feridos e doentes. Tendo o movimento talibã surgido como consequência da oposição dos EUA à União Soviética neste conflito armado, este é um livro essencial para entender uma guerra que marcou profundamente uma geração, com consequências que perduram até aos dias de hoje.

Da autoria de Svetlana Alexievich, jornalista e vencedora do prémio Nobel da Literatura em 2015, este livro (tal como muitos dos livros desta autora) dá voz às vítimas desta guerra, as mães dos soldados e soldados sobreviventes da guerra, que presenciaram o horror em primeira mão. O título, Rapazes de Zinco, alude simbolicamente aos caixões de zinco usados para transportar os mortos para casa, perante o olhar de um regime que negava o horror e a destruição causados pelo conflito.

2. As meninas proibidas de Cabul, de Jenny Nordberg

Em 2014, quando Jenny Norberg, uma jornalista premiada, viajou até ao Afeganistão, ficou surpreendida por descobrir que, apesar de os direitos das mulheres não serem respeitados neste país, algumas raparigas afegãs conseguiam movimentar-se livremente na rua e sem medo de represálias. O seu segredo? Disfarçarem-se de rapazes, ao abrigo de uma tradição secreta ancestral chamada bacha posh, que nasceu da necessidade de contornar o estigma criado à volta de famílias afegãs sem filhos varões, que, por essa razão, vestem e apresentam ao mundo as suas filhas como se fossem rapazes. Contudo, este estado de graça só dura até à puberdade, altura em que são obrigadas a assumir a sua identidade feminina e, consequentemente, a enfrentar uma realidade muito diferente da liberdade de que usufruíram até então.

Em As meninas proibidas de Cabul , são reunidos testemunhos de diversas mulheres corajosas que nos dão uma perspetiva sobre o que significa ser mulher no Afeganistão e os sacrifícios a que estas são submetidas.

3. Mil Sóis Resplandecentes, de Kahled Hosseini

Da autoria do autor afegão Kahled HosseiniMil Sóis Resplandecentes é um bestseller traduzido em trinta países. Neste, o narrador passa em revista os últimos trinta anos no Afeganistão através da comovente história de duas mulheres afegãs casadas com o mesmo homem. Unidas pela, amizade e pela dor proveniente dos abusos, que lhes são infligidos em nome do machismo e da violência política vigente durante o regime talibã, separam-nas apenas a idade e as aspirações na vida.

Embora a Columbia Pictures detenha os direitos cinematográficos deste romance, até à data a adaptação ainda não foi produzida.

4. 100 mitos sobre o Médio Oriente, de Fred Halliday

Com o objetivo de clarificar alguns mitos, clichés e convicções erróneas, desajustadas e infundada,s que se têm formado acerca do Médio Oriente nos últimos anos, Fred Halliday, professor de Relações Internacionais na London School of Economics, selecionou uma centena destas ideias para analisar e explicar, de forma detalhada. Em 100 mitos sobre o Médio Oriente, a crise israelo-palestiniana, a guerra Irão-Iraque, as incursões lideradas pelos EUA no Golfo Pérsico, o conflito entre o Afeganistão e a União Soviética, e outros acontecimentos fulcrais para a compreensão da história moderna do Médio Oriente, são escrupulosamente analisados, apresentando conclusões tão persuasivas e contrárias ao pensamento dominante que poderão surpreender o leitor.

5. Os talibãs, de Ahmed Rashin

Da autoria do jornalista paquistanês Ahmed RashinOs talibãs é um livro essencial para entender o nascimento desta organização, os seus elementos fundacionais e os seus objetivos. O jornalista é também autor de Jihad, livro de leitura complementar no sentido de entender a ascensão do islamismo militante financiado pela Arábia Saudita.

6. The wrong enemy, de Carlota Gall

Carlota Gall é uma jornalista britânica que fez cobertura política do Afeganistão e do Paquistão durante doze anos, tendo sido reconhecida com um Prémio Pullitzer. Em The Wrong Enemy, desconstrói por completo tudo aquilo que pensamos saber sobre movimentos terroristas como os talibãs e a Al-Qaeda, argumentando que eles não são os verdadeiros inimigos, mas sim aqueles que permitem a sua existência – segundo a autora, o governo altamente corrupto do Paquistão.

7. Eu, Malala, de Malala Yousafzai

Embora a história de Malala Yousafzai devesse servir apenas como testemunho dos atentados aos direitos humanos cometidos pelos talibãs no passado, é hoje, infelizmente, uma perspetiva assustadora do futuro para muitas raparigas e mulheres afegãs. No dia 9 de outubro de 2012, Malala, então com quinze anos, regressava a casa vinda da escola quando a carrinha onde viajava foi mandada parar e um homem armado disparou três vezes sobre a jovem. Eu, Malala, é a história, contada na primeira pessoa, da menina que se recusou a baixar os braços e a deixar que os talibãs lhe ditassem a vida. É também a história do pai que nunca desistiu de a encorajar a seguir os seus sonhos numa sociedade que dá primazia aos homens, e de uma região dilacerada por décadas de conflitos políticos, religiosos e tribais.

8. Persépolis, de Marjane Strapi

Embora situe a sua narrativa no Irão, e não no Afeganistão, Persépolis, considerado um dos 100 melhores livros do século XXI pelo The Guardian, oferece um relato poderoso da vida de uma menina de dez anos sob o domínio de um regime teocrático. Nesta autobiografia gráfica, Marjane Satrapi conta a história da sua infância e adolescência, durante as quais familiares e amigos desaparecem, mulheres e raparigas são obrigadas a usar véu, os bombardeamentos iraquianos fazem parte do quotidiano e a música rock é ilegal. Apesar de tudo, a sua família resiste, tentando viver uma vida com um sentido de normalidade.

9. Afghanistan, Thomas Barfield

Antropologista e presidente do Instituto Americano de Estudos Afegãos, Thomas Barfield é o autor de Afghanistan, uma incrivelmente detalhada História política e cultural do Afeganistão.

10. Dancing in the mosque, de Homeira Qaderi

Da autoria da ativista afegã Homeira QaderiDancing in the mosque é um livro de memórias poderoso, escrito como uma carta para o filho que teve que deixar para trás, perante um país aterrorizado pelo domínio talibã. Apesar de todo o sofrimento vivido, mais tarde, Homeira arriscou a sua vida para ensinar crianças a ler e a escrever, lutando ainda hoje pelos direitos das mulheres em sociedades altamente patriarcais.

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Obs: este artigo foi originalmente publicado no Blogue Somos Livros, da Bertrand, tendo sofrido ligeiras adequações editoriais na presente edição.

Imagens: DR

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