‘Salvo o caso Sueco, o país no mundo com maior tradição socialista e social-democrata, exemplo de combate à Covid-19, todos os países mergulharam no confinamento de milhões de seres humanos’

Confinamento e Saúde Pública neoliberal

Confinamento e Saúde Pública neoliberal

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Os últimos dias em Portugal merecem uma reflexão – a “despublicação” no Público de um artigo de um médico anestesiologista, depois de aprovado para publicação, com uma linha de pensamento face às vacinas nos jovens igual à da maioria dos órgãos técnicos e acusado pelo jornal de colocar em causa o “relativo consenso” (se há relativo consenso em Portugal é contra a vacinação de jovens). Sobre o “tom” do artigo nem me pronuncio – o Público teve durante 20 anos Vasco Pulido Valente a tratar abaixo de cão tudo e todos como cronista, sobre o qual nunca achei que fosse o grande pensador que a direita, com falta de quadros, construiu, mas jamais achei que devia ter sido apagado, cancelado.

Ficámos também a saber (para quem não tinha tirado uns minutos a ver os videos racistas no instagram da influencer, pode surpreender) que a ex-enfermeira blogger Carmen Garcia, acarinhada pelo Público, e o veterinário e virologista Pedro Simas são agora candidatos pelo PSD/CDS às autárquicas; o médico de saúde pública, já era sabido, Ricardo Mexia é director de campanha da coligação da direita em Lisboa, liderada por Carlos Moedas. Ao mesmo tempo, o ex-jornalista Pedro Almeida Vieira torna público que parte dos médicos que subscreveram a actuação do Governo na pandemia recebem em alguns meses mais das farmacêuticas do que do SNS, a partir de uma investigação simples dos sites de transparência (mas que nunca nenhum jornalista foi investigar até ele o fazer). No meio disto até houve uma campanha publicitária que foi suspensa – meses depois de anunciar que as lentes matavam todos os vírus!, algo que não se via anunciado desde a última bruxa na Idade Média. Portugal é impagável. Não fossem os milionários terem ido à lua no mesmo ano que confinaram a classe trabalhadora ao trabalho, vetando-lhes o lazer, e o caso das lentes que curam vírus estaria entre os primeiros lugares da ciência-política pandémica.

A falsa ideia da independência dos técnicos

Tenho pouca paciência para o vulgar determinismo mecanicista que acha que as atitudes individuais se explicam pelo dinheiro e pelas pressões financeiras; a sociedade e a actuação subjectiva é algo muito mais complexo e o móbil das pessoas é múltiplo. Acredito, por exemplo que, como a maioria das instituições/colégios/comissões formais se pronunciaram contra as vacinas em jovens, vamos encontrar muitos pediatras que tomaram esta posição, contra, e são, no entanto, como quase sempre na medicina, financiados na investigação por farmacêuticas (infelizmente o Governo há muito deixou de o fazer directamente, nem para conferências, essenciais a que os médicos mantenham o conhecimento actualizado). Acho também que todos têm o direito de ser candidatos por qualquer partido. Portanto, nada disto é novo (podemos debater como deveria ser) – o que é novo é que não tenham sido os próprios a assumir desde o início as suas ligações partidárias e, no caso dos médicos, o financiamento privado – aliás o site foi criado justamente porque se exige democraticamente que os médicos revelem a origem dos seus financiamentos.

A ideia de ir buscar figuras públicas, influencers ou técnicos para passar a ideia – errada – de independência “acima da política” falhou em toda a linha. As pessoas e os jornais têm o direito de defender o que pensam, o que não podem é assumir perante a sociedade um papel de representação geral quando de facto estão ligados a representações particulares e/ou específicas. Não há um “bem geral” acima de interesses particulares. Nunca houve, nem na crise de saúde pública nem antes dela, as sociedades são profundamente divididas. O que é essencial e salutar é, portanto, deixar claras essas divisões para que quem lê, e escuta, possa pensar com todos os dados na mão.

Discurso catastrofista e incapacidade ou dificuldade em lhe dar resposta

Em jeito de explicação para tudo isto tenho uma proposta sociológica rápida, uma “teoria-minuto”, a desenvolver – há um sector ligado ao PSD e CDS que quis mostrar que era melhor gestor do país na pandemia e ajustou o discurso catastrofista a este propósito. O Governo português, atrelado à transição digital/verde/bazuca alemã, juntou-se ao coro e começou uma concorrência entre quem conseguia meter mais medo, e mais medidas para dar uma falsa sensação de segurança ao medo criado. A pandemia, cuja degradação em 30 anos do SNS colocava enormes desafios, junto de uma população obesa e diabética, ou seja, pobre, impraticáveis para um SNS de facto desnatado, foi o móbil usado e abusado para despedir massivamente e cortar salários às classes trabalhadoras portugueses, com os sindicatos paralisados pelos Estados de emergência e a incapacidade de fazerem uma crítica contundente às sucessivas leis de excepção, que se tornaram a norma. Juntou-se a ausência de oposição porque da esquerda à direita todos de facto olham a bazuca, isto é, o endividamento crónico do país e a dependência face à Alemanha como a única alternativa. Devo dizer que o pânico, e digamos o baixo nível, mau gosto e rudeza, que já chega a altas instâncias, de chamar “negacionista”, ou o inédito de suprimir artigos já publicados, bem como a canonização do Almirante [vice-almirante Gouveia e Melo, coordenador do plano de vacinação contra a Covid-19], tudo isto reflecte uma enorme fraqueza do Estado e dos Governos, e não o contrário. As vacinas levantam incógnitas, desde logo porque legalmente estão em fase experimental (cada vez mais não há consenso, mas muito por saber – Israel, Suécia, Inglaterra, com comportamentos muitos distintos levantam novas dúvidas sobre a imunidade da doença ou da vacina, efeitos a longo prazo da doença ou da vacina, variantes, etc., não há qualquer consenso, e todos parecem saber menos à medida que o tempo avança).

Consequências do confinamento na Saúde Pública e nas classes trabalhadoras

A Europa tem dois países e meio fanáticos (França, Itália e Portugal, sem oposição) com certificados para circular dentro do país, enquanto na larga maioria da Europa à esquerda ou à direita mas onde há oposição (Espanha, Inglaterra, Alemanha, Escandinávia) a vida regressa ao normal possível, e todos olham o caso sueco e respiram fundo – como será o Inverno? Penso que o exercício agora não é responder defensivamente a campanhas negras e de calúnias que vão ofendendo e cancelando pessoas, com ataques ad hominem, e “negacionista” (o novo “Cala-te, preto!” e “Vadia!”), mas tentar compreender porque a maioria dos países tomou estas opções irracionais e foi incapaz de resolver a crise de saúde pública. Não é “loucura” coletiva – porque isso não explica nada. Responder a quem grita negacionista com és “louco” ou ” medroso” não explica o que aconteceu. É preciso compreender o que signfica para a saúde pública o neoliberalismo, a individualização da saúde, e o lockdown é isso – cada um é culpado e responsável pela sua doença. É aqui que, salvo o caso Sueco, o país no mundo com maior tradição socialista e social-democrata (de sempre – sim, nunca houve na história houve um país semelhante em termos de igualdade e democracia), todos os países mergulharam – a doença deve ser enfrentada com o máximo ideológico ultra-liberal – no confinamento de milhões de seres humanos.

Deixo aqui um link para quem tiver tempo, foi o melhor que li sobre a pandemia. Panagiotis Sotiris, um dos meus colegas mais instigante, teórico marxista fez um artigo detalhado (dados abundam e em comparação sobre vários países da Europa) e sobretudo socialmente analítico sobre as consequências do lockdown para as classes trabalhadoras na Europa e o papel do neoliberalismo a gerir a saúde pública, bem como da restruturação produtiva em curso. Está na Historical Materialism, a revista mais importante de teoria crítica hoje, demonstrando, a quem andou, digamos… distraído, que o mundo não está ou com Bolsonaro ou contra ele. Se continuamos a responder a esta dicotomia mecanicista, ou a provocações de ofensas, não conseguimos andar para a frente para entender o muito que ainda está por explicar.

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Categorias: Crónica, Pandemia, Sociedade

About Author

Raquel Varela

Raquel Varela é Historiadora, Investigadora e professora universitária/ Universidade Nova de Lisboa /IHC e Fellow do International Institute for Social History (Amsterdam). Foi Professora-visitante internacional da Universidade Federal Fluminense. É coordenadora do projeto internacional de história global do trabalho In The Same Boat? Shipbuilding industry, a global labour history no ISSH Amsterdam / Holanda. Autora e coordenadora de 25 livros sobre história do trabalho, do movimento operário, história global. Publicou como autora 51 artigos em revistas com arbitragem científica, na área da sociologia, história, serviço social e ciência política. Foi responsável científica das comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril (2014). Em 2013 recebeu o Santander Prize for Internationalization of Scientific Production. É editora convidada da Editora de História do Movimento Operário Pluto Press/London e comentadora residente do programa semanal de debate público O Último Apaga a Luz na RTP.

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