‘Há no olímpico caso [português] pelo menos dois aspetos merecedores de discussão: as condições de obtenção da nacionalidade e o significado das vitórias desportivas nos dias de hoje’

Regressar dos Jogos Olímpicos de Tóquio de medalha ao peito

Regressar dos Jogos Olímpicos de Tóquio de medalha ao peito

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É sabido: a uma criança com um martelo tudo o que lhe fica à mão de martelar se assemelha a um prego. Nas redes sociais tende a suceder o mesmo, mais ainda quando o martelo é proveniente da botica das guerras culturais. As últimas barricadas formaram-se à custa das medalhas e dos medalhados olímpicos. De um lado temos os que acham que os «nossos» medalhados são a prova de que Portugal é um país acolhedor e integrador de imigrantes, dispondo-se a martelar todos aqueles que se atrevem a denunciar a inconsistência desta idealização num país em que não faltam exemplos de discriminação e exploração com base na «raça». Do outro lado, igualmente de martelo em punho, tudo o que se move é expressão de racismo estrutural, merecedor de umas valentes marteladas, não admitindo que se possa discutir o sentido de pertença (ou de não pertença) a um estado-nação fora do dogma de que cada um tem o direito de pertencer a uma entidade política que dê expressão ao seu projeto de vida.

Cá para mim, à custa de tanta martelada, ficam cegos uns e outros, ambos os grupos militantes incapazes de ver que nem tudo aquilo em que batem é um prego. E no entanto há neste olímpico caso pelo menos dois aspetos merecedores de discussão. O primeiro tem a ver com as condições de obtenção da nacionalidade, importando avaliar a regra e as exceções. Se um atleta de grande nível, como Pichardo, se dispõe a competir em nome de Portugal, deve essa razão servir para acelerar o processo de naturalização? E se for um empresário que se disponha a criar emprego em Portugal? Serve o mesmo critério? E aqueles, que não sendo atletas nem tendo dólares, se dispõem a apanhar fruta na Alentejo devem ser tratados de forma diferente? É bem generosa a ideia de livre circulação entre países, mas infelizmente está longe de ser alcançada, ainda que as exceções, que incluem atletas reputados, tendam a abarcar também uma certa intelectualidade de martelo em punho que adora perorar sobre como seria bom que a liberdade em que vivem fosse extensível aos demais, incluindo aqueles que lhes põem a fruta na mesa.

A segunda discussão que me parece interessante tem a ver com aquilo que representam as vitórias desportivas nos dias de hoje. Devo ser uma espécie rara, já que, sendo português, não sinto especial orgulho nas conquistas lusas. Sinto, talvez, uma breve satisfação na hora da vitória, mas esta logo desaparece face às manifestações de amor pátrio que as televisões exigem e os atletas proclamam. Sinto, isso sim, admiração pelos atletas. Pelo imenso tralhado, dedicação, esforço, persistência e sacrifício que aquelas performances desportivas exigem. Essa admiração não tem, para mim, uma especial marca de nacionalidade. Percebo, porém, quem se entusiasma e se sente parte das conquistas desportivas obtidas por atletas que, por acaso, pertencem ao país dos entusiastas. É claro que esta ideia de pertença nos conduz ao início da discussão e da sinfonia de marteladas: o que vem a ser isso de ser português?

As seleções nacionais, seja qual for o desporto, deveriam ser a expressão dos respetivos países. Neste aspeto é irrelevante discutir a cor da pele (haverá algum que não o seja?), mas deveríamos poder ver nas seleções o resultado das políticas públicas na promoção do desporto. A coisa fica clara com um exemplo: independentemente da cor da pele, Patrícia Mamona é uma atleta portuguesa, e é-o porque fez a sua formação como atleta em Portugal, contando com as condições de treino e com os apoios (ou falta deles) que Portugal tem para oferecer. Pedro Pichardo serve aqui como contraexemplo: chegou a Portugal como um atleta formado, já com um nível de excelência, pelo que a sua performance não fica a dever nada ao país que o acolheu. Estes são apenas dois exemplos de um princípio geral, que deveria ser aplicado para percebermos melhor o «nível desportivo» de um país, quer dizer, o esforço que faz ou deixa de fazer no desporto escolar, na oferta de equipamento desportivo, etc. O que está em causa não é excluir porque determinado atleta «não é como nós», tal como não se trata de incluir como se isso fosse a prova de que «somos integradores». Ganhámos medalhas e obtivemos resultados que não merecíamos, mas esse «pecado» não é redimido à custa de martelada, mas com uma política desportiva mais eficaz. Talvez assim nos aproximássemos de países da nossa dimensão (como a Hungria ou a Nova Zelândia) que conseguem performances desportivas incomparavelmente superiores – de contrário resta-nos continuar a fazer de cuco e aproveitar o trabalho alheio.

Conjunto de ‘Histórias ‘Daqui e Dali’ revela escritor com escolhas do lado certo da vida

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Imagem: medalhas atribuídas aos melhores classificados nos Jogos Olímpicos de Tóquio foram realizadas mediante reciclagem de smartphones e laptops (Tauseef Mustafa – AFP em Manila Bulletin News)

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Categorias: Crónica, Desporto, Sociedade

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Luís Cunha

Professor universitário. Braga.

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