‘Em nome da produção de mercadorias, o mundo brutal em que vivemos roubou às crianças quase todos os seus direitos, como os espaços de brincar, rir, correr, gritar e fazer amigos, e deu-lhes em troca uma televisão portátil chamada telemóvel onde estão, como drogados, o dia todo’

Noah, o espelho de um mundo brutal para onde não queremos olhar

Noah, o espelho de um mundo brutal para onde não queremos olhar

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O que aconteceu aos pais do Noah, segundo o que se sabe, foi um gigante azar, que não desejamos a ninguém, e a liberdade com o que o criaram foi, tudo indica, a sua salvação.


 

Tenho dúvidas em acusar de negligência pais que expõem os filhos a ecrãs 1, 2, 3, 4 até 8 horas por dia. Mas que o são, são. Não gosto de sociedades onde os problemas sociais deixam de o ser para passarem a ser casos de polícia ou, como é ainda mais comum, medicalizados. Não tenho porém dúvidas que 1 hora de ecrã por dia rouba às crianças conhecimento, confiança, socialização, contemplação e noção do próprio corpo, calma e reflexão, raciocínio abstracto, imaginação, acção, auto estima e aumenta muito a probabilidade de doenças como obesidade, problemas de visão, hiperactividade, a longo prazo doenças degenerativas (por hiper-estimulação do cérebro).

Correr na terra ou na cidade, cair e levantar-se, subir às árvores e olhar o mundo ao contrário, aventurar-se, não ter medo do mundo é um dos maiores legados que podemos dar a uma criança. Não há separação entre coragem física e psicológica, domínio do corpo e inteligência intelectual, corpo e “alma” são um só.


Negligente não é ensinar os filhos a cair. É proibi-los de cair.


O que aconteceu aos pais do Noah, com o desaparecimento do pequeno Noah há alguns dias atrás, segundo o que se sabe, foi um gigante azar, que não desejamos a ninguém, e a liberdade com o que o criaram foi, tudo indica, a sua salvação. Qualquer criança educada numa cidade com pais que não o sabem ser, e não os deixam correr e cair, sair um segundo da sua vista, subir a uma árvore, brincar “à luta” com os amigos, tocar com as mãos o mundo, não teria, muito provavelmente, a capacidade de resposta que o pequeno Noah teve. Negligente não é ensinar os filhos a cair. É proibi-los de cair.

O Noah não é um exemplo de pais pós-modernos freaks, estranhos. É um exemplo de normalidade no meio da mais absoluta anormalidade em que as crianças vivem com a transição digital e o domínio dos automóveis sobre as aldeias e cidades. O Noah lembrou ao país os milhões de crianças que estão fechados passivamente em frente aos ecrãs, em risco digital sério.

Uma criança que sai de casa de madrugada, como Noah, e se perde em volta da casa é um evento raro, felizmente. A estupidificação, obediência, passividade, ausência de criatividade e até de linguagem complexa e de relações afectivas dos milhões que estão nos ecrãs – a garantir que os pais trabalham cada vez mais, as ruas têm mais automóveis, agora “verdes”, e estarão ainda a ser treinados para um trabalho automatizado – é um evento diário que sofrem as crianças portuguesas e na maior parte dos países por esse mundo fora. Era aí que a nossa crítica demolidora não devia hesitar um segundo.

Em nome da produção de mercadorias…

O Noah é o espelho de um mundo brutal para onde não queremos olhar e que, em nome da produção de mercadorias, roubou às crianças quase todos os direitos de crianças, como os espaços de brincar, rir, correr, gritar e fazer amigos; e lhes deu em troca uma televisão portátil chamada telemóvel onde estão, como drogados, o dia todo.

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Obs: texto publicado previamente no blogue pessoal da autora ‘Raquel Varela | Historiadora’, tendo sofrido ligeiras adequações editoriais na presente edição.

Imagem: DR

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