‘Traço humano geneticamente complexo explica sorriso colorido do olhar’

A nova genética da cor dos olhos

A nova genética da cor dos olhos

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A genética da cor dos olhos humanos é muito mais complexa do que se pensava até há bem pouco tempo, de acordo com um novo estudo agora publicado.

Afinal a cor dos olhos é determinada principalmente pela abundância de melanina no epitélio pigmentar da íris, que é maior nos olhos castanhos do que nos olhos azuis, e pela densidade e distribuição das células designadas por melanócitos do estroma, que faz parte do tecido conjuntivo que suporta a íris. As proporções relativas das duas formas de melanina, eumelanina e feomelanina, dentro da íris, bem como a absorção de luz e a sua dispersão por componentes extracelulares (efeito de Tyndall) são factores adicionais que dão cor às íris. A quantidade absoluta de melanina e a proporção eumelanina e feomelanina são maiores nas íris castanhas, enquanto as íris azuis ou verdes têm muito pouco de ambos os pigmentos e relativamente mais feomelanina.

As populações europeias, ou com origem parcial europeia, apresentam a maior diversidade de cores da íris, variando do azul mais claro ao castanho mais escuro. A prevalência de olhos azuis está correlacionada com a latitude geográfica em toda a Europa e áreas vizinhas, provavelmente como resultado da migração humana, e pela seleção natural e sexual. Da mesma forma, a variação da cor dos olhos com vários graus de íris castanhas é observada em populações asiáticas, embora com uma gama muito mais reduzida em comparação com a variação da cor dos olhos castanhos nos europeus.

Estudo envolve quase 200 mil pessoas na Europa e na Ásia

Recentemente, uma equipa internacional de investigadores geneticistas liderada pelo King’s College of London, em Inglaterra, e pelo Erasmus University Medical Centre, em Roterdão, na Holanda, identificou 50 novos genes para a cor dos olhos, naquele que é o maior estudo genético desse tipo realizado até hoje. O estudo, publicado na Science Advances, envolveu a análise genética de quase 195 mil pessoas na Europa e na Ásia.

O papel determinante da pigmentação

Os resultados agora obtidos ajudarão a melhorar a compreensão das doenças oculares, como o glaucoma pigmentar e o albinismo ocular, situações em que os níveis de pigmento ocular desempenham um papel determinante. Além disso, os investigadores descobriram que a cor dos olhos dos asiáticos com diferentes tons de castanhos é geneticamente semelhante à cor dos olhos dos europeus, variando do castanho escuro ao azul claro, o que não deixa de ser surpreendente.

A investigação agora publicada baseia-se em estudos anteriores nos quais os cientistas tinham, desde logo, identificado uma dúzia de genes ligados à cor dos olhos, supondo que existissem muitos mais. Antes destas investigações, os cientistas pensavam que a variação na cor dos olhos era controlada por um ou dois genes apenas, com os olhos castanhos a serem dominantes sobre os azuis.

Compreender algumas doenças

Pirro Hysi, do King’s College of London, um dos co-autores do artigo, comenta: “Estas descobertas são empolgantes porque aumentam a nossa compreensão sobre quais os genes que causam uma das características mais marcantes dos rostos humanos e que tem gerado muitos mitos ao longo de inúmeras gerações da história humana. Isto vai melhorar a nossa compreensão de muitas doenças que hoje sabemos estarem associadas a níveis de pigmentação específicos.

Além disso, “este estudo fornece o conhecimento genético necessário para melhorar a previsão da cor dos olhos a partir do DNA, conforme já aplicado em estudos antropológicos e forenses, mas com precisão limitada para as cores de olhos não azuis”, acrescenta Manfred Kayser, do Erasmus University Medical Center de Roterdão, e outro co-autor do artigo.

Traço humano geneticamente complexo explica sorriso colorido do olhar

Em conclusão, o trabalho agora divulgado identificou vários novos loci genéticos associados à cor do olho humano. Os loci genéticos que foram agora identificados explicam a maioria (53,2%) da variação fenotípica da cor dos olhos em europeus e uma grande proporção da herdabilidade ausente da cor dos olhos previamente observada. Os resultados desta investigação demonstram claramente que a cor dos olhos é um traço humano geneticamente muito complexo, semelhante à cor do cabelo e da pele. O grande número de novos loci genéticos associados à cor dos olhos, agora identificados, fornece um recurso valioso para estudos futuros, com o objetivo de compreender os mecanismos moleculares que explicam o sorriso colorido do nosso olhar.

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Categorias: Ciência, Genética

About Author

António Piedade

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou mais 500 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de sete livros de divulgação de ciência: "Íris Científica" (Mar da Palavra, 2005 - Plano Nacional de Leitura),"Caminhos de Ciência" com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011), "Silêncio Prodigioso" (Ed. autor, 2012), "Íris Científica 2" (Ed. autor, 2014), "Diálogos com Ciência" (Ed. autor, 2015) prefaciado por Carlos Fiolhais, "Íris Científica 3" (Ed. autor, 2016), "Íris Científica 4" (Ed. autor, 2017).

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