‘Os alunos são ignorantes mas atrevidos. Se não sabem é porque são naturalmente assim. Falta-nos, dizia o Almada, mudar as coisas. – “Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade”’

Direito à ignorância

Direito à ignorância

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A pedagogia é dominada pelo construtivismo de Piaget e suas inúmeras vertentes. Isto parece um palavrão para quem me lê mas se eu concretizar vão reconhecer: o professor é um “mediador”, não é um “educador”; a escola é quase um mal que retira, ao ensinar, autonomia às crianças que já vinham com um “saber espontâneo”; o desenvolvimento dá-se por etapas que acompanham as idades e o seu desenvolvimento biológico e a escola acompanha essas etapas – se a criança não consegue mais a culpa é da biologia e das “etapas”, devemos ter paciência e esperar que ela lá chegue um dia (nunca chega porque só chega com educação intencional, daí a proibição de retenções – não sabe, mas passa); transmissão de conhecimento é palavra tabu, agora fala-se em dar “ferramentas” para “competências” e “valências”. O verbo ensinar é quase um insulto, um ataque ao saber “puro” inato da criança e das suas etapas.

Tudo isto é um erro gigante que visa adaptar o ensino à massificação para um mercado de trabalho que divide trabalho manual de intelectual, gestores de executores, dirigentes de dirigidos, representantes de representados, quem domina e quem não domina o conhecimento. A linguagem é a da democracia – “escola para todos” -; a realidade é a da produção de elites e vasta camada de dirigidos.

Aprender: a imitação e a memória

O que é a escola? A escola é um lugar onde se ensina intencionalmente (sim, com intenção) o melhor do conhecimento produzido pela humanidade (sim, conhecimento formal, científico e não espontâneo); ensinar é uma actividade consciente e planeada (planeada, sim, leram bem), não se dá por estados mas por saltos qualitativos que devem sempre ter em conta não o que a criança sabe – para isso não precisa de escola -, mas o que em determinada altura e por “imitação” dos adultos pode vir a saber. Imitação tornou-se agora outro palavrão, juntamente com memória. Imitação para Vigotsky não é imitar a aparência do conhecimento, mas os seus fundamentos. Imitação não é imitar o aparente. É imitar o melhor que sabe o adulto, que é responsável pela criança. É a sua direcção. É aprender, com ele, que tem a responsabilidade de ensinar à criança e jovem o melhor do conhecimento fundamental imitando-o – ele faz esta conta, eu faço-a com ele, eu leio com ele este livro até o compreender sozinho, porque ele me ensina. E eu assim não me torno um autómato – pelo contrário, eu passo a conseguir fazer essa conta e ler até que um dia consigo fazer por mim sozinho sem imitar, e dou saltos de aprendizagem (e não estados). Autómato é quem não aprende, e se sujeita por isso a quem aprende.

Os rankings espelham a liberdade de se ser ignorante

O corolário do saber espontâneo, onde o professor cuida mas não ensina nem exige, e sofre, é o da criança que aprende o que pode, é o dos professores que não se chateiam – a culpa é dos miúdos -, deixaram de forçar (com pedagogias de ensino e não de mediação) a aprender porque isso é uma “violência”. Passámos da reguada – política de um ensino ditatorial sem pedagogia – , à “liberdade ” de ser ignorante, livres para não saberem nada. É isso que espelham também os rankings. O eduquês de Nuno Crato ficou a meio de caminho – não conseguiu relacionar estas pedagogias com o capitalismo e ainda usou o eduquês e o prestígio que tinha entre professores para os massacrar mais, piorando tudo. Basicamente a crítica a Piaget veio com o liberalismo do trabalho precário e ainda mais mal pago, tudo verificado por exames e rankings, e a cereja no bolo é a avaliação de desempenho de Maria de Lurdes Rodrigues. Foi o fim de um edifício já em queda. O domínio destas pedagogias espelham outro tema – os pais destes miúdos não acreditam na mobilidade social. Pensam, sem pensar e assumir: “porque vou chateá-lo com o telemóvel, arranjar uma discussão, perguntar-lhe o que estudou, se ele não vai a lado algum mesmo?”

Não falta ignorância, mas falta o essencial: salvar a humanidade

E aqui entra outro tema – o da sociedade. Estudar com que objectivos? Aí sim, é preciso debater a economia do país. Mas Piaget tem sido um anjo para professores (e pais) exaustos que não ensinam, nem exigem nada aos alunos e filhos – a culpa é da criança e do seu desenvolvimento atrasado. E assim, entregamo-los ao mundo. Ignorantes mas atrevidos, porque se não sabem é porque, como cantava a Gabriela, são naturalmente assim. Falta-nos, dizia o Almada, mudar as coisas. – “Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade”.

Iluminar o saber: Vigotsky e Saviani

Para quem quiser entrar no maravilhoso mundo da psicologia e do psiquismo humano e perceber o estado a que nos trouxe o “aprender a aprender”, leiam os textos de Newton Duarte sobre Vigotsky, e em crítica de Piaget, que estão em acesso livre na net. Para a escola que queremos, leiam tudo o que o gigante professor Demerval Saviani escreveu (ele é pequenino de estatura na verdade, mas o melhor e mais brilhante teórico da educação). Ambos são marxistas, o professor Saviani veio do seminário jesuíta para o marxismo e fundou a Pedagogia Histórico-Crítica, que a mim me trouxe luzes (iluminou o saber). A escola de Vigotsky é o mais longe que foi a pedagogia até hoje – e é, claro, dentro da área da psicologia, estudado por todos, incluindo por quem discorda. É um marxista, fundador da psicologia soviética (com Luria, Leontiev, etc), todos proibidos, perseguidos ou ostracizados por Estaline.

Obs: os posts que vou colocando aqui são de divulgação e por isso simplificam as teorias pedagógicas (às vezes faço caricaturas, ou uso metáforas para as explicar) – quem queira deve fazer um esforço para aprofundar estes temas nas leituras originais que deixei acima. Merecem o vosso tempo porque ali percebemos como sabemos tanto para resolver os problemas.

1ª Página. Clique aqui e veja tudo o que temos para lhe oferecer.

Obs: texto previamente publicado no blogue ‘Raquel Varela – Historiadora’; sofreu ligeiras adequações editoriais na presente edição.

Imagens: 0) RV, 1) Taylor Wilcox/Unsplash

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About Author

Raquel Varela

Raquel Varela é Historiadora, Investigadora e professora universitária/ Universidade Nova de Lisboa /IHC e Fellow do International Institute for Social History (Amsterdam). Foi Professora-visitante internacional da Universidade Federal Fluminense. É coordenadora do projeto internacional de história global do trabalho In The Same Boat? Shipbuilding industry, a global labour history no ISSH Amsterdam / Holanda. Autora e coordenadora de 25 livros sobre história do trabalho, do movimento operário, história global. Publicou como autora 51 artigos em revistas com arbitragem científica, na área da sociologia, história, serviço social e ciência política. Foi responsável científica das comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril (2014). Em 2013 recebeu o Santander Prize for Internationalization of Scientific Production. É editora convidada da Editora de História do Movimento Operário Pluto Press/London e comentadora residente do programa semanal de debate público O Último Apaga a Luz na RTP.

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