Organização da DORB acontece esta quarta-feira, 2 de junho, no Theatro Circo

Evocação de Victor de Sá no centenário do seu nascimento – PCP organiza conferência ‘Uma vida de acçãocívica, política e cultural’

Evocação de Victor de Sá no centenário do seu nascimento – PCP organiza conferência ‘Uma vida de acçãocívica, política e cultural’

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No âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Victor de Sá, a Direção da Organização Regional de Braga (DORB) do PCP realizará esta quarta-feira, 2 Junho, pelas 21h, no Salão Nobre do Theatro Circo, uma Conferência com o tema “Victor de Sá: uma vida de acção cívica, política e cultural”.

A Conferência será moderada por Bárbara de Barros, membro da DORB do PCP e vereadora da Câmara Municipal de Braga, contando com a participação de:

  • António Lopes, ex-membro da Comissão Política do Comissão Central do PCP, que desenvolverá o tema “O militante comunista”;
  • Fernanda Ribeiro, Directora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que desenvolverá o tema “Um académico de causas, um historiador de classe”;
  • Henrique Barreto Nunes, ex-Director da Biblioteca Pública de Braga, que desenvolverá o tema “Um académico de causas, um historiador de classe”;
  • José Manuel Mendes, Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, que desenvolverá o tema “Víctor de Sá e os Democratas de Braga”; e
  • Victor Louro, filho de Victor de Sá, que desenvolverá o tema “O lado familiar do Resistente”.

Biografia de Victor de Sá, pelo seu filho Victor Louro

Joaquim Victor Batista Gomes de Sá nasceu na pequena aldeia de Cambeses, Barcelos, em 14 de Outubro de 1921, filho de uma professora do ensino primário e de um então sargento do Exército. Cedo a família se transferiu para Braga.

Os pais mandaram-no com 11 anos para o Seminário das Missões do Espírito Santo, na Régua, por lhe adivinharem vocação missionária, mas após o primeiro ano, por inadaptação foi transferido para o Liceu de Sá de Miranda, em Braga, onde manifestou vocação cultural e associativa, tendo sido eleito presidente da Academia, e criado, com outros colegas, o jornal do liceu “Panorama”.

Terminado o liceu, contrariou a vontade dos pais e empregou-se numa livraria. Inscrito no Sindicato dos Caixeiros, foi seu secretário, e a seguir, eleito presidente. Esperava poder desenvolver actividade cultural, além da defesa dos interesses dos trabalhadores, mas, reconhecendo a impossibilidade de concretizar os seus desígnios demitiu-se pouco depois. A celeuma e profunda oposição das “forças vivas” locais sobre uma exposição de arte por si promovida, em torno do fim da 2ª Guerra Mundial; e a exigência de que os trabalhadores beneficiassem de um dia de descanso, como mandava a lei, por trabalharem no dia de S. João, feriado municipal, valeram-lhe ódios viscerais.

Criação da ‘Biblioteca Móvel’

Pelo caminho transformou em realidade a ideia de colocar à disposição de quem estivesse interessado, a sua já considerável biblioteca: criou em 1942 a “Biblioteca Móvel”, cujo recheio cresceu das duas centenas de títulos existentes inicialmente, para mais de 1 500 quando cessou a actividade em 1950: livros que chegaram em mão e pelo correio a leitores essencialmente carenciados de meios, nas cidades, nas aldeias e em lugares recônditos do país, por um custo simbólico que permitia adquirir mais livros e cobrir os portes de correio. Se em 1944 saíram para leitura um milhar de livros, em 1945 foram lidos 2 400. Era muita gente a ler! (As Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian só apareceram em 1958).

Criação da Livraria Victor

Em 1947 despediu-se e criou a sua própria Livraria Victor, na mesma cidade de Braga, a que, mais tarde juntou o nome “Centro Cultural do Minho”. Esta foi um verdadeiro centro de difusão do livro e ponto de encontro de muitos leitores, em especial do Norte do País. Por ela passaram figuras destacadas como Ferreira de Castro e Santana Dionísio. Foi revistada inúmeras vezes pelas polícias (PIDE e PSP) em busca de livros “proibidos”- que os havia, sim, e eram procurados pelos seus clientes, atentos ao que de bom se publicava, antes de serem apreendidos… Quando, regressado de Paris, a ditadura continuou a impedi-lo de leccionar, decidiu abrir uma nova livraria, moderna e ampla, numa demonstração de capacidade empreendedora em prol da Cultura que não podia ser frenada.

Prisões pela PIDE e trabalhos publicados

Durante esses anos foi vítima das primeiras prisões pela PIDE, uma em 1947 (nas vésperas da abertura da sua livraria), outra em 1949 e outra em 1950 relacionadas com a sua participação no MUD Juvenil, e a terceira sob acusação de pertença ao PCP, sendo levado a Tribunal Plenário, condenado e amnistiado. Essas prisões determinaram, quer por elas próprias, quer pela apreensão de livros, a desarticulação e finalmente o encerramento da actividade da Biblioteca Móvel. Foi também o período em que publicou os seus primeiros ensaios: “A mocidade de Antero” (1942), “As prosas de Antero de Quental” (1942), “Bibliografia Queirosiana” (1945); seguiram-se “O que foi a Biblioteca Móvel” (1954), “O que é a UNESCO” (1955).

Em 1955 foi preso pela 4ª vez, a pretexto da sua participação no Movimento Nacional Democrático – MND / MUD; em 1958 pela participação na campanha de Humberto Delgado; em 1960 a pretexto do panfleto “O Tomás vem outra vez ao Porto”, a PIDE não só o prendeu, como selou a sua livraria, única fonte de sustento da família, a qual foi reaberta ao fim de alguns dias em consequência das pressões do seu advogado e de outros democratas, e de uma forte reacção dos comerciantes de Braga que, apesar de serem maioritariamente salazaristas, ameaçaram fazer uma greve; em 1962 sofreu a mais longa das prisões (sete meses e meio), sob acusação de pertença às Juntas de Acção Patriótica, tendo sido julgado em Tribunal Plenário e absolvido. Ocorreria ainda nova prisão (a 8ª) em 1969.

A sua actividade de publicista iniciou-se publicamente em 1937, no jornal bracarense “Correio do Minho”. Publicou ao longo da vida mais de 600 títulos de artigos e mais de 30 livros. A “Seara Nova” e a “Vértice”, além do “República” são das publicações que mais assiduamente contaram com a sua colaboração. Contudo foi-lhe negada autorização para a constituição de uma editora.

Opositor declarado do Estado Novo

Participou activamente nas candidaturas presidenciais de Norton de Matos (1948), Arlindo Vicente e Humberto Delgado (1958). Dinamizou as candidaturas da Oposição pelo distrito de Braga à Assembleia Nacional, integrando as respectivas listas em várias delas. Participou nos Congressos Republicanos de Aveiro.

Impedido de ensinar, Victor de Sá não desistiu d o fazer

Em 1959 terminou a sua licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas na Universidade de Coimbra e concorreu a professor do ensino secundário. Foi nomeado professor da Escola Comercial e Industrial de Braga, mas foi impedido, por “desnomeação”, de tomar posse do lugar, por acção directa de alguns próceres bracarenses do regime e decisão do Conselho de Ministros.

Este episódio sórdido do salazarismo encontrou resposta veemente da “sociedade civil”, tendo sido organizado um grande almoço de homenagem a Victor de Sá, logo no mês seguinte, que reuniu mais de três centenas de pessoas de todo o país, entre as quais as mais destacadas figuras da Oposição, e que serviu de oportunidade para uma grande reunião de democratas de variados matizes, da qual saiu uma Declaração enviada ao Presidente da República e a Salazar exigindo a libertação dos presos políticos.

Impedido, assim, de prosseguir uma carreira académica ou cultural, conseguiu como bolseiro da Fundação Gulbenkian, rumar à Sorbonne, onde desenvolveu o aprofundamento científico que lhe permitiu apresentar a sua tese e obter o grau de doutoramento (3ème cycle) em História pela Universidade de Paris. O seu doutoramento só foi reconhecido em Portugal em 1975. Foi precursor da moderna historiografia portuguesa.

Professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1974-1991), Universidade do Minho e Universidade Lusófona, de cuja Biblioteca foi obreiro e director, e que hoje leva o seu nome.

A parte da sua biblioteca constituída pelas obras do domínio das Ciências Sociais encontra-se na Universidade Lusófona. Doou o seu espólio documental à Biblioteca Pública de Braga / Universidade do Minho. Tomou a iniciativa mecenática do Prémio de História Contemporânea (que hoje leva o seu nome), que foi apresentado pela Universidade do Minho em 1991, tendo sido atribuído pela primeira vez em 1993 e ininterruptamente desde então, alcançando já a 29ª edição.

Mobilizador dos democratas durante o Estado Novo

Empenhou-se activamente desde o princípio dos anos 40 na mobilização dos democratas, em especial do distrito de Braga, contra o regime de Salazar e Caetano através das mais variadas formas: campanhas eleitorais, comemorações de datas históricas, reacções a acontecimentos oficiais, iniciativas culturais, etc. A sua acção orientou-se sempre pelo trabalho colectivo em prol da unidade democrática e da resistência ao fascismo. Agiu num grupo de democratas que, a partir de Braga, trabalharam incansavelmente para as movimentações da Oposição com vista ao derrube do fascismo.

Com o 25 de Abril de 1974 foi designado para dirigir provisoriamente o jornal “Correio do Minho” (até ali, órgão da União Nacional/ANP), que usou como tribuna de construção da liberdade proclamada, mas custosa de se implantar em terras de província.

No “Verão Quente” de 1975 foi vítima de ameaças dos terroristas do MDLP, tendo a sua livraria sido objecto, em várias noites, de apedrejamento e tiros.

Deputado à Assembleia da República, seria agraciado com a Comenda da Ordem da Liberdade

Foi o primeiro deputado à Assembleia da República eleito pelo PCP pelo círculo eleitoral de Braga, tendo desempenhado essa função entre 1980 e 1981, onde presidiu à Comissão Parlamentar de Cultura e Ambiente e subscreveu vários projectos de lei, entre os quais um de defesa do património arqueológico, outro sobre as associações de defesa do património cultural e outro ainda sobre os direitos dos trabalhadores-estudantes.

Em 1990 recebeu do Presidente Mário Soares a Comenda da Ordem da Liberdade.

Dos anos 80 até ao ano da sua morte viveu em Rio de Mouro, Sintra.

Faleceu em Braga, em 31 de Dezembro de 2003.

Colóquio ‘Lino Lima. Uma Vida pela Liberdade (1917/2017)’ evoca o antifascista famalicense no 100º aniversário do seu nascimento

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Obs: a biografia de Victor de Sá, incluída no presente artigo, foi originalmente publicada em Antifascistas da Resistência, tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição. Esta nota biográfica foi acrescentada ao texto de divulgação da atividade pela relevância do seu conteúdo, atendendo ao desconhecimento generalizado, nos dias de hoje, da vida e personalidade de um dos mais relevantes antifascistas bracarenses membro da ‘Oposição Democrática’.

Imagem: 0) PCP, 1) Antifascistas da Resistência

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28 de maio de 1926, a Revolução Nacional com epicentro em Braga

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Categorias: Agenda, Braga, Cultura, Democracia

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