‘Não são os rankings que devem centrar as nossas baterias, mas o que eles expressam: uma economia que é um lixo, baseada na acumulação e não nas necessidades das pessoas, desigual e brutal’

As agências de rating e os rankings das escolas

As agências de rating e os rankings das escolas

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O horror aos rankings é o mesmo que às agências de rating. Um tipo está doente, mede a febre e a culpa é do termómetro. Entretanto a doença alastra, já que a pessoa vai trocando de termómetro. Há muita gente que faz isto com a balança, está mais gordo, troca de balança. As agências de rating deviam ser inexistentes num mundo decente, são o termómetro que o capitalismo criou para medir a capacidade dos países se endividarem e pagarem dívidas. Medem a relação com o PIB, a produtividade e “custo” do trabalho e as lutas sindicatos e políticas, depois concluem se o país vai ou não pagar os juros, que é o que interessa na dívida (que é para manter). Desde a crise dos ano 70 que o capitalismo funciona empurrando este gigante terramoto, chamado dívida pública, que é privada, com a barriga. A crise de 2008 e a pandemia abriram mais umas crateras.

Os rankings das escolas não são o problema: medem a adaptação da força de trabalho à economia

Como devem imaginar o problema é a economia, os países, as agências de rating são pouco recomendáveis para escolhermos, por exemplo, como lugar para almoçar. Mas o que medem, medem bem. Se há lutas sociais, os países descem logo para “lixo” – “Olha que estes tipos estão a resistir, desce aí para lixo, ou lixo menos”. Vêm os governos e dizem: “Vem aí o apocalipse, transformem-se em lixo para pagar este lixo”. E assim tem ido o mundo. Os rankings medem a nova educação desta economia, que acima acabei de descrever. Medem um mercado de educação, competitivo entre países e dentro de países, e medem a standartização das “competências” adquiridas. Não servem o ensino privado de elite, onde não precisam de publicidade nem nunca precisaram. Têm anos de lista de espera. Querem discrição. Os rankings medem a adaptação da força de trabalho à economia pós-anos 70, baseada na excelência de um grupo restrito que fará trabalho autónomo e científico e de uma imensa massa que vai para o trabalho automatizado, alienado e indiferenciado… Portanto, eu sou contra os rankings, não me venham é dizer que eles são o problema.

A expressão de dois mundos sociais que não se cruzam

O problema é a economia e a educação que eles expressam – e expressam de forma cada vez mais cabal que há uma imensa quantidade de gente que fica sem acesso a qualificações que lhe permitam sonhar com um trabalho não standartizado, realizado, e não alienado, ao longo da vida. Que será, e já é o da maioria, incluindo da parte dos professores que querem negar esta evidência. O que cria um trabalho alienado, sem lutas sociais contra ele? Crescentes doses de sofrimento que se vai expressar ao longo da vida no burnout, depressões, envelhecimento precoce, apatia, presentismo e outras dimensões de sofrimento no trabalho. Não são os rankings que devem centrar as nossas baterias, mas o que eles expressam. Expressam uma economia que ela sim é um lixo, baseada na acumulação e não nas necessidades das pessoas, desigual, brutal, e que se reflecte no campo da educação na brasileirização da educação portuguesa, em que cada vez mais há dois mundos sociais que não se cruzam.

O ranking das escolas, a mota de água, o palheiro e a garagem

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Obs: texto previamente publicado no blogue da autora ‘Raquel Varela – Historiadora‘, tendo sofrido ligeiras adequações editoriais na presente edição.

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O assédio do lucro nos locais de trabalho

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About Author

Raquel Varela

Raquel Varela é Historiadora, Investigadora e professora universitária/ Universidade Nova de Lisboa /IHC e Fellow do International Institute for Social History (Amsterdam). Foi Professora-visitante internacional da Universidade Federal Fluminense. É coordenadora do projeto internacional de história global do trabalho In The Same Boat? Shipbuilding industry, a global labour history no ISSH Amsterdam / Holanda. Autora e coordenadora de 25 livros sobre história do trabalho, do movimento operário, história global. Publicou como autora 51 artigos em revistas com arbitragem científica, na área da sociologia, história, serviço social e ciência política. Foi responsável científica das comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril (2014). Em 2013 recebeu o Santander Prize for Internationalization of Scientific Production. É editora convidada da Editora de História do Movimento Operário Pluto Press/London e comentadora residente do programa semanal de debate público O Último Apaga a Luz na RTP.

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