‘O centro do processo de ensino deve ser o professor, não o aluno’

O ranking das escolas, a mota de água, o palheiro e a garagem

O ranking das escolas, a mota de água, o palheiro e a garagem

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Um dos argumentos que mais li aqui na minha página sobre os rankings foi que a escola pública não pode ser colocada ao nível dos colégios de elites porque ela aceita todos os alunos, “incluindo com necessidades especiais, bairros problemáticos, pobres, muitos sem alimentação decente, sem apoio dos pais, e muitos que são obrigados a estudar até aos 18 anos, e não querem”.

Ranking das escolas é ‘doloroso’

Alguns professores partilharam as minhas notas dizendo que era “doloroso”, mas verdadeiro o que eu tinha escrito; a maioria dos aqui comentaram, porém, defendem que são dois mundos incomparáveis. Esta tese aqui expressa pela maioria o que quer dizer – sem disso terem consciência – é que a escola pública é pior porque… é pública. Porque aceita todos. É a velha tese da massificação, em que professores acreditam (“os alunos são maus porque isto é para todos, não pode ser excelente”) e que grande parte da população acredita também (“os professores são muitos, não podem ser todos excelentes”).

A falsa questão da massificação

A tese da massificação como causadora dos problemas da escola está tão disseminada nas ciências da educação (que são dominadas pela pós-modernidade e pelo assistencialismo da esquerda – desenvolverei mais tarde), que a grande reivindicação dos sindicatos ao longo dos anos é reduzir o número de alunos por turma. Ora, grande parte das escolas de elite, aqui e no estrangeiro têm 30 alunos, ou mais, dependendo das disciplinas. Há disciplinas que exigem total ou parcialmente um professor por aluno e outras podem ter 50 numa sala a ouvir uma aula magistral (mesmo em idades muito jovens) que se podem dar aulas fabulosas em ambos os casos. É um mito pensar que o problema está no número de alunos – o problema está nas condições de trabalho dos professores, na formação destes, nos programas para o “mercado de trabalho”, e na organização e gestão da escola. Ou seja, está no Governo e na forma como os professores aceitam ou não estas condições, ao longo destes anos.

O centro do processo de ensino deve ser o professor, não o aluno

Idealmente uma escola deve ser bonita, limpa e bem arranjada, e temos riqueza social para isso, mas se for num barracão com um grande professor vão aprender melhor do que com um professor em burnout numa escola parque-escolar-Siza-Vieira. Em Portugal todo o investimento é para cimento, remodelaram-se escolas, lindas, onde os professores ganham mal, a formação (também desenvolverei) tem gravíssimas deficiências, e as condições de trabalho não apelam à cooperação, a avaliação é doentia, baseada no afunilamento das carreiras. Esta tese da massificação está claro, ligada a outra – a da escola “centrada no aluno”. Quando a escola tem que ser centrada no professor – se eu fizer parte da direcção de uma escola quero saber quem são e como estão os docentes, essa é a preocupação número um. Como está o produtor? Neste caso de educação. Como quando entro num hospital quero saber como está o médico, como aprendeu, quanto ganha. Se eu tiver excelentes docentes (e isso só é possível com excelentes condições de trabalho) eu vou ter excelentes alunos, venham de onde vierem. Nos colégios de elite o docente é o centro do processo de ensino, não é o aluno. Quem define o que vai dar, como vai dar, e em que condições vai dar é o professor que assim eleva todos, em vez de se submeter ao nivelador por baixo que se tornou a escola pública, justamente para se “centrar no aluno”.

A anormalidade da privatização da escola pública através de explicações

Os rankings não estão inflacionados nas escolas de elites. Os rankings medem os exames nacionais, que são de correção anónima – os da privada são eles mesmos muitas vezes corrigidos pelos professores da pública. O que os rankings mostram é uma abissal disparidade entre o que conseguem fazer as escolas de elite e onde se encontram as públicas. Os exames medem muitas coisas distintas, às vezes há exames muito bem feitos, outros que são de um facilitismo atroz ou errados (no ano passado bons artigos foram escritos sobre o de português e filosofia, no Público por professores). Mas são iguais para todos. Há ainda outro viés. A escola pública só o é para quem não pode pagar explicações, que se generalizaram, e que não raras vezes são dadas pelos mesmos professores da escola pública ou em centros de explicações à porta da escola – tudo isto já foi normalizado embora implique de facto uma privatização da escola pública, já que quem pode paga desde o 7º ano explicações a matemática, e no 10º ano a física, geometria, português e matemática, à razão de 260 euros por mês por disciplina. Portanto, as notas que aparecem nos rankings na pública tão pouco nos dizem quais deles tiveram ou não explicações. Esta total anormalidade – ter explicações, que 8 horas de aulas não sejam suficientes!, ter centros de ensino privados à porta das escolas, é hoje vivida pela comunidade escolar como se fosse perfeitamente normal. A isto juntam-se outras ignominias também aceites com cumplicidades por muitos docentes – colocar os melhores docentes nas melhores turmas, haver escolas públicas a seleccionar a entrada de alunos, colocar os melhores docentes em ciências, e esvaziar as humanidades, etc, etc. Tudo isto se passa na escola pública. Que pagamos a peso de ouro, para estarmos não no último do pódio mas a 45 lugares do pódio. Como se pode continuar a defender isto?

Pais e professores não lutam pelo futuro das crianças e jovens

Os professores são vítimas, mas também são responsáveis. Por não defenderem outras políticas. Por chamarem um pai ou mãe e lhe dizerem “O seu filho tem um problema” em vez de chamarem o pai ou mãe e lhe dizerem “Eu e o Sr. temos um problema com este Governo, e nestas condições quem sofre é o seu filho porque eu não o posso ensinar bem nas condições em que trabalho e como isto está organizado”. Crucificam os pais, exaustos, sem qualificações, a quem, depois de os mandarem ajudar os filhos a fazer TPC! ainda culpabilizam pelo insucesso dos filhos. Só há aqui uma vítima, sem responsabilidade alguma, as crianças e os jovens. Que não aprendem. Que estão sem futuro. Nem os pais nem os professores lutam por eles.

Esta é a parte mais triste do diagnóstico que mostram aquelas médias. Desistiu-se dos alunos, tal como já se tinha desistido dos filhos, apesar de todo o amor e boas intenções. Ninguém adulto luta pelo futuro do país, não têm força anímica para dizer que estão a condenar sucessivas gerações à ignorância, ao retrocesso. Isto quando o Governo há muito os mandou emigrar, e o Presidente da República (PR) se queixa, sem pudor e sem espanto público, que é preciso mandar vir força de trabalho de países com sistema de castas porque os portugueses, chatos, não querem trabalhar por este valor escravo. Não haverá por aí trabalho gratuito, não? – faltou ouvir-se de Marcelo sobre Odemira. Ser pai e mãe é uma aventura para a qual a maior parte da humanidade não tem qualquer qualificação e, como sabem, não é exigido curso – para andar de carro há um curso e um exame, para ser pai e mãe não. A maioria dos pais nem sabe que os filhos estão condenados na maioria das escolas, nem tem meios para saber – cuidam dos filhos com esforço, sem saber quando estão a desistir deles. Cabe aos professores dizê-lo em vez de continuarem a auto-convencer-se da tese de que a escola pública está óptima, sobretudo quando não têm lá o público… É na crítica que serão parte da solução, e não do problema.

Para quando a formação científica e cultural dos professores?

Há uma estratégia de dependência e atraso dos governos, que se expressa em tudo isto. Todo o dinheiro em Portugal é para a construção civil (o próximo Plano Resiliência e Recuperação é para construção e digitalização, automação, ou seja, mais Ipads e teleensino), nunca para a formação cultural e científica da força de trabalho e seu salário. E o resultado é este. Temos 140 mil professores dos quais 78% estão em exaustão emocional, e os devedores do Novo Banco declaram possuir na totalidade uma mota de água, um palheiro e uma garagem.

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Categorias: Ensino, Família, Trabalho

About Author

Raquel Varela

Raquel Varela é Historiadora, Investigadora e professora universitária/ Universidade Nova de Lisboa /IHC e Fellow do International Institute for Social History (Amsterdam). Foi Professora-visitante internacional da Universidade Federal Fluminense. É coordenadora do projeto internacional de história global do trabalho In The Same Boat? Shipbuilding industry, a global labour history no ISSH Amsterdam / Holanda. Autora e coordenadora de 25 livros sobre história do trabalho, do movimento operário, história global. Publicou como autora 51 artigos em revistas com arbitragem científica, na área da sociologia, história, serviço social e ciência política. Foi responsável científica das comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril (2014). Em 2013 recebeu o Santander Prize for Internationalization of Scientific Production. É editora convidada da Editora de História do Movimento Operário Pluto Press/London e comentadora residente do programa semanal de debate público O Último Apaga a Luz na RTP.

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