Documentário polémico pretende mudar a forma de ver e consumir recursos marinhos, em particular os provenientes da pesca, encarada como ‘pirataria dos mares’

‘Seaspiracy’ exibe a pesca como o principal problema dos oceanos

‘Seaspiracy’ exibe a pesca como o principal problema dos oceanos

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Seaspiracy, que se poderia traduzir livremente por Pirataria dos Mares, trata-se  da mais recente produção da Netflix que está a causar polémica um pouco por todo o mundo. No essencial, a equipa produtora do documentário apresenta toda uma nova perspetiva sobre o consumo de animais marinhos, defendendo que o principal problema dos oceanos é a pesca, e não o plástico, como habitualmente nos dizem.

Do lixo nos oceanos à pesca ilegal, passando pelo trabalho escravo no mar, o documentário mostra o grande impacto do consumo de peixes no planeta e nos oceanos, em particular, consequência da quase inexistente regulação. O projeto apoia-se em imagens muito fortes. “Para assistir a Seaspiracy precisa ter estômago. O documentário fala “sobre o impacto ambiental da pesca, e contém diversas cenas chocantes”, refere Camilla Milan na Rolling Stone.

A opção vegan será uma salvação?

Da limpeza de praia à caça às baleias, Seaspiracy: Pesca Insustentável reflete o caminho pessoal do cineasta Ali Trabizi, que começou a trabalhar em cinema em 2010, cujo objetivo inicial era realizar um documentário sobre as maravilhas do oceano. Nesse trajeto, “o realizador percebeu que todas as atrocidades cometidas pelos humanos nos mares (e fora deles) não poderia ser ignorada”. Narra, por isso, a sua transição de ações como as limpezas de praias locais para a preocupação com a caça às baleias e aos golfinhos. É esta mudança que desencadeia uma viagem à volta do mundo e uma série de entrevistas com quase três dezenas de especialistas ou pessoas envolvidas na indústria pesqueira.

Os malefícios da pesca comercial – com a redução de stocks e de biodiversidade – e a controversa pesca sustentável, os danos colaterais causados pela pesca industrial de arrasto e o lixo produzido pelo abandono ou a perda no mar das redes e outras artes de pesca, bem assim como os selos que prometem cuidar dos animais marinhos são alguns dos conteúdos tratados no documentário, com o intuito de retratar o impacto do ser humano nos oceanos e alertar a opinião pública para a “existência de uma salvação vegan para os problemas”.

Algumas informações contestadas por especialistas

Além disso, os dados divulgados são alarmantes. Contudo, os números têm sido alvo de crítica de diversos ambientalistas que indicam a deturpação das informações. Representantes da Dolphin Safe e do Marine Stewardship Council acusaram o cineasta de uso enganoso das declarações, por exemplo. Além disso, em dado momento assinala-se que, se o ritmo de destruição dos mares continuar, “o oceano estará vazio em 2048”. De acordo com diversos especialistas ouvidos pelo The Guardian, estas informações não estão corretas.

“Desde que foi lançado, quase todos os cientistas marinhos que escutei sobre o documentário queriam ver a obra afundada para nunca mais ser vista devido à desinformação desenfreada”, assinala, por seu turno, Brian Khan, no Gizmodo. Especialistas da Sustainable Fisheries denunciam o documentário como “má ciência” isso inclui alguns dos citados no filme, que também disseram que foram deturpados). Mas, o que é realmente perturbador sobre Seaspiracy, é a maneira fácil com que ele mostra como resolver os problemas que o oceano e a sociedade enfrentam da maneira mais vegan e salvadora possível.

As críticas que se fazem ouvir a Seaspiracy: Pesca Insustentável também se referem à falta de alguns temas-chave, como as alterações climáticas. Ao anunciar o veganismo como solução para os problemas, os especialistas também indicam a alternativa como insustentável para diversas comunidades – algo que não é citado nem explorado no argumento.

A mudança é necessária: como fazê-la?

Seaspiracy transmite a ideia de que os problemas abordados negligenciados por governos e até organizações dedicadas à proteção dos oceanos, oferecendo, por isso, “uma única e mágica ‘solução’: temos todos de parar de comer peixe, seja este proveniente de capturas ou da aquicultura”, refere Maria da Graça Carvalho, a vice-presidente da Comissão das Pescas (PECH), no Diário de Notícias.

Assim, “o primeiro problema deste género de sentença é a sua impraticabilidade. Os setores das pescas e da aquicultura, de acordo com os últimos dados oficiais da União Europeia, são responsáveis por mais de 150 mil empregos a tempo inteiro na Europa, aos quais se devem ainda somar muitos postos de trabalho na indústria transformadora e outras atividades conexas. Sem esquecer o papel fundamental do peixe e de outros produtos do mar na alimentação das populações, em particular nos países do sul, como é o caso de Portugal. O segundo problema, porventura mais grave (…), é precisamente incutir na opinião pública a ideia de que deve desconfiar dos legisladores, de todas as autoridades públicas nacionais e internacionais. E que, por isso, as únicas ações válidas e com impacto são as tomadas a título individual”.

A urgência: redefinir a relação com o planeta

“Suspeito que algumas pessoas estejam furiosas porque o Seaspiracy: Pesca Insustentável não expõe apenas negligência, mas toda uma visão de mundo.

É hora de olharmos para os oceanos sob outra luz: tratar os peixes não como frutos do mar, mas como animais selvagens; ver suas sociedades não como estoques, mas como populações; e suas redes alimentares marinhas não como pescarias, mas como ecossistemas. É hora de vermos sua existência como uma maravilha da natureza, ao invés de uma oportunidade para a exploração. É hora de redefinirmos nossa relação com o planeta azul”, conclui, por sua vez, George Monbiot, em Outras Palavras.

Conclusão

A si, leitor, cabe-lhe o papel final. Veja, pense… e decida.

Exibição em Famalicão

A AREA – Associação de Amigos do Rio Este, de Famalicão, exibe, na Casa do Território, no Parque da Devesa, em Famalicão, o recente documentário Seaspiracy: Pesca Insustentável sobre a indústria pesqueira global produzido pela Netflix. O filme, realizado por Ali Tabrizi, que estreou no streaming em 24 de março e fala sobre os impactos da pesca, será apresentado no próximo dia 21 deste mês de maio, pelas 21h00, em mais uma sessão Ambientar-se. O polémico documentário tem desafiado as mais comuns noções de pesca sustentável, mostrando como a ação humana causa destruição ambiental generalizada.

Um terço dos peixes de água doce de todo o mundo encontram-se ameaçados

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Obs: atualização do artigo em 25-09-2021, com deslocação do primeiro parágrafo para o final do texto e atualização do título.

Imagens: Ali Trabizi/ Netflix

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