‘Compreender a condição humana e o mundo é o melhor caminho para caminharmos em frente na elevação de tudo’

A democracia de, por e para, e a literatura

A democracia de, por e para, e a literatura

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1.

A literatura é como a democracia. Tal como a democracia deve ser do povo, pelo povo e para o povo, também a literatura deve falar de nós, por nós e para nós. Se não o fizerem, então algo está errado nelas, ou estão a ser subvertidas relativamente ao sentido que deveriam ter. Pode-se chegar mesmo a extremos de subversão, em que elas deixam de ser o que são, mantendo apenas a ilusão da sua aparência. Há democracias que são caricaturas. E há artefactos, em forma de livros, muito bem promovidos e vendidos, que não são literatura nenhuma. E porquê? Porque confundimos a aparência com a essência. E porque tanto a democracia como a literatura têm sido sucessivamente metidas nas gavetas, ou expostas ao caruncho das prateleiras.

2.

O mais importante a considerar, quanto à democracia, é a sua essencial compreensão de sentido. Sem essa compreensão, fica aberto o caminho para a sua apoucação e degradação diversa. É por não darmos atenção a abordagens cívico-pedagógicas adequadas para a sua compreensão como prática de cidadania esclarecida e plena que a democracia se pode transformar, e já tem acontecido, num mero simulacro burocrático, que se esgota no gesto automático do voto, e nada mais, deixando-se a sociedade presa em malhas mais ou menos oligárquicas, mais ou menos tirânicas.

3.

Do mesmo modo, para a literatura, o mais importante e de maior interesse na literatura é a sua essencial compreensão e sentido. Foi na busca da compreensão e do sentido da obra que nos tornamos leitores verdadeiramente, libertos, na imensa maioria dos casos, de qualquer aprisionamento redutor de grelhas de análise, de caracterizações, de esquemas, de propostas de leitura, da última moda do último linguista, ou da mania do teórico em exercício. De onde vinha aquele entusiasmo, aquela vivência da aventura como se fossemos parte viva nela quando líamos os livros que nos encantavam, sem que fosse necessário mandar-nos ler?

4.

Ora, temos de regressar, apostar mais e melhor, insistir sempre no regresso da literatura às nossas escolas, de modo mais abundante e diverso, e centrar-nos na compreensão do lido e do seu sentido. É preciso dar muito mais importância ao texto, como base, e como essência. E porquê? Porque, regressando ao princípio, a literatura fala de nós, por nós e para nós. É a literatura, e tem cada obra sua, um sentido portador de modalidades insubstituíveis de compreensão do mundo e de nós mesmos. E como? Veiculando, e/ou propiciando, intelectivamente, experiências, que nós nunca não, ou não naquela perspectiva ou dimensão, e apresentando-nos personagens tão várias e tão diversas, e em tão contextos singulares, que, por adesão, critica ou rejeição, nos permitem um mais consistente e mais fundo enquadramento da realidade humana nas suas múltiplas dimensões.

5.

Temos um mundo a aprender e a compreender com os grandes autores, certamente. As grandes obras falam de nós, mostram-nos como somos, põem-nos espelhos à frente; falam por nós, uma vez que, como tantas vezes se ouve dizer, nos tiram as palavras da boca, isto é, dizem o que sentimos ou pensamos, e queremos dizer, mas não sabemos dizer assim tão daquela maneira clara; e falam para nós, para nos vermos mais a nós e ao mundo e, desse modo, podermos ser mais e melhores. Na verdade, a literatura diz-nos, muitas vezes antes, e tanto ou mais, sobre a condição nossa humana, do que nos diz a sociologia, a psicologia, a filosofia. O que é importante é, em cada obra, captar o seu sentido ou a sua vibração existencial que se revela ou se desvenda na leitura.

6.

É, por isto, importante que a escola regresse à literatura, à obra e ao texto, àquilo de que falam, ao seu sentido, e ao mundo que evocam, secundarizando, ou reduzindo ao estritamente necessário, e só se o for, o pandémico abuso analítico, estruturalista, construtivista, desconstrutivista, de busca da verdade última e nula. Não. Isso não interessa, ou interessa muito pouco. Compreender a obra viva em si é o que mais importa, e não a anatomia e a dissecação do seu cadáver. O leitor normal dialoga com a obra e com o seu contexto. O que ele quer é encontrar um sentido para ele nela e a sua compreensão. E ao fazer isso está no caminho de se compreender a si mesmo melhor, e melhor compreender os outros e o mundo, e para descobrir algo, uma ética, uma estética, por exemplo, que enriqueça a sua existência.

7.

A literatura, pois, se não falar de nós, por nós e para nós, não tem interesse por aí além. Não terá mesmo interesse nenhum. Porém, cumprindo esses pressupostos e falando, a literatura transcende-se e passa a ser mais que ela mesma. Na verdade, estudar a literatura para se ficar a saber da matéria, dos autores, das obras, das suas características, das suas escolas já é em si mesmo importante. Mas, muito mais importante, é fazer da literatura, não um fim em si mesmo, mas antes um caminho, um meio eficaz e rico, muito rico, de realização eficaz de si mesmo e de cada um. Compreender-se a si mesmo e aos outros, compreender a condição humana e o mundo, é o melhor caminho para caminharmos em frente na elevação de tudo. Sim. Os melhores professores estão a dormir nas estantes das bibliotecas. Seria bem que, no nosso país, um dia, breve, se retirasse Camões e os grandes mestres das prateleiras. Mas é como digo. Também a democracia anda entorpecida metida em gavetas e nas prateleiras.

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Obs: texto previamente publicado na página facebook do autor.

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António Mota

Professor. Braga.

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