‘Fazer meus os versos de José Mário Branco: «Sempre que abril aqui passar, dou-lhe do meu farnel pra o ajudar»’

Sempre!

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«25 de abril sempre!» Pois claro que sim, ainda que o que me agrada na proclamação dependa, cada vez mais, de quem a pronuncie. Ouvimo-la tantas vezes, e em tantos tons, que há o risco de esvaziar o seu conteúdo, ficar tão vazia como aquela outra proclamação que nos encheu os dias: «Vamos ficar todos bem». Claro que nem todos ficaremos bem, tal como é evidente que não há um «25 de abril sempre», a não ser que o reduzamos ao acontecimento histórico que reformou o Estado pela via democrática. Pela minha parte gostaria que declarar «25 de abril sempre!» significasse algo mais que esse mínimo a que os ventos da história nos conduziriam de uma forma ou de outra. Sinto, porém, que as esperanças que abril trouxe definharam sem pudor até se sumir diante dos nossos olhos.

Resta-nos a proclamação. É um «Sempre» ritual e cada vez mais vazio, tão vazio que todos podem soltar a mesma exclamação, todos de punho erguido, uns ainda de braços nus, outros de luvas de pelica; uns de Rolex saindo da manga da camisa, outros de anel de rubi no anelar. Alguns dirão que é assim que deve ser, que o 25 de abril é de todos e foi para todos. Talvez sim, talvez tenho sido mesmo essa a herança que abril nos legou, uma herança paritária para filhos e enteados, uma herança que mal arranhou as desigualdades que então existiam e hoje persistem, se é que não se agravaram. O que temos é um 25 de abril velho e acomodado, pachorrentamente sentado numa poltrona a espera que o chamem a cada ano para desfilar na avenida e receber os cumprimentos no Parlamento. Deste 25 de abril que se cansou, que deixou demasiadas promessas por cumprir, não têm culpa os capitães que o fizeram nem aqueles que lutaram nas ruas e nas empresas por um futuro diferente. Mas eu, que tanto anseio por reformar-me, gosto pouco de «Revoluções Reformadas», dessas que se vendem no mercado global do consenso democrático, as mais das vezes embrulhadas em papel colorido, disponíveis em qualquer centro comercial perto de si.

Feito o desabafo, junto-me ao coro do «25 de abril sempre!», é claro. Faço-o desejando que o desencanto se transfigure, um dia, em renovadas mobilização para as lutas que estão ainda por fazer. Como sempre, não há desfile em Braga, o que isenta a Covid de qualquer culpa. Fiquemos com o que há, um espetáculo musical de tributo a Zeca Afonso, e com isso façamos a festa. Lá estarei, trauteando desafinado, disponível, como sempre, para fazer meus os versos de José Mário Branco: «Sempre que abril aqui passar, dou-lhe do meu farnel pra o ajudar».

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Imagem: M GMR

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Categorias: Braga, História, Identidade

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Luís Cunha

Professor universitário. Braga.

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