Raquel Varela

Os homens quebrados

Os homens quebrados

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O melhor manual de corrupção que li foi o romance O Homem Quebrado de Tahar Ben Jelloun. Um dos mais importantes escritores de língua francesa, e também psiquiatra, ofício que coloca na construção das suas personagens complexas. Esta segunda-feira tive aqui em casa uma bela discussão filosófica com a juventude sobre este livro.

Sucintamente, temos a personagem principal, um homem, de personalidade insípida e submissa, incorruptível – mas por pressão da mulher -, que despreza o seu salário baixo, a filha asmática, que está sem medicamentos, e o chefe e a estrutura corrupta, a ponto de acabar por se tornar ele próprio um corrupto. O romance é a sua transformação, de impoluto a vigarista, no fim não se salvando porque ao se transformar em corrupto morre como ser humano. O seu último sentido de vida era pelo menos ser sério e, ao aceitar as regras do jogo, transforma-se ele mesmo num personagem ainda com menos amor a si próprio.

Este é um tema de que o marxismo mais mainstream tem fugido, mas a psicanálise (e o próprio Marx) explora. A sociedade capitalista não cria capitalistas insípidos sem personalidade, ela cria um enorme sofrimento nos próprios capitalistas porque ao viverem em competição uns com os outros e para sobreviver a essa competição terem que cortar salários aos seus trabalhadores ou fazer infinitas falcatruas que gestam a miséria humana, eles mesmos entram em sofrimento expresso na loucura dos gestores, no consumo de drogas “caras”, na degeneração moral, ou no cinismo doentio dos CEO. No capitalismo ninguém se salva, em suma.

É certo que já existia corrupção antes do capitalismo. Assim que há desigualdade ela nasce, mas depois da II Guerra com a elevação das dívidas públicas para ocultar falências privadas, e o crescimento do papel do Estado na economia, corrupção e capitalismo passaram a ser sinónimos. Nos EUA, pragmáticos, resolveram o assunto chamando à corrupção lobby e legalizando todos os esquemas como fruto da “liberdade individual e de mercado”. Uma farmacêutica dá milhões a um candidato e isso chama-se lobby.

Mas a corrupção não é eterna, é ainda uma escolha política e social. Pode-se escolher lutar contra ela, identificando as causas reais. Nem todos somos corruptos, aliás a grande maioria das pessoas do mundo, é um facto, recebe menos do que trabalha e não teria benefícios pessoais para si do dinheiro dos outros.

O debate filosófico aqui em casa era, então, se devemos defender a personagem que se suja para comprar medicamentos ou não. Penso que, no fim, chegámos a uma conclusão comum, e muitas divergências – não há salvação possível. Quando se coloca a mão na lama, a mente suja-se e entre falta de medicamentos para a asma e uma vida conspurcada pelo roubo não há propriamente uma escolha de vida, ambas são uma escolha de morte.

O juiz Ivo Rosa escreveu 6.000 páginas para dizer que Sócrates é corrupto. Há indícios, para usar o termo jurídico, mas prescreveram. Sócrates admitiu a circulação de dinheiro em quantias gigantes em malas “dadas por um amigo” e tudo ficou na base da amizade. Nas escutas tratava as malas de dinheiro por “aquela coisa que eu gosto muito”! Há quem branda por mais leis e afastamento do juiz, outros por menos leis (menos garantias no processo penal).

Creio que a questão de fundo é outra – há uma estrutura legal de funcionamento do Estado e a sua relação com o privado que favorece a corrupção, mesmo quando não se chama corrupção e é legal. Confesso que enquanto o dinheiro público não for de controlo público podemos mudar as leis mas ninguém se salva. Todos os envolvidos – os que tentaram com escassos meios provar o crime, o mentiroso compulsivo que tentou livrar-se do crime (a que o Público hoje dá voz, na busca declinante de ter partilhas em vez de jornalismo), o juiz que tentou aplicar a lei para salvaguardar os bens e a lei – são homens quebrados. Uns quebrados porque queriam fazer justiça e não conseguiram, outros porque não queriam fazer justiça e conseguiram.

1ª Página: Ler as gentes e as cidades.

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About Author

Raquel Varela

Raquel Varela é Historiadora, Investigadora e professora universitária/ Universidade Nova de Lisboa /IHC e Fellow do International Institute for Social History (Amsterdam). Foi Professora-visitante internacional da Universidade Federal Fluminense. É coordenadora do projeto internacional de história global do trabalho In The Same Boat? Shipbuilding industry, a global labour history no ISSH Amsterdam / Holanda. Autora e coordenadora de 25 livros sobre história do trabalho, do movimento operário, história global. Publicou como autora 51 artigos em revistas com arbitragem científica, na área da sociologia, história, serviço social e ciência política. Foi responsável científica das comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril (2014). Em 2013 recebeu o Santander Prize for Internationalization of Scientific Production. É editora convidada da Editora de História do Movimento Operário Pluto Press/London e comentadora residente do programa semanal de debate público O Último Apaga a Luz na RTP.

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