Jorge Jaber: Toda situação extrema, que coloque em risco nossa vida, saúde e rotinas estabelecidas, pode provocar problemas físicos e emocionais. É o caso da pandemia.

Psiquiatra analisa o momento atual e faz importantes alertas sobre a saúde mental

Psiquiatra analisa o momento atual e faz importantes alertas sobre a saúde mental

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Médico Psiquiatra Dr. Jorge Jaber analisa situação da Saúde Mental em meio da pandemia de COVID-19

 

 

Jorge Jaber é uma das personalidades brasileiras melhor habilitadas para analisar e fazer um ponto da situação da Saúde Mental em meio a uma pandemia como a de COVID-19 que estamos a viver. Em reor de um contexto de inquietações, ansiedades, depressão e de tantas incertezas, que o país atravessa, batendo recordes de mortalidade e infetados devido à pandemia, mas também com o agravar de toda a situação social que acontece por arrasto, entrevistei, com exclusividade, o Dr. Jorge Jaber. Nesta conversa, ele faz várias análises e esclarecimentos sobre o presente e o futuro no tocante a saúde mental.

Médico Psiquiatra, formado em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Diretor-Técnico da Clínica Jorge Jaber é ainda Professor de Psiquiatria da PUC-Rio, possui MBA em Medicina pela Fundação Getúlio Vargas, Membro Fundador e Associado da International Society of Addiction Medicine, Membro do Conselho Administrativo da Association of Psychiatric Administrators – AAP, associado da New York Academy Of Sciences, associado da American Psychiatric Associations – APA, associado da World Federation Against Drugs – WFAD, mas também fundador da banda carnavalesca “Alegria Sem Ressaca”, de que  Elza Soares foi madrinha em 2019, é ainda um dos fomentadores da benfeitoria da Academia Nacional de Medicina do Brasil.

 


Médico Psiquiatra Dr. Jorge Jaber analisa situação da Saúde Mental em meio da pandemia de COVID-19

 

João Costa: Depressão, síndrome do pânico e os transtornos de ansiedade em geral têm acometido mais pessoas na pandemia?

Jorge Jaber: Todo ser humano carrega um conteúdo genético que determina sua reação aos estímulos externos, como a predisposição a certas doenças e a resistência a outras. A pandemia trouxe situações muito prejudiciais à saúde mental: isolamento, quebra da rotina, medo da morte e insegurança econômica, por exemplo. Um cenário propício para o surgimento de problemas psíquicos em pessoas geneticamente suscetíveis e para o agravamento dos casos preexistentes.

A depressão e transtornos de ansiedade e pânico, que com muita frequência têm diagnóstico interligado, se enquadram nesse contexto, com um agravante: o excesso de informações falsas ou desencontradas que recebemos a todo o momento. As “fake news” dificultam a busca por dados corretos, agravando a sensação de insegurança. Neste panorama, é natural que os transtornos mentais tenham aumentado.

João Costa: Quais os sintomas mais comuns de depressão e síndrome do pânico?

Jorge Jaber:  A depressão geralmente provoca alterações do sono e da alimentação, com perda ou ganho significativo de peso, de memória, desinteresse pelas atividades cotidianas e cuidados pessoais, irritabilidade. As pessoas deprimidas costumam demonstrar uma espécie de tristeza, mas muitas vezes mascaram esse sentimento com falas excessivas e tentativas de criar assuntos divertidos. São disfarces para o sofrimento.

Há também uma sensação de fadiga, falta de ânimo, o que gera críticas e comentários como “você é jovem, deveria reagir”. Isso, além de inútil, fragiliza ainda mais o paciente. É como se, diante de alguém com a perna quebrada, disséssemos “fique tranquilo, isso é besteira”. A questão é física, o cansaço é real. Vale lembrar que a depressão atinge mais mulheres do que homens – quase o dobro de casos.

O ataque e a síndrome do pânico se inserem nos quadros de ansiedade, e também afetam mais as mulheres, numa proporção de quatro por um. É preciso estabelecer a diferença entre os dois: o primeiro surge com um medo intenso de algo inexistente ou injustificado, gerando uma sensação de morte iminente, tremores intensos, palpitações e falta de ar – a dispneia, em linguagem médica. Há também relatos de tontura, visão turva, dormência nos lábios e dor no peito, com alteração no batimento cardíaco – neste caso, é fundamental fazer um exame rapidamente para afastar a hipótese de infarto do miocárdio.

A síndrome ocorre quando os ataques se tornam recorrentes. A perspectiva ou o simples medo de novos episódios leva o paciente a um quadro de preocupação excessiva e mudança de comportamento para tentar que eles se repitam.

Normalmente, os sintomas ganham intensidade nos primeiros 15 minutos, numa escalada rápida, e depois disso começam a diminuir. Em casos muito raros, podem durar uma hora. Eu costumo dizer aos alunos que, diante de uma pessoa nessa situação, o ideal é “emprestar o ouvido”. Vinte minutos de conversa, desviando aos poucos do assunto, ajudam muito. Não é hora de dizer “calma, se controle”, como não se diz “pare de sangrar” para alguém com hemorragia. Não minimize o problema. Como na depressão, os efeitos são reais, e provocam sofrimento intenso, além de uma sensação de esgotamento depois de superada a crise. Deixe a pessoa descansar.


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João Costa: Como se prevenir contra os problemas emocionais em um momento tão delicado?

Jorge Jaber: A sabedoria popular nos dá muitas respostas. Ela diz, por exemplo, que uma atividade prazerosa ajuda a superar dores ou sofrimentos. Isto é confirmado pela Ciência: a sensação de bem estar produz impulsos positivos no cérebro e isso fortalece nosso sistema imunológico. Aplicando esse conhecimento ao momento atual, podemos combater esses problemas com um sistema de prevenção em três etapas. A primeira é criar estratégias pessoais de bem estar: leitura, música, uma caminhada ao ar livre – sempre com máscara, álcool gel e distanciamento –, meditação, enfim, tudo que nos dá prazer. Se isso não for suficiente, converse com um amigo, divida o problema com uma pessoa de confiança. Se ainda assim a sensação de mal estar prosseguir, busque ajuda profissional, como um psicólogo, ou, em casos mais graves, um médico. Com uma base de apoio estabelecida, há mais chance de superar esse momento difícil.

João Costa: Quais os principais desafios da psiquiatria neste momento tão delicado?

Jorge Jaber: O maior desafio é aumentar a oferta de serviços gratuitos e eficientes de saúde mental, através do SUS. Há uma grande carência nessa área, e a demanda só cresce. A depressão, por exemplo, atinge cerca de 6% dos brasileiros. Este e outros transtornos mentais provocam grande sofrimento e até prejuízos econômicos, com o afastamento de muitos profissionais de seus postos de trabalho.

A psiquiatria e a neurociência evoluíram muito a partir dos estudos de Philippe Pinel e, mais tarde, Sigmund Freud. O tratamento baseado unicamente no isolamento do paciente é cada vez mais raro. Houve uma humanização no enfrentamento dos problemas psíquicos, e hoje sabemos que, medicadas e tratadas, essas pessoas podem levar uma vida normal. Se conseguirmos oferecer esse atendimento, incluiremos um grande número de brasileiros no tecido social, com benefícios emocionais e até econômicos para todos.

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João Costa: Os transtornos de ansiedade e depressão só podem ser tratados através de medicamentos ou há meios alternativos?

Jorge Jaber: Na maioria dos casos, o remédio não é a primeira opção. A medicina, até por uma questão de bom senso, utiliza os recursos de maneira gradativa. A aplicação de qualquer tratamento, portanto, depende da gravidade do problema. A primeira fase de qualquer tratamento são os cuidados básicos: repouso, alimentação, limpeza corporal e mesmo uma conversa sobre o problema. A chamada higiene mental, que evita uma piora no quadro. Se os sintomas permanecem, é hora da ajuda profissional, e mesmo nesse momento é preciso uma escala: os psicólogos, com recursos como: a terapia verbal ou mesmo corporal – arteterapia, yoga, meditação e outros – atuam de forma menos invasiva, com excelentes resultados. Quando essas medidas iniciais não surtem efeito, recorre-se à psiquiatria, que introduz os remédios necessários, na dose adequada. É sempre bom destacar que há medicamentos de ótima qualidade e, quando administrados corretamente, muito eficientes e seguros.

João Costa: Os medicamentos ansiolíticos geram algum dano para a memória ou no tocante a sexualidade do paciente a curto, médio e ou longo prazo?

Jorge Jaber: Todo medicamento é uma droga, e deve ser receitado de maneira cuidadosa. Os benzodiazepínicos podem afetar a memória, enquanto os ansiolíticos, que são relaxantes musculares, podem levar à diminuição da libido. Mas são efeitos passageiros. Um fator preocupante em relação aos remédios é sua oferta excessiva. Muitos médicos, sabendo que o paciente pode ter dificuldade para conseguir uma nova consulta, passam várias receitas de uma só vez, provocando uma super oferta de medicamentos na sociedade, até mesmo para pessoas que não precisam deles. Isto é outro gatilho para tentativas de suicídio. Quais são as medicações que a rigor podem gerar determinado dano? Toda substância química, como os remédios, pode se tornar um veneno, se ingerida em excesso ou indevidamente. A psiquiatria, através da psicofarmacologia, se preocupa com o comportamento dos remédios no organismo. O grande temor do psiquiatra é causar a chamada iatrogenia, ou seja, levar o paciente a adoecer pelo tratamento. Desse modo, eles costumam ser muito cuidadosos com esta questão.


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João Costa: A vida na pandemia irá gerar problemas emocionais nas pessoas? Quais os problemas mais comuns?

Jorge Jaber: Toda situação extrema, que coloque em risco nossa vida, saúde e rotinas estabelecidas, pode provocar problemas físicos e emocionais. É o caso da pandemia. Temos visto um aumento nos casos de transtornos psíquicos, e as pesquisas vêm constatando isso a nível mundial. É um cenário preocupante, pois além dos próprios efeitos dessas doenças, elas são gatilhos potenciais para o suicídio.

João Costa: Ainda há muito preconceito e resistência das pessoas em buscar a ajuda de um psiquiatra?

Jorge Jaber: O preconceito é fruto muito mais do medo do que da soberba. Temos medo do que projetamos como inferior no outro. Por muito tempo, a humanidade temeu o comportamento destoante representado pelos portadores do mal estar mental, e é natural que esse temor e esse preconceito persistam. A maneira de combater isso é desmistificando o transtorno psíquico, através da informação transmitida de forma clara e acessível. A imprensa tem papel fundamental nesse processo.

João Costa: Qual a recomendação que o senhor faz as pessoas que se encontram desoladas em meio a este momento tão crítico?

Jorge Jaber: Um cenário atípico como o da pandemia, de isolamento forçado, pode alterar profundamente o nosso comportamento. É recomendável, em primeiro lugar, manter a regularidade de algumas atividades, como o contato diário com os amigos. Bater papo. Uma boa conversa estimula a liberação de neurotransmissores, que combatem a depressão e a ansiedade.

João Costa: Quais são os sintomas mais comuns de ansiedade e como a pessoa pode identificá-los?

Jorge Jaber: Em doses normais, a ansiedade é benéfica, uma espécie de preparação para situações desafiadoras. Em excesso, se torna um problema e provoca alterações de comportamento. Os principais sintomas são semelhantes aos dos transtornos do pânico: alterações de sono e apetite, medos irracionais, tensão muscular, receio de falar em público, tremores, cansaço, náuseas e até arritmia cardíaca.

Médico Psiquiatra analisa o momento atual e faz importantes alertas sobre a saúde mental

João Costa: Como se deu a trajetória profissional do senhor?

Jorge Jaber: Meu interesse pela Medicina surgiu ainda na infância. Fui uma criança com alguns problemas graves de saúde, e recebi um atendimento muito bom, muito cuidadoso, por parte dos médicos e enfermeiros. Tudo pelo sistema público, gratuito. Isso me tocou profundamente. O foco na dependência química surgiu com a morte de um grande amigo, por overdose. Isso era relativamente comum, não havia tanto conhecimento sobre as drogas e seus riscos. Esse caso, e outros que acompanhei depois, me despertaram a vontade de ajudar essas pessoas e me levaram ao curso de Medicina da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), onde me graduei. Fiz especialização em Psiquiatria e, mais tarde, pós-graduação em Dependência Química na Universidade de Harvard.

Fundei a Clínica Jorge Jaber – o nome é uma homenagem a meu pai – há quase 40 anos, para tratamento e prevenção dos transtornos mentais e dependência química, que muitas vezes vêm associados. A Clínica também desenvolve trabalhos na área de educação, sendo parte da Escola Médica de Pós-Graduação em Psiquiatria da PUC-Rio, da qual sou professor. Temos também nosso próprio Centro de Estudos, promovendo cursos e desenvolvendo pesquisas nestas áreas.

João Costa: Há algum site ou contato com o qual as pessoas possam entrar em contato?

Jorge Jaber: Os CAPS – Centros de Atenção Psicossocial – oferecem auxílio gratuito a pessoas com sofrimento ou transtorno mental. Organizações como o Centro de Valorização da Vida também prestam um serviço valioso. Há muita informação disponível na internet, mas recomendo, mais uma vez, a busca por fontes confiáveis. Informações distorcidas ou mesmo mentirosas podem provocar ou agravar problemas de saúde.

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Imagem: CJJ

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João Costa

Jornalista (MTB 87452/SP), Articulista do Instituto Palavra Aberta, articulista do Observatório da Comunicação Institucional (O.C.I), Membro da API (Associação Paulista de Imprensa), Prêmio Ibero – Americano de Jornalismo de 2019/20, Prêmio Direitos Humanos por reportagem feita para o Instituto Dana Salomão e Menção honrosa do Lions Clube Rio do janeiro. Colunista, Blogueiro e Comunicador. Desenvolve há anos um trabalho com o propósito humanitário por meio do que cunha chamar de: "Filosofia da Evolução das Relações Humanas”. Redator responsável e Colunista do portal FaceTV Brasil; Colunista do portal da Bahia Jack Comunica, Colunista do portal Lithoral News - Santa Catarina, Colunista do jornal “Em Destaque”, do Estado do Rio de janeiro e Colunista do Diário de notícias Vila Nova em Braga - Portugal. Foi colunista da "Rede de Escritores de Língua Castelhana". Possui sólidos conhecimentos na edição de textos, é ativista pelos direitos humanos, pela proteção dos animais e no combate a desigualdade social. Participação ativa em workshops, webinários, congressos e conferências.

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