Herança de Luis Sepúlveda permanece um património a descobrir

Conjunto de ‘Histórias ‘Daqui e Dali’ revela escritor com escolhas do lado certo da vida

Conjunto de ‘Histórias ‘Daqui e Dali’ revela escritor com escolhas do lado certo da vida

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O segundo livro de Luis Sepúlveda que leio neste ano de 2021 é Histórias Daqui e Dali, obra de 2010. O primeiro foi Palavras em Tempos de Crise. Vou à minha biblioteca e conto quinze livros deste escritor chileno e, embora tenha já lido a maioria, ainda há alguns por descobrir. Histórias Daqui e Dali é, à semelhança de outros livros de Sepúlveda, um conjunto de pequenas histórias e memórias, onde põe todo o seu ser e em que a ternura, a tristeza e o apego aos valores primordiais são os traços que fazem dos seus livros aquilo que eles são: solidariedade com os oprimidos, amizade incondicional, ânsias de liberdade, escolhas do lado certo.

Na capa da edição da Porto Editora, o fiel moleskine (a lembrar o amigo Bruce Chatwin) e uma caneta, com que Sepúlveda anotava imagens, palavras soltas, às vezes uma frase, para mais tarde talvez se transformar num romance, num conto, no título de uma história. Como naquela noite inesquecível de tempestade, na região amazónica, onde conheceu um velho solitário e solidário que o visitou em sonhos e que muitos anos mais tarde deu origem ao romance O Velho que lia Romances de Amor. Uma frase anotada, uma fotografia em tons sépia, um contrato antigo, um papel guardado, uma notícia num jornal podem ser o material para que Luis Sepúlveda crie mais uma história simples mas nunca desprovida de sentido.

Algumas destas Histórias Daqui e Dali são histórias de regresso depois de catorze anos de exílio, de reencontro com o Chile já sem Pinochet, mas com as feridas da ditadura. A ditadura tinha acabado, mas o Chile era uma sombra triste do Chile solidário, participativo, militante, que Sepúlveda conhecera com Salvador Allende e que a ditadura matara. É um reencontro com o passado, com as memórias não só do Chile mas de tantos países da América Latina que foram lugares de exílio e de resistência dele e dos seus amigos.

Será que a pureza e a alegria dos risos do grupo de crianças do bairro pobre de La Victoria fotografado por uma amiga, ainda subsistirão passados oito anos? Alguém se lembra de fazer um pequeno desvio da autoestrada para ir a Talagante comprar os pastéis e tartes que tornaram famosa aquela povoação? Será possível parar o aquecimento global que está a fazer desabar enormes massas de gelo da Antárctica – tornada absurda atracção turística – as quais estão a pôr em risco a Patagónia e a Terra do Fogo? Mas Sepúlveda comove-se e acredita que nem tudo está perdido quando um rapazinho lhe bate à porta para pedir livros para construir uma biblioteca num bairro pobre de Santiago.

Como em todos os livros de Sepúlveda, a amizade e a referência aos amigos ocupa uma parte significativa deste. Eram a Sociedade do Conde de Monte Cristo, unidos pela consigna “Nem esquecimento, nem perdão”, uma geração de lutadores por causas nobres, que imaginava “o fim das ditaduras e um continente latino-americano habitado por homens e mulheres cujo gentílico seria a palavra irmãos.” Os companheiros do GAP, entre os quais Augusto Olivares, os companheiros da Brigada Internacional Símon Bolivar e a recordação de todos os caídos nessa entrega total, o poeta Mario Benedetti para quem era preciso defender a alegria como uma trincheira, Turquito o escritor que lhe arranjou um salvo-conduto em Quito e com quem esteve pela última vez na edição das Correntes d’Escritas, Katya Olevskaia a voz da resistência e da esperança sempre que a ouviam dizer “Escuta, Chile”, Victor Jara ou os irmãos Parra que se reuniam na Peña para cantar e ler poesia ou Daniel Mordzinski, um homem que conta histórias com a sua máquina fotográfica. A propósito deste fotógrafo recordei Últimas Notícias do Sul de Luis Sepúlveda com fotografias de Daniel Mordzinski lido há alguns anos e a que voltei agora para recordar a história de D. Delia Cossio que os dois amigos conhecerem quando lhe bateram à porta no dia do seu 96º aniversário e que Sepúlveda imortalizou no seu conto A Senhora dos Milagres. E como sempre, a gratidão pelo festival da Póvoa de Varzim onde teve a oportunidade de conhecer excelentes escritores de Moçambique, Cabo Verde e Angola, entre os quais Nelson Saúte.

Implacável com aqueles que considera desprezíveis, nutre um grande respeito pelos jornalistas, embora considere que a profissão está em decadência muito fruto da precariedade dos seus profissionais. Inevitavelmente, neste livro também os animais não foram esquecidos – cães livres, cães fura-vidas – Edward primeiro chamado de Kim, La Negra e Chiquita. Sepúlveda gostava de contar histórias aos seus cães Zarko e Laika, mas sabendo que eles gostavam de ouvir a história dos primeiros, duvida se alguma vez lhes contaria a história de Chiquita. A liberdade é um bem por demais precioso.

De cada vez que se lê um livro de Sepúlveda, fica-se com o sabor amargo das muitas histórias fantásticas que ele guardaria no seu moleskine, mas que a morte prematura não deixou que pudéssemos desfrutar.

Literatura | Memória dos livros… em jeito de balanço

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Pichagens em Braga? Não, obrigado

Obs: publicação original no blogue ‘Lendo e Escrevendo‘, tendo o artigo sofrido ligieras adequações na presente edição.

Imagens: DR

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Categorias: Crónica, Cultura, Literatura

About Author

Almerinda Bento

Natural de Abrantese residente em Amora, no Seixal. Professora aposentada, exercendo como professora de Inglês na UNISSEIXAL. Membro da Mesa da Assembleia Geral do SPGL, colabora regularmente no Escola Informação e no site do SPGL. Membro da Assembleia de Freguesia de Amora pelo Bloco de Esquerda.

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