Relatório ‘Os peixes esquecidos do mundo’ alerta para necessidade de definir novas metas e soluções para evitar mais uma catástrofe ambiental

Um terço dos peixes de água doce de todo o mundo encontram-se ameaçados

Um terço dos peixes de água doce de todo o mundo encontram-se ameaçados

Pub

 

 

Sob cada vez maior ameaça, uma em cada três espécies de peixes de água doce encontram-se ameaçadas de extinção, de acordo com o relatório ‘Os peixes esquecidos do mundo‘, publicado por um conjunto de associações conservacionistas globais, entre as quais a World Wildlife Fund for Nature. O relatório pretende fazer um balanço das espécies piscícolas de água doce em todo o mundo e alerta para o facto de esta enorme perda enorme de biodiversidade ser causada pela atividade humana.

Os incrivelmente diferenciados peixes de água doce do Planeta são essenciais para a saúde, segurança alimentar e sustento de centenas de milhões de pessoas, calculando-se que a pesca de água doce forneça diretamente alimentos para 200 milhões de pessoas e meios de subsistência para 60 milhões, assim apoiando as sociedades e respetiva economia, em especial na Ásia, África e América Latina.

Causas para um declínio precipitado

Contrariamente ao que muitos de nós possam pensar, pois estamos a ficar habituados a ver os rios como espaços onde a pesca para alimentação humana é extremamente reduzida e não-essencial à sobrevivência humana, ‘Os peixes esquecidos do mundo‘ detalha a extraordinária variedade de espécies de peixes de água doce, com as últimas descobertas a elevarem o total de registos para 18.075. Representam, por isso, um pouco mais de metade de todas as espécies de peixes do mundo – 51% – e um quarto de todas as espécies de vertebrados na Terra, uma riqueza de espécies essencial e determinante na saúde dos rios, lagos e pântanos do mundo.

Combinação devastadora de ameaças

O relatório destaca a combinação devastadora de ameaças que os ecossistemas de água doce enfrentam – e os peixes que vivem neles – incluindo a destruição do habitat, represas hidroelétricas em rios de fluxo livre, captação de água para irrigação e poluição doméstica, agrícola e industrial. Além disso, os peixes de água doce também correm o risco de sobrepesca e práticas de pesca destrutivas, a introdução de espécies não nativas invasivas e os impactos das mudanças climáticas,

O “declínio precipitado” dos peixes de água doce, sobretudo desde 1970, é atribuído à degradação dos habitats aquáticos por causa da betonização, da construção de diques e barragens, da poluição causada pela indústria e agricultura intensiva, bem como pelos microplásticos presentes nos cursos de água, de práticas de pesca excessiva e ilegal, da introdução de espécies exóticas, bem como a mineração de areia insustentável. Acrescentem-se ainda as alterações climáticas às causas do problema, bem como crimes diversos contra a vida selvagem.

Espécies de maior dimensão e migrantes entre as de maior risco

Segundo o estudo, entre os peixes mais ameaçados estão os de maior dimensão como os esturjões. Em cinquenta anos, a população desta espécie caiu mais de 90%. Também os peixes migratórios fazem parte dos que correm mais riscos por não poderem, por exemplo, aceder a zonas de reprodução: as populações mundiais destes caíram 76% desde os anos 1970.

De acordo com União Internacional para a Conservação da Natureza (UICF), muitos peixes correm assim o risco de juntar às 80 espécies de peixes de água doces extintas desde aquela altura. Só no ano passado, com base na “lista vermelha” organizada por aquela instituição, extinguiram-se quinze espécies de peixes que existiam no lago Lanao, nas Filipinas, e o peixe-espada chinês, como informa o Libération.

Proteção ambiental indispensável

O relatório apela ainda à implementação urgente de medidas de proteção ambiental. É preciso restaurar condições ambientais nos habitats, deixar os rios correr naturalmente, reduzir as fontes de poluição, regular espécies invasoras e controlar atividades de pesca abusiva. Delas depende a vida de metade das espécies de peixe atualmente identificadas.

Comunidades locais e povos indígenas pouco escutados

“Em nenhum lugar a crise da natureza do mundo é mais aguda do que nos rios, lagos e pântanos, e o indicador mais claro do prejuízo que estamos a causar é o rápido declínio das populações de peixes de água doce”, afirma Stuart Orr, diretor global do Departamento de Água Doce da WWF. “Apesar da sua relevância para as comunidades locais e povos indígenas em todo o mundo, os peixes de água doce são invariavelmente esquecidos e não são levados em consideração nas decisões de desenvolvimento relativas a barragens hidroelétricas ou ao uso da água ou à construção em várzeas. Os peixes de água doce são importantes para a saúde das pessoas e para os ecossistemas de água doce dos quais dependem todas as pessoas e toda a vida na terra. É hora de nos lembrarmos disso”.

Receitas comerciais assombrosas

Os stocks saudáveis ​​de peixes de água doce também sustentam duas grandes indústrias globais: a pesca recreativa, que mais de US $100 milhares de milhões anualmente, enquanto os peixes de aquário são os animais de estimação mais populares do mundo e geram um comércio global de até US $30 milhares de milhões.

Apesar disso, os peixes de água doce continuam a ser desvalorizados e esquecidos, pelo que milhares de espécies podem estar a caminho da extinção. A biodiversidade de água doce está a diminuir duas vezes mais do que a dos oceanos e florestas.

Alguns exemplos tristes

A lista de ameças é longa. Citem-se algumas:

  • A pesca de hilsa no Ganges, a montante de Farakka, na Índia, caiu de um rendimento de 19 toneladas para apenas 1 tonelada por ano após a construção da barragem Farakka na década de 1970;
  • A caça furtiva para caviar ilegal é uma das principais razões pelas quais os esturjões são uma das famílias de animais mais ameaçadas do mundo, enquanto as enguias europeias criticamente ameaçadas são o animal mais traficado; e
  • Cotas de pesca excessivamente altas no rio Amur, na Rússia, contribuíram para uma queda catastrófica na maior corrida de salmão do país, sem que se encontrasse salmão em áreas de desova no verão de 2019.

Esperança em novas soluções

Mas também existem soluções – e 2021 oferece uma esperança real de que o mundo pode virar a maré e começar a reverter décadas de declínio nas populações de peixes de água doce. O mundo deverá aproveitar a oportunidade para garantir um acordo de biodiversidade global ambicioso e implementável na próxima conferência da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CDB) em Kunming, China – que deve, pela primeira vez, prestar a mesma atenção para proteger e restaurar nosso sistemas de suporte de vida em água doce como as florestas e oceanos do mundo.

“A boa notícia é que sabemos o que precisa ser feito para proteger os peixes de água doce. Garantir um Novo Acordo para os ecossistemas de água doce do mundo trará vida de volta aos nossos rios, lagos e pântanos que estão morrendo. Também trará espécies de peixes de água doce de volta do limite – garantindo alimentos e empregos para centenas de milhões de pessoas, salvaguardando ícones culturais, aumentando a biodiversidade e melhorando a saúde dos ecossistemas de água doce que sustentam nosso bem-estar e prosperidade”, afirma Stuart Orr.

Adotar novas metas e soluções

Especificamente, este Novo Acordo para a Natureza e as Pessoas deve-se basear na transição de água doce delineada no 5º Panorama da Biodiversidade Global da CBD, que ecoa os 6 pilares do Plano de Recuperação de Emergência liderado pelo WWF para a biodiversidade de água doce – um plano abrangente que pode fornecer soluções na escala necessária para reverter o colapso nas populações de peixes de água doce.

“O que precisamos agora é reconhecer o valor dos peixes e da pesca de água doce, e que os governos se comprometam com a implementação de novas metas e soluções, bem como priorizar quais os ecossistemas de água doce que precisam de proteção e restauração. Também precisamos ver parcerias e inovação por meio de ações coletivas envolvendo governos, empresas, investidores, sociedade civil e comunidades ”, conclui Stuart Orr.

Imagens: (0) Jeremy Shelton, (1) Herman Wanningen, (2) Lubomir Hlasek, (3) Karine Aigner

**

*

VILA NOVA, o seu diário digital

Se chegou até aqui é porque provavelmente aprecia o trabalho que estamos a desenvolver.

Vila Nova é cidadania e serviço público.

Diário digital generalista de âmbito regional, a Vila Nova é gratuita para os leitores e sempre será.

No entanto, a Vila Nova tem custos, entre os quais a manutenção e renovação de equipamento, despesas de representação, transportes e telecomunicações, alojamento de páginas na rede, taxas específicas da atividade.

Para lá disso, a Vila Nova pretende produzir e distribuir cada vez mais e melhor informação, com independência e com a diversidade de opiniões própria de uma sociedade aberta.

Como contribuir e apoiar a VILA NOVA?

Se considera válido o trabalho realizado, não deixe de efetuar o seu simbólico contributo sob a forma de donativo através de netbanking ou multibanco (preferencial) ou mbway.

NiB: 0065 0922 00017890002 91

IBAN: PT 50 0065 0922 00017890002 91

BIC/SWIFT: BESZ PT PL

MBWay: 919983484

Obs: envie-nos os deus dados e na volta do correio receberá o respetivo recibo para efeitos fiscais ou outros.

Gratos pela sua colaboração.

*

Pub

Categorias: Ambiente, Biodiversidade

About Author

Write a Comment

Only registered users can comment.