Luís Filipe Sarmento

Fé | Dormir para nos alhearmos do mundo

Fé | Dormir para nos alhearmos do mundo

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Dormirmos para nos alhearmos do mundo.

Dormimos para não esquecermos o nosso instinto de defesa. Durante o sono somos ninguém rodeado de fantasmas que nos são distantes no parentesco, fantasmas que alimentam o nosso anonimato, efémeros e dispensáveis.

Deixamos de existir para que outros que nunca existiram tenham uma breve existência nessa dimensão insubstancial de precariedades. Não são do nosso sangue. Nem sequer têm sangue. São apenas sugestão de uma densidade corpórea. Intensa. Depois do sono, já não podem perseguir-nos. Fica a memória das suas sombras de uma inquietante simplicidade sem rosto.

Pensei como seriam na substância da sua comunidade. É difícil sabê-lo porque são muito mais do que os mortos. Mais do que o mundo. Insustentáveis num planeta físico. Só a imaginação é maior do que o universo e é nela que se aglomeram sem lugar a ser presença. São como se fossem múltiplos intermináveis de zero, sem nenhuma engrenagem administrativa. Nem sequer habitam o rumor. Passam ligeiramente pela literatura. E ainda assim não se dão a diálogos impossíveis, são pequenas vagas entre vírgulas, estão como se nunca estivessem. A sua insustentabilidade, no entanto, ocupa levemente um espaço minúsculo em qualquer diagnóstico. Numa segunda leitura já lá não estão. Nem a sua sombra atrasada na distracção.

As suas histórias não deixam mistérios estimulantes. A sua história nem sequer se regista na sua breve passagem pela inquietação. Não têm escala nem origem geográfica. Manifestam-se num único plano possível: o instante. Sem instante seguinte. Mas poluem como fumo denso. E dissipam-se na sua imponderabilidade. Se deixam marcas, ainda que provisórias, conflituam-se no pesadelo. A necessidade premente de oxigénio vence quase sempre o sufoco esmagador do medo incontrolável no momento em que o corpo desperta, soerguendo-se perante o incompreensível.

Dão-se a hipérboles como arma viral. Em si são um exagero que se desvanece rapidamente na consciência real do presente. Não morrem, dissipam-se. Não persistem, regressam. Mas sem passado. E no regresso são de outra estirpe. Sem consciência do passado desconhecem o património na sua transmutação. A sua inteligência é a do instante. Só o susto alheio lhes dá a momentaneidade de uma ideia existente. O que não é real. Ainda que seja uma realidade.

A realidade fantasmal inoculada durante milénios, como um vírus, pela impregnação espiritual do fenómeno religioso na débil estrutura de quem se deixou tomar pelo medo do que misteriosamente não existe nem nunca existiu. Fantasmas e medos deram coesão a uma matéria emocional que Hollywood jamais desperdiçaria ao serviço do Império do Mal.

Ab absurdo. Ab origine. Abyssus abyssum invocat.

 

Obs: pré-publicação do capítulo 15. do livro ‘Rouge’.

Imagem: Isabel Nolasco

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Categorias: Crónica, Cultura, Sociedade

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