Jesus e a espiritualidade drusa

Jesus e a espiritualidade drusa

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Em 2017, o canal televisivo History Channel promoveu uma ampla investigação multidisciplinar sobre o ADN de Jesus. Poderá este estar de algum modo relacionado com a nação drusa ou será esta apenas uma questão de fé?

No âmbito da investigação, foi feita uma descoberta surpreendente. Foi feita a comparação do ADN mitocondrial de sangue do Santo Sudário, o tecido de linho que terá coberto o corpo de Jesus após a sua crucificação, com os tipos mitocondriais existentes no mundo. A investigação mostrou que um dos tipos do ADN mitocondrial do corpo humano envolvido pelo referido tecido tem uma ligação com a população drusa.

De acordo com o Novo Testamento e as demais fontes que atestam a historicidade de Jesus, está comprovado que Jesus era judeu. Então, como pode ser explicada essa ligação de Jesus com os drusos?

A ligação entre Jesus e os drusos pode explicar-se pelo facto de alguns dos descendentes da família de Jesus terem aderido à fé drusa.

A descendência familiar de Jesus

Jesus tinha uma família numerosa, tendo tido quatro irmãos e duas irmãs, dos quais resultou uma descendência abundante.

Os parentes de Jesus desempenharam papéis relevantes no cristianismo primitivo, nomeadamente nas comunidades judeo-cristãs, isto é, nas comunidades cristãs que valorizavam a ligação com a herança espiritual judaica, na sua dimensão mais mística e esotérica, o que levou a uma proximidade crescente com a gnose.

Esta descendência da família de Jesus, também denominada de Desposyni (uma palavra grega que significa “do ou pertencendo ao Mestre ou Senhor”) é mencionada por escritores cristãos dos séculos III e IV, nomeadamente Júlio Africano e Eusébio de Cesareia, que referem que eles viviam na Galileia.

Existem inclusive testemunhos de contactos entre os descendentes da família de Jesus e o papa Silvestre, pouco tempo depois do reconhecimento da liberdade religiosa dos cristãos por parte do Império Romano, no inicio do século IV. Infelizmente, o resultado dos contactos não foi frutífero, dado que a Igreja institucional estava cada vez mais alinhada com o poder imperial.

A comunidade étnico-religiosa drusa

É importante ter em conta que os drusos em Israel vivem sobretudo na parte norte do país, nomeadamente na Galileia.

Além disso, é importante ter em consideração que a fé drusa assenta na unidade de Deus, ressoando claramente as palavras de Jesus: “O primeiro é: Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças” (Mateus 12, 29-31).

Os drusos, como comunidade étnico-religiosa autónoma, surgiram no século XI. A espiritualidade drusa tem um elevado grau de secretismo, em grande parte devido às diversas perseguições ocorridas ao longo dos séculos.

Os drusos são um grupo étnico-religioso esotérico de língua árabe, que se identifica a si mesmo como Al-Muwaḥḥidūn (“O Povo do Monoteísmo”).

Quando a fé drusa começou a ser publicamente proclamada, no século XI, declarou-se a si própria como a Fé da Unidade, tendo como objetivo explicito unir cristãos, muçulmanos e outros seguidores do monoteísmo em nome da Unidade Divina.

Racionalidade e verdade

Isto ressoa as palavras proféticas de Jesus: “Mas chega a hora – e é já – em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. Deus é espírito; por isso, os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade”(João, 4, 23-24); “que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste” (João, 17, 21).

A fé drusa engloba elementos do islão, nomeadamente do ismaelismo e do sufismo, do cristianismo, do judaísmo, do hinduísmo, do budismo, e da filosofia grega, sobretudo do neoplatonismo e do pitagorismo, e de outras filosofias e crenças.

O centro da espiritualidade drusa baseia-se na compreensão esotérica da relação do ser humano com o Divino, que enfatiza o papel da racionalidade e da busca da veracidade.

A fé drusa tem uma visão neoplatónica da interação de Deus com o universo manifesto através de emanações, à semelhança de diversas correntes gnósticas e esotéricas.

Princípios cósmicos  da espiritualidade drusa e seus mensageiros

Os drusos também acreditam em cinco princípios cósmicos, representados pelas cinco estrelas drusas coloridas: inteligência/razão (verde), alma (vermelha), palavra (amarela), precedência (azul) e imanência (branca).

Eles acreditam que estes princípios cósmicos tem sido revelados à humanidade por mensageiros, que têm transmitidos ensinamentos sobre o caminho autêntico rumo a Deus.

Com toda a sua fé, o povo druso acredita em mensageiros como Adão (Adam), Noé (Nūħ), Abraão (Ibrāhīm), Jacob (Yaˤqub), Moisés (Mūsā), Jetro (Nabi Shuʿayb), João Batista (Yahya), Jesus (Isā) e Maomé (Muhammad). Eles também acreditam na sabedoria dos filósofos gregos clássicos, como, Pitágoras, Sócrates e Platão, e outros seres sábios, como o faraó egípcio Akhenaton. Além disso, eles reverenciam um conjunto de homens sábios que fundaram a religião no século XI.

No final do ciclo de nascimento e renascimento, os drusos acreditam ainda que, constituída por diversas reencarnações, a alma humana une-se com a Mente Divina Cósmica.

Influência noutros grupos religiosos

Os drusos influenciaram os cruzados que os encontraram no Médio Oriente, absorvendo os seus ideias gnósticas, que posteriormente foram trazidas para a Europa, influenciando movimentos como o catarismo.

O catarismo, presente sobretudo no sul de França e no norte de Itália, foi um movimento cristão de inspiração gnóstica, que enfatizava uma compreensão do Divino baseada na gnose.

Não é também de excluir a influência dos drusos sobre os templários, que preconizavam uma visão mais mística do cristianismo. É sabido que os templários mantiveram contactos estreitos com comunidades que tinham uma visão mística da espiritualidade, como os judeus cabalistas e os muçulmanos sufis.

Por conseguinte, os drusos, como portadores de uma espiritualidade de inspiração gnóstica, acabaram por ter uma influência relevante no percurso espiritual da humanidade, que merece ser objeto de uma investigação mais aprofundada.

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Imagens: DR (autores desconhecidos)


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Acerca do Autor

Daniel Faria

Nasceu em 1975, em Vila Nova de Famalicão. Licenciado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e pós-graduado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida pela mesma Instituição. É diplomado pelo Curso Teológico-Pastoral da Universidade Católica Portuguesa. Em 1998 e 1999, trabalhou no Centro Regional da Segurança Social do Norte. Desde 2000, é Técnico Superior no Município de Vila Nova de Famalicão. Valoriza as ciências sociais e humanas e a espiritualidade como meios de aprofundar o (auto)conhecimento, em sintonia com a Natureza e o Universo. Dedica-se a causas de voluntariado. É autor do blogue pracadasideias.blogspot.com e da página Espiritualidade e Liberdade.

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