Margarida Vale

Cineclube | ‘Feios, porcos e maus’. Em Roma como em Lisboa

Cineclube | ‘Feios, porcos e maus’. Em Roma como em Lisboa

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Num bairro de lata, numa zona altaneira de Roma vive a família de Giacinto. Podia ser em Lisboa já que as duas cidades têm o mesmo número de colinas e à época a situação social não era tão diferente como se possa pensar. Cerca duma vintena de pessoas entre filhos, filhas, noras, genros e netos para além da repugnante mulher e da mãe inválida e senil, há um espaço para todos, mesmo que seja demasiado apertado.

A barraca é miserável, coberta de miséria física e psicológica mas onde todos têm sonhos de grandeza. À sua volta mora o lixo e a falta de valores bem como a podridão humana. É um ver se te avias para sobreviver diariamente. Na parte nobre da cidade estão os arranha céus onde a filha mais nova faz limpezas.

É esta a primeira a levantar-se e a tratar da água. Antes disso brinca pois ainda é uma menina. Toma conta de outros, mais novos, numa espécie de infantário feito de restos de colchões e de sabe-se lá mais o quê.

A pensão da avó é o sustento certo e seguro de todos e de que se apropriam mês após mês. É um desfilar de parentes para a ir levantar aos correios e depois é de ir à lágrimas com a sua distribuição. É o motor de tantos arranques que se perdem pela vida. A avó é apenas um peão neste jogo da vida.

Giacinto dorme de arma na mão para proteger o seu tesouro, um milhão de liras que recebeu de indemnização por ter perdido um olho, e que muda constantemente de lugar, certo da cobiça da sua família. Para eles os filhos são uns inúteis e só o querem espoliar do seu mais bem precioso.

Este filme é uma parábola sobre a vida e os seus meandros perigosos e certos. Mesmo reles e sem escrúpulos, há quem trabalhe nos mais variados empregos. Também há um que é ladrão, outro um mero “limpa casas”, um pedinte e outro que se faz passar por homossexual.

Entretanto fica-se com uma resenha da vida naquele bairro onde todos os tipos de delinquentes, pequenos ladrões, aldrabões, arruaceiros e prostitutas, o povoam com a graça das famílias que os protegem e promovem. São verdadeiros modelos para os mais novos. Mesmo com detenções a acontecerem.

O dia a dia desta amoral, feroz e incontrolável família entra em aceso conflito quando, um dia, Giacinto leva para a barraca uma divertida e gorda prostituta que não se nega a ninguém. Sente que se apaixonou profundamente. A família, com receio que ela lhe gaste todo o dinheiro tenta envenená-lo durante o batizado de um neto. Este sobrevive ao raticida e decide vingar-se.

Pega fogo à barraca e vende o terreno a uma outra família. Esta reclamam o direito à propriedade e instaura-se uma “guerra civil” que terá frutos ainda mas desastrosos. No fim acabam todos, os novos locatários e a família de Giacinto, por partilhar a velha e decrépita barraca.

O filme termina com a filha mais nova a retomar a sua tarefa diária, de recolha de água. Agora já há uma outra menina que a acompanha na função. Antes de ir à fonte volta à brincadeira do costume mas com uma variante: está grávida.

Feios, porcos e maus‘, de Ettore Scola, trata-de, por isso, de um filme repleto de ironia e de visões cómicas mas mostra também um lado muito negro da sociedade onde a desgraça e um enorme miserabilismo reinam. Não há modo de se sair daquele círculo imperfeito que continua a rodar. O vício, esse, nunca morre. Nem em Lisboa, nem em Roma.

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Categorias: Crónica, Cultura

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Margarida Vale

Deram-me o nome de Margarida e, sem terem essa intenção, fiquei ligada à terra e aos seus modos. Margarida do Vale. Mistura de culturas que se sabem entrosar, entre o sul e as ilhas, assim cresci entre gente culta e estudiosa e pessoas simples que sabiam o valor da labuta diária. Sou uma amálgama de tudo e de vontades, por isso, a mente que me foi dada é irrequieta. Já tive várias profissões e agora estacionei no ensino. Que existe de melhor do que estar com gente jovem, com pequenos diamantes que precisam de ser lapidados e polidos? Os desafios são enormes mas a recompensa é bem maior. O crescimento é recíproco e salutar. A História é uma paixão, assim como a escrita, que esteve parada durante uns anos e cuja gaveta foi reaberta sem data para encerrar. O passado coletivo é a nossa herança e não pode ficar esquecido. para tal existem as letras que lhe tentam fazer justiça e testemunho. Afinal de que somos feitos? De sonhos e de quereres e ainda de várias vidas que se vão vivendo conforme os obstáculos vão surgindo e necessitam de ser ultrapassados. Viver é uma arte que se renova e que encanta. Talvez seja por isso que o Tejo me acompanha e vivo bem perto dele e do local onde os barcos foram feitos para zarparem e descobrirem novos mundos.

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