João Palhares

Lucky Star | ‘Mon Oncle’ (1958) de Jacques Tati

Lucky Star | ‘Mon Oncle’ (1958) de Jacques Tati

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O Lucky Star – Cineclube de Braga regressa à obra do grande mestre do cinema e da comédia Jacques Tati, mostrando, pela altura do Natal, o muito humano e belíssimo Mon Oncle / O Meu Tio, na próxima sessão deste cineclube no auditório do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, esta quinta-feira, 10 de dezembro, pelas 19h00. Anteriormente, durante um pequeno ciclo de cinema francês, o Lucky Star apresentara já As Férias do Sr. Hulot e Parade, em 2018.

 

Em entrevista a André Bazin e François Truffaut dos Cahiers du Cinéma, em 1958, e explicando as intenções e o mecanismo de um dos seus gags, o cineasta francês começa por explicar que “o sobrinho, o filho dos Arpel, entende-se muito bem com o tio. Antes da recepção, e sem o fazer de propósito, ele parte o pequeno galho. Quando o tio chega, ele vai procurá-lo e pede-lhe que o repare. O tio corta, é a única coisa a fazer: ao cortar, apercebe-se que ainda se nota mais. Começa então a cortar o galho simétrico, e a pouco e pouco, isso vai levá-lo a reduzir tudo. Mas a Sra. Arpel passa mesmo nesse momento – não convém esquecer que estamos numa recepção – e o tipo não consegue continuar a fazer o seu número. Antigamente, não sei se concordam comigo, só havia espectadores que viam o que se passava no ecrã, mas os actores que acompanhavam os cómicos nunca se davam conta que eles estavam a fazer um gag. Eu faço sempre o contrário: os actores estão ao mesmo nível que os espectadores para ver que um senhor se esqueceu de fechar uma porta. Em Laurel e Hardy, via-se pessoas a manejar tartes, caçarolas, e as outras tinham ar de circular à volta delas, sem se dar absolutamente conta que um senhor estava a caminhar com uma caçarola na cabeça. Portanto a passagem da Sra. Arpel interrompe a história da poda do arbusto. Terminada a recepção – já não há ninguém, o jardim está vazio, os Arpel vão-se deitar – é altura de ir acabar o trabalho. É a pequena sequência nocturna. Suspense, se assim se quiser, na pereira. Suspeita-se – suponho eu, pelo menos – que Hulot está a terminar o trabalho começado. E depois não se fala mais. Já não há razões para que se fale. De resto, e normalmente, se a Sra. Arpel não sair por ali no dia seguinte, não o vê. Quando as crianças partem qualquer coisa no jardim da mãe, não é cinco minutos depois que as pessoas se apercebem. Pode-se muito bem encontrar isso no outro Domingo. É só dois dias depois que o Sr. Arpel, ao entrar, descobre com os faróis o trabalho – que é bastante catastrófico, diga-se. Talvez esteja muito mal construído para um filme, mas normalmente, acho que isto se passaria desta forma.”

Na entrada dedicada ao cineasta francês no projecto megalómano em dois volumes de Richard Roud, Cinema – A Critical Dictionnary (1980), Jean-André Fieschi escreveu que “a estranha carreira de Jacques Tati (nascido em 1908)—cinco filmes em quase vinte e cinco anos—é original em dois contextos: no interior do cinema francês, em que apenas Vigo e Bresson podem ser comparados a ele, e no interior do cinema ‘cómico’ em que os seus únicos antecedentes, os palhaços brancos e lunáticos (Keaton, Langdon, Laurel), servem apenas para revelar o quanto ele difere deles, e quão marginal e excêntrica é a posição de Tati.

“Na verdade, o lugar de Tati é entre os ‘construtores’, entre aqueles que acima de tudo se preocupavam com o jogo estrutural, cujo interesse na estrutura comanda de forma imperativa cada elemento figurativo e os reúne em construções perfeitas; em que a estrutura aparente, e mesmo claramente indicada, não é o esqueleto de um discurso formal, mas antes o próprio discurso: semelhante a Fritz Lang no primeiro Mabuse ou em Os Espiões, Bresson em Pickpocket e O Processo de Joana d’Arc, Antonioni em Cronaca di un amore; hoje em dia a Jean-Marie Straub e Miklos Jancso, certamente.

“Referindo-se a outras estéticas e ideologias prudentes e irreconciliáveis, uma enumeração destas apenas indica que Tati pertence a uma família de cineastas sistemáticas, em que cada trabalho é a soma de uma série de compromissos fortemente marcados, seja em oposição, atrás, ou à frente do cinema dominante dos seus contemporâneos.”

Aquando doutra das reposições do filme, em 2007, Mário Jorge Torres escreveu para o Público que “O Meu Tio prolonga a figura do senhor Hulot, acentuando a sátira da sociedade contemporânea com uma leitura profunda não apenas da relação do cineasta com os “gags” visuais – que articula com o seu militante individualismo, transformando a herança de Buster Keaton (The Electric House é uma das matrizes incontornáveis) em algo de pessoal e intransmissível -, mas também a abrir para uma experimentação sobre a cor e sobre uma modernidade patente nos cenários, na arquitectura de interiores e na intromissão de uma banda sonora minimalista e essencial.

“Uma obra-prima absoluta a rever e a revalorizar sempre, universal e localizada no tempo de uma ruptura com os mecanismos de representação.”

Inclusão | Igualdade na diferença

 

Obs: artigo previamente publicado em Lucky Star – Cineclube de Braga, tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.

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Categorias: Crónica, Cultura

About Author

João Palhares

Natural do Porto, João Palhares editou os dois únicos números da revista portuguesa Cinergia, colaborando ainda com revistas estrangeiras como a italiana “La Furia Umana” ou a “Foco – Revista de Cinema”, do Brasil. Em 2015, fundou o Lucky Star com José Oliveira, cineclube em que também programa e para o qual escreve folhas de sala, colaborando ainda com traduções. Foi colaborador do site “À Pala de Walsh” entre 2012 e 2015.

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