Daniel Faria

Espiritualidade | O legado da Gnose

Espiritualidade | O legado da Gnose

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Gnose e gnosticismo


 

 

1945. O mundo tinha acabado de viver, nas nas primeiras décadas do século XX, uma agitação sem precedentes: duas guerras mundiais, o genocídio arménio, o holocausto judeu, os terrores das ditaduras de diversas ideologias, a utilização da energia atómica recém-descoberta para fins bélicos. A humanidade estava numa situação de enorme fragilidade.

No meio de sombras tão densas, surgiu um foco de luz e de esperança. Em dezembro desse ano, dois irmãos camponeses árabes fizeram uma descoberta histórica surpreendente, no Alto Egito, perto da povoação de Nag Hammadi. Eles procuravam debaixo da terra fertilizantes para as suas terras. Em vez de fertilizantes, encontraram uma grande jarra com quase um metro de altura, que continha treze livros de papiro encadernados em couro dos primeiros séculos da nossa era. São os manuscritos de Nag Hammadi, que vieram trazer uma nova luz sobre a gnose e o gnosticismo.

Tratou-se de uma descoberta com profundas repercussões na trajetória espiritual da humanidade ao longo do século XX e das duas primeiras décadas do nosso século.

 

O dom profético de Helena Blavatsky

Ainda no século XIX, Helena Blavatsky, a fundadora da Sociedade Teosófica e uma seguidora profundamente convicta da gnose, apresentou ideias reveladoras como:

– O sistema ritual e simbólico do cristianismo tinha sido inspirado pelos mistérios de civilizações mais antigas;

– O cristianismo primitivo oferecia uma variedade de versões doutrinárias, algumas das quais eram perfeitamente coerentes com os ensinamentos do hinduísmo e do budismo;

– Muitos dos documentos originais foram destruídos ou alterados;

– Profetizou o reaparecimento de documentos genuínos e importantes, que foi comprovada com as descobertas dos manuscritos de Nag Hammadi, em 1945, e do Mar Morto, em 1947.

– As religiões são manifestações históricas, cujo desenvolvimento deve ser contextualizado no tempo e no espaço;

–  O fundamento esotérico das diversas religiões é universal. Com efeito, a teosofia pode ser definida como o conjunto vasto dos ensinamentos sobre a origem, a natureza e o sentido da existência da humanidade e do universo. Está na base das diversas correntes religiosas e espiritualistas da humanidade. O termo Teosofia provém do termo grego theosophia, que é composto por duas palavras: theos (“divino”) e sophia (“sabedoria”), pode ser traduzida como “sabedoria divina”.

 

As ideias fundamentais da Gnose

Uma definição sucinta e autêntica da gnose é que aquele que se conhece é o conhecido. Com efeito, a verdadeira definição do termo “gnose” é a experiência mística do Divino diretamente em si mesmo. Consiste na realização da nossa verdadeira natureza, que possa ser descrita como uma experiência direta e transformadora não condicionada pelas crenças religiosas, intelectuais ou outras. O gnosticismo consiste nos diversos sistemas operativos da gnose.

Existe uma grande diversidade de correntes ou escolas gnósticas, mas existem aspetos comuns da maior relevância que caraterizam aquilo que chamamos de gnosticismo:

– Acima de tudo, há uma Divindade absoluta, transcendental, eterna, infinita, ilimitada e inefável, da qual emana a pluralidade de tudo o que existe;

O universo manifestado é o resultado de seres espirituais emanados da Divindade absoluta e transcendental, alguns dos quais trabalham pela manutenção da separatividade da humanidade em relação à unidade divina;

– O ser humano é uma centelha divina emanada da Divindade, que se manifesta na matéria, sendo que a centelha divina está adormecida nas dimensões física e mental, vive na ignorância da sua essência e aspira à sua libertação;

– Da Unidade Divina, emana um plano de salvação das centelhas divinas, que chega à humanidade através da gnose salvadora;

– Alcançar a gnose, ou o conhecimento, é conhecer a Divindade e será o mesmo que conhecer-se; é abraçar a sua totalidade e ao mesmo tempo estar em Deus; regressar à nossa verdadeira essência divina;

– A salvação libertadora de nossa condição humana dá-se através desse conhecimento, desse regresso à nossa verdadeira essência divina;

– Entre os instrumentos da Unidade Divina, estão os mensageiros da Luz enviados com o propósito de promover o avanço da gnose junto da humanidade, que são os grandes mestres da sabedoria e da compaixão;

– Para os gnósticos cristãos, o maior mensageiro da Luz foi Jesus, o Cristo, que foi mestre (ensinou o caminho da gnose) e hierofante (comunicou os mistérios e foi mediador entre o Divino e a humanidade).

Na origem histórica das religiões, inclusive das mais importantes, existe uma fortíssima experiência gnóstica, vivenciada na sua profunda radicalidade pelos mestres inspiradores e pelos seus seguidores espiritualmente mais comprometidos.

O hinduísmo tem a sua génese nos rishis, os mestres espirituais que viviam nas montanhas e nas florestas do subcontinente indiano. O budismo parte da iluminação de Sidhartha Gautama, o Buda histórico. O judaísmo radica na revelação divina a Abraão e aos outros patriarcas, a Moisés e aos demais profetas de Israel. Com raízes no judaísmo, o cristianismo surge do encontro de Jesus com Deus, uma experiência espiritual singular, na medida que implica uma relação direta com o Divino, sem mediações institucionais, relação que foi valorizada pela mística cristã. O surgimento do islão radica na revelação divina a Maomé, que serviu de inspiração à mística islâmica, na qual merece destaque o sufismo.

A gnose tem um potencial especialmente poderoso na convergência das diversas tradições e experiências espirituais da humanidade.

Com efeito, a gnose define-se pela relação direta com o Divino se pode manifestar em cada um de nós. Por conseguinte, a gnose é fonte de amor incondicional, paz, compaixão, altruísmo e desapego.

Neste artigo, falaremos sobretudo do cristianismo gnóstico dos primeiros séculos da nossa era e do seu legado fundamental para a percurso espiritual da humanidade.

 

O cristianismo gnóstico

Jesus foi o inspirador de uma comunidade espiritual de homens e de mulheres que se congregavam para viver a experiência do Espírito de Deus e do seu Reino.

O movimento de Jesus, no qual se baseou o cristianismo primitivo, era um movimento que radicava nos ensinamentos do mestre e na tradição judaica, embora existissem influências das filosofias estoica e cínica e da mitosofia mistérica helenística.

As comunidades cristãs primitivas tinham uma orientação apocalítica e uma organização de tipo carismático e democrático. Por um lado, esperavam a vinda iminente do Reino de Deus no mundo. Por outro lado, eram comunidades baseadas na diversidade dos carismas e de ministérios e na igualdade entre os seus membros, incluindo entre homens e mulheres, que desempenhavam importantes responsabilidades de liderança.

Nos primeiros três séculos da nossa era, o cristianismo teve um crescimento significativo, nomeadamente, mas não exclusivamente, no mundo mediterrânico, então dominado pelo Império Romano.

Com efeito, o cristianismo primitivo também se expandiu para Oriente, aproveitando o conjunto de vias terrestres e marítimas englobadas sob a denominação “Rota da Seda”. Formaram-se comunidades na Mesopotâmia, na Arménia, na Pérsia e na Índia. Fora do Império Romano, mereceu também destaque a disseminação das ideias cristãs em países como a Núbia ou a Etiópia. 

Ao longo da História, tem havido uma enorme diversidade de interpretações da mensagem salvífica de Jesus. Daí a pluralidade interna do cristianismo no decurso do seu percurso histórico. O cristianismo primitivo era plural, existindo uma diversidade de conceções sobre a mensagem de Jesus, embora partilhassem em comum a ideia do Reino de Deus e a reverência pela figura de Jesus.

Segundo António Piñero, um grande investigador do cristianismo primitivo, esta diversidade de opiniões pode sintetizar-se a três correntes principais.

A primeira era estava composta fundamentalmente de judeus, os sucessores dos que haviam seguido mais de perto Jesus em vida. Enfatizavam a natureza humana de Jesus, como filho carnal de Maria e José, e viam nele como o Messias, o enviado de Deus, junto do povo de Israel e da humanidade em geral.

A segunda corrente era formada sobretudo por antigos pagãos convertidos à fé cristã seguindo as orientações de Paulo de Tarso, mais conhecido como São Paulo. A sua crença distintiva fundamental consistia em que Jesus tinha aceite a sua própria morte, decidida por Deus, como um sacrifício necessário para eliminar os pecados contra Deus, não somente do povo judeu, mas da humanidade no seu todo. Tendiam a valorizar a divindade de Jesus em detrimento da sua humanidade. Esta corrente era a mais forte e a melhor organizada.

Mas havia um terceiro grupo, no qual participavam judeus e pagãos. Os seus membros sustentavam tinham um conhecimento secreto, ou seja, a gnose, graças à qual conseguiriam uma salvação plena e absoluta.

António Piñero refere-se às três grandes correntes ou ramificações do cristianismo primitivo: os judeo-cristãos, os cristãos proto-ortodoxos e os cristãos gnósticos. A designação proto-ortodoxo, a usada por diversos autores é utilizada pelo facto da ortodoxia ter sido definida como tal somente nos concílios dos século IV e V, quando as demais correntes foram consideradas como heterodoxas ou heréticas.

Na perspetiva de Elaine Pagels, uma das principais investigadoras dos manuscritos do cristianismo gnóstico, podemos mencionar as principais caraterísticas distintivas entre os cristãos proto-ortodoxos e os cristãos gnósticos.

Em primeiro lugar, os cristãos proto-ortodoxos enfatizam a existência de uma separação entre Deus e a Humanidade. Deus é considerado como totalmente outro e transcendente. Por seu turno, os gnósticos consideram que o autoconhecimento é o conhecimento de Deus.

Em segundo lugar, o Jesus dos manuscritos gnósticos fala sobretudo de ilusão e iluminação, e não de pecado e expiação, referidos no Novo Testamento.

Em terceiro lugar, os proto-ortodoxos acreditam em Jesus como o Filho de Deus de forma impar e exclusiva, separado do resto da humanidade que veio salvar. Os gnósticos consideram Jesus como como um guia ou mestre espiritual que abre acesso ao conhecimento espiritual. Quando o discípulo alcança a iluminação, ele torna-se igual ao mestre.

À semelhança de diversos autores, Elaine Pagels nota que o ensinamento cristão gnóstico, baseado na identidade entre o divino e o humano, no foco pela ilusão e pela iluminação e na conceção de Jesus como guia espiritual, tem uma clara ressonância de cariz budista e hindu.

Elaine Pagels constata que budistas estiveram em contacto com os cristãos de Tomé (isto é, cristãos que conheciam e usavam escritos como o Evangelho de Tomé) na Índia meridional. Na altura em que o gnosticismo floresceu (60-200 d.C.), estavam abertas as rotas comerciais entre o mundo greco-romano e o Extremo Oriente e a presença de missionários budistas era notória em Alexandria, a grande metrópole do Egito, que era a ponte principal entre o Ocidente e o Oriente. Hipólito, um cristão de língua grega residente em Roma na primeira metade do século III, fala dos brâmanes indianos e refere a influência destes nas fontes do gnosticismo.

Os cristãos gnósticos influenciaram de forma determinante o cristianismo, tal como hoje o conhecemos, por duas grandes razões.

Por um lado, conforme assinala António de Macedo, um grande investigador português na área da espiritualidade, os cristãos gnósticos lançaram os fundamentos de uma escola iniciática de mistérios cristãos, de vastas repercussões históricas e sociológicas, ramificando-se ao longo de toda a Idade Média, do Renascimento e da modernidade, segundo escolas, tradições e correntes tão diversas como o maniqueísmo, o hermetismo neo-alexandrino, o catarismo, o templarismo, a filosofia oculta (a tripla Magia de Agripa), o trovadorismo iniciático, a cabala crista, a teosofia cristã dos séculos XIV a XVIII (Meister Eckhart, Nicolau de Cusa, Paracelso, Giordano Bruno, Jacob Böhme, Johann Georg Giebrel, Emanuel Swedenborg, Karl von Eckhartshausen, etc.), o rosacrucianismo, a maçonaria, o neo-ocultismo novecentista, a teosofia de Helena Blavatsky e as correntes dela derivadas, entre outras, sem falar na variedade imensa de todos os movimentos e sub-movimentos New Age.

Por outro lado, os gnósticos foram os alvos privilegiados dos proto-ortodoxos, que sistematizaram uma cultura cristã proto-ortodoxa que se disseminou e se impôs no cristianismo institucional.

Segundo Pagels, o triunfo da corrente proto-ortodoxa deveu-se sobretudo à sua capacidade organizativa: na formação do cristianismo surgiram conflitos entre aquelas pessoas inquietas e inquiridoras que exploravam uma senda solitária de autodescoberta e a estrutura institucional, que conferia sanção religiosa à grande maioria e direção ética às suas vidas quotidianas. Adaptando aos seus próprios fins o modelo romano de organização militar e política e, ganhando apoio imperial no século IV, o cristianismo proto-ortodoxo, cresceu, tornando-se cada vez mais estável e duradouro. O cristianismo gnóstico provou não ser rival para a fé ortodoxa, tanto em termos de atração popular, como da sua organização efetiva.

No século II, começa a ser estabelecido um episcopado monárquico, baseado numa hierarquia de três níveis: bispos, presbíteros e diáconos. Este modelo organizacional, iniciado em Antioquia, torna-se predominante nas comunidades gentio-cristãs de inspiração paulina e nas comunidades cristãs em geral. Paralelamente, na sequência das duas destruições de Jerusalém, em 70 e em 135, a igreja de Roma, vai reivindicando gradualmente um primado, inicialmente honorifico, sobre as demais comunidades, aproveitando a condição de capital imperial e a sua forte dinâmica caritativa.

Por falar na Igreja de Roma, é relevante falar de Valentim, uma das principais figuras da gnose cristã.

Quando faleceu o bispo de Roma, Higino, no ano 140, Valentim, já então com grande prestígio, foi um dos candidatos à sua sucessão, tendo perdido a eleição por uma escassa margem, ultrapassado por Pio, que se tinha destacado na defesa do cristianismo primitivo contra a prepotência das autoridades romanas. Uma vez eleito, Pio mostrou uma faceta autoritária e dogmática que não foi bem acolhida por uma grande parte da comunidade cristã de Roma. Valentim faleceu em 161, tendo mantido o seu prestígio junto das comunidades cristãs primitivas.

Diversos historiadores, entre os quais Gilles Quispel, Jacob Slavenburg, Elaine Pagels, Hans Kung e Marília Fiorello, veem neste acontecimento um ponto de viragem fundamental no percurso histórico do cristianismo, com profundas repercussões na História da humanidade em geral. Com efeito, é pertinente refletir o que teria acontecido caso Valentim se tornasse bispo de Roma e o seu impacto na evolução histórica do cristianismo.

Como místico que era, Valentim enfatizava a centelha divina no interior de cada ser humano, que se despertava pela ressurreição do ser crístico no próprio interior e assim abria o caminho para uma vida nova baseada no amor à Divindade e ao próximo.

Valentim pregava que o ser humano era imortal, porque a sua parte espiritual estava ligada ao Espírito de Deus. Classificava os seres humanos em três grandes categorias, de acordo com o seu grau de evolução espiritual. Havia os hílicos, indivíduos materialistas, demasiado focados nas coisas materiais. Em seguida, existiam os psíquicos, que procuravam sinceramente a revelação da fé e que procuravam viver de acordo com as prescrições das comunidades eclesiais. Apesar de buscarem a fé de uma forma sincera, não tinham a gnose. Por fim, os pneumáticos, os seres humanos que vivenciavam as verdades eternas através da gnose, e como tal, tinham alcançado a união com o Divino, que vibrava no seu próprio ser.

Contrariamente a alguns pensadores cristãos do seu tempo, inclusive gnósticos, Valentim defendia que o lugar do crente era estar presente no mundo, sem no entanto estar dependente das suas ilusões. A conceção de que o ser humano vive num mundo de ilusão, do qual somente o conhecimento da gnose ou autoconhecimento pode libertá-lo, tem fortes analogias com as ideias de duas grandes religiões do Oriente: o hinduísmo e o budismo.

Valentim era um indivíduo espiritualmente iluminado. É um dos pensadores cristãos que tinha uma compreensão fundamental da essência da relação entre Deus, o Universo e a pessoa humana, bem como da própria natureza de Jesus. Seria completamente erróneo considerar que Valentim diminuiu a importância de Jesus nos seus ensinamentos. A grande devoção e reverência para com Jesus por parte de Valentim são amplamente manifestadas com beleza poética e sublime no Evangelho da Verdade, que na sua forma original, foi escrito por Valentim. Segundo Valentim, Jesus é realmente salvador, mas o termo deve ser entendido na aceção da palavra grega original. Esta palavra grega é “soter”, que significa curador ou doador da saúde, no sentido holístico e espiritual do termo. Valentim considerava que o mundo e a humanidade tinham como grande enfermidade a ignorância, mais concretamente a ignorância espiritual. O papel dos mensageiros espirituais, entre os quais Jesus tinha um lugar de destaque, era curar a humanidade da sua ignorância, através do acesso à gnose ou conhecimento espiritual.

Nos primeiros três séculos, a generalidade dos pensadores cristãos aderiram de forma clara à fé na unidade de Deus, herdada do judaísmo, sempre subordinando Jesus, o Cristo, ao Deus uno.

Mas, no concílio ecuménico de Niceia, em 325, convocado pelo imperador romano Constantino I, foi aprovado oficialmente o dogma da Trindade e a igualdade de Jesus com Deus.

O desfecho do concílio de Niceia radicou na falta de compreensão de que Jesus e Cristo são realidades diferentes e não uma entidade única.

Cristo é a inteligência infinita de Deus, presente em toda a Criação. A Consciência Crística é a expressão viva do Amor Divino, ao mesmo tempo transcendente e imanente. É a consciência divina universal e a unidade com Deus, manifestada por Jesus e outros grandes mestres espirituais e que todos nós somos convidados a manifestar.

As consequências do concílio de Niceia e da fórmula dogmática aí aprovada, que foi reafirmada pelos concílios ecuménicos posteriores, para o cristianismo e a humanidade, foram enormes. A fé deixou de ser vista como uma relação de confiança e de entrega a Deus, passando a ser encarada como a adesão incondicional a um conjunto de dogmas doutrinários cada vez mais complexos. Os judeo-cristãos, os gnósticos e todos os demais cristãos que não compartilhavam esta visão dogmática foram excluídos e perseguidos. Para os judeus, e posteriormente, para os muçulmanos e os seguidores de outras tradições espirituais em geral, a fórmula dogmática definida em Niceia permaneceu incompreensível.

 

A crítica da espiritualidade cristã ocidental

Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica e um dos grandes iniciados do século XX, que sentia uma profunda conexão com o gnosticismo, criticou a espiritualidade cristã ocidental, que considera como essencialmente externa.

Na perspetiva de Jung, o Ocidente cristão considerou o ser humano plenamente dependente da graça divina, ou, pelo menos, da instituição eclesial considerada como instrumento tendencialmente exclusivo de mediação da Divindade para a salvação humana. A responsabilidade é assim afastada para o exterior. Por seu turno, o Oriente insiste que o ser humano é a causa por excelência do seu desenvolvimento superior, pois acredita na auto-libertação.

Abraham Maslow, discípulo de Jung e fundador da psicologia transpessoal, contemplando a história interna da generalidade das religiões mundiais, constata a existência de duas alas nas diversas cosmovisões religiosas.

Por um lado, existem os místicos e os seres humanos pessoalmente espirituais, que enfatizam a dimensão mística e esotérica da espiritualidade, e por outro lado, existem as pessoas que estão ligadas a uma compreensão literalista e dogmática da espiritualidade e consideram as instituições religiosas como essenciais e mais importantes do que as revelações espirituais originais.

É legítimo questionar-se o que teria acontecido se tivesse prevalecido a visão gnóstica da realidade. Provavelmente, teríamos um cristianismo menos dogmático, mais recetivo ao contexto multirreligioso existente nos primeiros séculos da nossa era, mais plural, mais centrado na dimensão mística e interior da espiritualidade e consequentemente mais consentâneo com a mensagem de amor, paz e compaixão proclamada e praticada por Jesus. Por outras palavras, uma ortopraxia em vez de uma ortodoxia.

Por seu turno, esta extroversão que se polariza com o cristianismo institucional teve um impacto profundo na trajetória do Ocidente e da humanidade em geral. O inconsciente coletivo, desprovido de luz, voltou-se sobre o mundo  de forma não raras vezes desconectada e violenta.

Os traumas da modernidade deixaram uma pesada herança espiritual e ética. Contudo, a a atual época de transição planetária e cósmica abre perspetivas para uma busca interior revigorante e para um encontro com a nossa essência mais profunda, em conexão intimo com o Todo que é a fonte infinita da qual emana tudo o que existe.

Imagem: William Blake

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Categorias: Crónica, Sociedade

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Daniel Faria

Nasceu em 1975, em Vila Nova de Famalicão. Licenciado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e pós-graduado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida pela mesma Instituição. É diplomado pelo Curso Teológico-Pastoral da Universidade Católica Portuguesa. Em 1998 e 1999, trabalhou no Centro Regional da Segurança Social do Norte. Desde 2000, é Técnico Superior no Município de Vila Nova de Famalicão. Valoriza as ciências sociais e humanas e a espiritualidade como meios de aprofundar o (auto)conhecimento, em sintonia com a Natureza e o Universo. Dedica-se a causas de voluntariado. É autor do blogue pracadasideias.blogspot.com e da página Espiritualidade e Liberdade.

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