Raquel Varela

Pandemia | As pessoas muito inteligentes têm muitas dúvidas

Pandemia | As pessoas muito inteligentes têm muitas dúvidas

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O número de pessoas com certezas sobre a pandemia não é um acaso. Vivemos tempos sombrios de relativismo, que virou as costas à ciência. A ciência, por definição, é interrogação e dúvida. As certezas não são um problema “do povo” – elas estão nas declarações mediáticas de vários envolvidos com responsabilidade na pandemia, estão no “milagre” do Presidente da República da Primavera, e no discurso recente do estado de emergência, onde, num tom histórico nacionalista que nunca se viu em democracia, explicou que somos um povo melhor que os outros, existimos há 800 anos e vamos existir depois dos outros… Pensei se era hora de levantar-me e cantar o hino.

No meio de muitas dúvidas, uma esperança

Eu, porém, tenho dúvidas sobre tudo o que se está a passar. Acho que ainda devia ter mais interrogações do que tenho. Tive alunos brilhantes. Os mais inteligentes eram os que cultivavam a dúvida, me cansavam com questões, e não amuavam com críticas duras. Um dia um aluno deixou na sua tese um agradecimento à “minha obstinação crítica”. Isso tinha-o ajudado, fiquei emocionada. Também uma das minhas alunas de doutoramento, brilhante, que se tornou a minha melhor amiga, me entregava os textos e dizia “a verdade, sem pena de mim”. Isso, a possibilidade de dizermos o que está radicalmente errado, sem falsos elogios e mentiras piedosas, foi, devo dizer, o início de uma grande amizade. Admirava-a por isso. Tal como no Casablanca ainda hoje nos encontramos pelos aeroportos do mundo, já que um oceano nos separa. As pessoas querem calmantes, mas isso não muda nada nas sociedades em agonia. Não esperem de mim pílulas históricas para os nervos, a minha confiança inabalável não é na humanidade como ela é hoje, assustadora. Mas na transformação dos seres humanos, sobretudo através do mundo do trabalho. É aí que repousa a nossa esperança. Dito isto, vamos olhar o mundo de quem tem certezas inabaláveis:

Salvar uns e deixar morrer os outros

Multiplicam-se as declarações de responsáveis técnicos, científicos e políticos insistindo que o confinamento reduz os contágios, temos que “esperar que faça efeito”. De facto, essa hipótese existe. Mas não está confirmada. A OMS, até há um ano, era contra a mesma. Nunca se confinaram pessoas saudáveis. A Suécia não tem confinamento, não usa máscaras, e tem agora um crescimento de mortos 10 vezes menor que Portugal. A hipótese destes cientistas, e do epidemiologista sueco (que ao contrário do que noticiou o DN não mudou de ideias, foi à TV reiterar a estratégia), e muitos da Universidade de Oxford (não estamos a falar de não-sei-quem-pela-verdade) é que o vírus vai atingir picos de infecção até atingir imunidade – confine-se ou não se confine. Essa imunidade não seria, segundo eles, de 60 ou 80%, porque nós teríamos várias tipos de resposta imunitária, mas de 15% a 20%, e por cruzamento com outros vírus a maioria de nós desenvolveria imunidade de forma assintomática, ou ligeira. Há outros porém que dizem que não, não há imunidade até atingir 60% a 80% o que daria dezenas de milhões de mortos até uma vacina. Bom, o que dizem muitos cientistas de várias áreas é que confine-se ou não, isso não vai alterar nada. Inclusive em Portugal – o pico da pandemia será atingido, segundo eles, quer as pessoas se confinem quer “bebam 2 copos de água por dia”. Não deixa de ser notório que antes do estado de emergência a DGS declarou que o pico seria atingido no fim de novembro. Nada pode parar este vírus, o que se pode fazer é tratar a doença grave, essa é a opinião de milhares de médicos, cientistas no mundo inteiro. Mas como tratar tantos, de uma doença que exige cuidados intensivos (e muito prolongados)? Ou se tem um sistema de saúde robusto, ou se requisita o serviço privado. Portugal tem um sistema de saúde em ruptura há 10 anos, fruto de políticas como o fim da exclusividade dos médicos e o incentivo à exportação de mão de obra (imigração de enfermeiros). A opção por suspender consultas e cirurgias no SNS tem sempre sido tomada com rapidez, mas a requisição do sector privado não. Mais de metade das mortes em excesso em Outubro foram, segundo o Barómetro COVID19 do Instituto Ricardo Jorge (IRJorge), por doenças não COVID.

Não estamos – sobre isso não há dúvidas – a salvar pessoas com estas políticas. Estamos a salvar uns, e a deixar morrer os outros. Uma vez que a mortalidade em excesso aumenta, e com esta quebra de diagnósticos vai aumentar todos os anos próximos – isto tem sido dito assim por vários directores clínicos e médicos, sobretudo no campo da oncologia.

Cadeias de contágio descontroladas

Portugal nunca teve um confinamento radical em Março e a pandemia decresceu. Em Março, ao contrário do que pensará a classe média confinada, mais de 3 milhões de pessoas mantiveram-se a trabalhar nas fábricas e empresas e nos transportes e nunca usaram máscaras, porque nem sequer havia. O inverno chegou e com ele a capacidade do vírus ser mais transmissível. Porque isto acontece não é claro. Há quem defenda que a Suécia, por exemplo, tem mais imunidade agora e que em Portugal a chegada da Primavera travou a expansão do vírus, o que dará muito mais casos no Inverno. Bom, é um facto que a pandemia acelerou muito. Não se sabe exactamente porquê mas não foi por falta de seguir cadeias de contágio. Estão descontroladas há muito. O “milagre” não parece ter sido nem o confinamento nem as políticas públicas, terá sido talvez a Primavera.

Gerir a distribuição de vacinas em Portugal

A vacina. Há uma luta pela vacina. Há ao que parece uma vacina russa ou chinesa baseada nos princípios básicos de Pasteur e outra da Pfizer. Esta última exige conservação a 80 graus negativos (e mexe com questões mais graves do RNA, a outra ao que parece mais simples). Para mim a geopolítica não devia ter vacina no nome, qualquer uma desde que segura é boa. Mas não tenhamos ilusões – há uma luta de milhões a envolver a vacina. Recordo que há um mês o Presidente da República (PR) disse, em tronco nu, que ia haver vacina da gripe para todos até ao Natal, agora a DGS já disse que não. Como vai Portugal conservar e distribuir uma vacina destas a 80 graus negativos?

Pandemia com costas largas

Se quem afirma que confinar é inútil estiver correcto a opção da maioria dos governos por confinar é gravíssima, e não sobreviverão a ela politicamente. Porque milhares de pessoas estão a passar por um processo – idêntico à crise de 29 (quanto a mim vai ser pior) de expropriação dos sectores médios, proletarização e pauperização, já que a opção do confinamento só é suportável por grandes empresas com lucros acumulados. [Ante]Ontem, Mário Centeno deixou a sua orientação: ajudem os miseráveis, para os outros não há nada a fazer. A pandemia tem as costas largas e será culpada da miséria de milhões de pessoas, mas essa miséria é um opção política e económica, não só do confinamento mas da forma como as “ajudas” estatais foram direccionadas, desde sempre para as grandes empresas na forma de layoff e para as pequenas sobrou o crédito, impagável. A pandemia varreu – pela via do deficitário SNS – os anos de crédito aos pequenos empresários. O que foi colocado em dívida pública (privada) agora recebe os juros de esvair as classes médias. Sobre isto Centeno nada disse.

O confinamento e a falta de afectos e abraços

A outra razão porque estão muitos cientistas contra o confinamento prende-se com a saúde mental. A saúde mental não é uma parte separada no nosso corpo, em que continuamos a viver com depressões, tristeza, ansiedade. A saúde mental é parte essencial da saúde e, hoje, no mundo desenvolvido, está à cabeça dos factores de baixas médicas ao trabalho, por exemplo, ou incapacidade e pré-reforma. Destrói a vida das pessoas, quando não as mata logo, ou lentamente. E quando não está relacionada com doenças graves como cancro e outras (campo da psicossomática). Pelo que a decisão de confinar pessoas é gravíssima. Sabem que existem estudos de bebés que tinham comida, calor, mas não tinham afecto e morreram de tristeza? Os afectos, abraços, o amor produz hormonas de bem-estar que são determinantes, inclusive para o sistema imunitário. Nós somos animais sociáveis, é isso que nos transforma em humanos. Confinar sociedades urbanas, complexas, onde grande parte já vive uma eterna solidão porque essa é a vida no mundo capitalista desenvolvido, é um risco cuja consequências são, acreditamos nós, devastadoras.

Escolhas de sucessivos governos conduzem à solução errada

Sobre as mortes. Continuam a dar-se números sem explicá-los. A mortalidade acima dos 80 anos ou dos 70 com comorbilidades graves não é noticiada. Não se diz, nas notícias, quantos destes mortos têm que idade e que doenças e quantos estão em lares (que o Governo nunca conseguiu proteger), nem se diz quantos destes mortos morreriam de qualquer outro vírus porque a sua condição de saúde já era muito frágil. Quer isto que dizer que queremos matar os velhos? Não, acabei de defender que devemos requisitar o sector privado e salvar quem pode ser salvo. Mas eu defendo a requisição civil. O Governo não. Optou por confinar e culpabilizar a população, dizendo que é a única forma de salvar o SNS. Ora, o SNS tem que salvar as pessoas, não o contrário. Para isso precisa de uma aposta central em recursos humanos.

Aí, claro, fica a questão fundamental – essa escolha nunca foi feita, foram milhões em layoffs, bancos falidos, medidas ad hoc populistas sem fundamento. E aqui não estamos no campo das dúvidas, mas das certezas – a escolha foi feita, há muito, e não foi pelo SNS. Trancar pessoas em casa, neste cenário, parece pois um passo em frente para o precipício. Embora no imediato ilibe responsáveis políticos pelas escolhas e as transfira para os cidadãos, a médio prazo revelará todas as fragilidades estruturais de escolhas políticas erradas. E isso vai polarizar a vida política e social. Não há milagre que possa esconder que há muito foi decidido, pelos sucessivos governos, por este também, que educação, saúde e segurança social eram um problema para o país. E banqueiros falidos uma solução.

 

Imagem: Fernando Zhiminaicela/Pixabay

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Categorias: Crónica, Sociedade

About Author

Raquel Varela

Raquel Varela é Historiadora, Investigadora e professora universitária/ Universidade Nova de Lisboa /IHC e Fellow do International Institute for Social History (Amsterdam). Foi Professora-visitante internacional da Universidade Federal Fluminense. É coordenadora do projeto internacional de história global do trabalho In The Same Boat? Shipbuilding industry, a global labour history no ISSH Amsterdam / Holanda. Autora e coordenadora de 25 livros sobre história do trabalho, do movimento operário, história global. Publicou como autora 51 artigos em revistas com arbitragem científica, na área da sociologia, história, serviço social e ciência política. Foi responsável científica das comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril (2014). Em 2013 recebeu o Santander Prize for Internationalization of Scientific Production. É editora convidada da Editora de História do Movimento Operário Pluto Press/London e comentadora residente do programa semanal de debate público O Último Apaga a Luz na RTP.

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