Luís Cunha

Pensar | «Missão Salvar o Natal»

Pensar | «Missão Salvar o Natal»

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«Missão Salvar o Natal» é o título desta coisa em que me meteram sem ninguém me perguntar nada.

 

No que estou a pensar, pergunta o FB. Estou a pensar se entrei, sem querer, em algum filme da Walt Disney, uma daquelas enternecedoras xaropadas que sevem para vender toneladas de pipocas e pôr os infantes a babar frente à tela. «Missão Salvar o Natal» é o título desta coisa em que me meteram sem ninguém me perguntar nada. À cabeça da brigada de intervenção está, naturalmente, o António Costa, guerrilheiro um pouco balofo e um tanto trapalhão, que sabe tudo sobre bazucas e fisgas, e que só não acerta no alvo devido à microscopia própria dos vírus. Estratega inigualável, acena às tropas com a promessa de um Natal em família alargada, com bacalhau, rabanadas e prendinhas. O mais certo é que não cheguemos à cenourinha pendurada na ponta do pau. O vírus há de roer a cenoura, e é muito provável que a missão de salvar o Natal só resulte se aceitarmos adiar o Natal lá mais para o Verão. Não sendo assim, resta-nos trocar as habituais peúgas por máscaras e encher com elas o sapatinho.

Salvar o Natal, salvar a economia, salvar qualquer coisita que ainda pode ser salva no meio do caos. É isso que nos dizem, explicando o modo de fazer. Na retaguarda, há quem só queira salvar a pele e entenda que o melhor é mesmo fechar tudo e enfiarmo-nos debaixo da cama, à cautela. Observo-os do sítio onde habitualmente me encontro, na Universidade a dar aulas, e vejo-os reivindicando o direito inalienável de teletrabalharem, pressupondo, naturalmente, que na retaguarda haverá quem lhe garanta a subsistência – ao vivo e sem teletrabalho, naturalmente. Esta coisa das classes imiscui-se sempre, já se sabe. Às vezes chega em pezinhos de lã, na companhia de convictos esquerdistas que ambicionam o resguardo burguês, certos de que alguém lhes recolherá o lixo e os servirá na caixa do supermercado ou nos restaurantes e similares.

Salvar o Natal é uma missão para fazer de máscara certificada e com as tropas bem esfregadinhas em álcool-gel. Podia ser pior. O problema é que se trata de uma missão em que contam mais os hospitais de campanha que o enfrentamento em campo aberto. Desconfio, aliás, que o inimigo liga pouco às nossas táticas de combate. Nesse sentido, a culpa não é do marechal Costa, dos generais Freitas e Temido ou mesmo das tropas confinadas. Cautelosos devemos ser, pois claro. Procuro sê-lo também eu, que gosto de dar aulas presenciais e que ainda não me senti que estivesse a correr especial risco ao fazê-lo. Já vi o vírus na TV e preferia não o conhecer pessoalmente, mas também não me adianta nada esconder-me debaixo da cama, até porque não caibo. Ponho a máscara quando devo, tiro a máscara quando posso; consumo álcool (sem gel), sobretudo às refeições. Se o Natal vier, bebo uma garrafinha de bom tinto para o saudar. Se não vier, bebê-la-ei também.

 

Imagem: Sol

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Categorias: Crónica, Sociedade

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Luís Cunha

Professor universitário. Braga.

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