Raquel Varela

História | Extrema-ignorância

História | Extrema-ignorância

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Dizer que a extrema-esquerda é a outra face da moeda da extrema-direita é um absurdo histórico, sem qualquer valor científico. Equivale, em história, a dizer que a terra é plana – é parte da irrazão, anti-iluminista que grassa (e a que os media não são imunes). Ora, o facto histórico é que não se conhece um elemento de extrema-direita que tenha morrido pela democracia e são aos milhões os que na extrema-esquerda morreram a defender direitos democráticos. Milhões. Por isso pede-se alguma contenção e bom senso nas afirmações.

Há regimes de esquerda que degeneraram em contra-revoluções ditatoriais, como na Rússia de Estaline (e por isso devem ser combatidos, na minha opinião, e foram pela Oposição de Esquerda, que morreu a lutar contra Estaline). As ideias de esquerda eram e são as ideias civilizadas da defesa da liberdade, da igualdade e da solidariedade. As ideias de extrema-direita não degeneraram. Ninguém se enganou naqueles partidos – elas são à partida degeneradas, brutais, violentas, desagregadoras, não raro apoiando-se, por isso, em milícias (onde, aliás, o nome fascismo vai buscar – ao Fasci Italiani di Combattimento, milícias italianas especializadas, como as SA de Hitler, em matar líderes de extrema-esquerda ou esquerda: comunistas, trotskistas, anarquistas, grevistas, católicos progressistas, sindicalistas, etc.). Foram eles os primeiros a entrar como prisioneiros em campos de concentração. Tenham, por isso, um pouco de decoro quando fazem afirmações absurdas. São gente em grande medida marcada pela coragem, humanismo, dedicação, abnegação – fascistas são monstros.

Todos os direitos fundamentais que hoje vigoram nas democracias liberais, a começar pelo direito ao voto, mas também o de livre associação, reunião, liberdade de imprensa, foram conquistados nos séculos XIX e XX por aquilo que hoje é denominado a extrema-esquerda, ou seja, sectores revolucionários auto-organizados que se opuseram à ordem estabelecida: cartismo, sindicalismo revolucionário, social-democracia alemã do Século XIX, bolchevismo, e tantas outras correntes de gente abnegada, que deram a vida por ideias de liberdade e igualdade.

Qualquer regime político pode degenerar em ditadura. E isso serve para os de direita, de esquerda e de centro, os de ontem e os de hoje. Todo o cuidado é pouco – por isso fui sempre contra qualquer supressão de direitos, seja em pandemia, ataque nuclear ou guerra. Hitler foi nomeado chanceler através de eleições, “porque havia uma crise económica devastadora que pedia mão pesada”. Estaline subiu ao poder em nome do comunismo, depois de ter massacrado comunistas, “porque a Rússia estava destruída”. Várias democracias robustas e amplas em direitos mantiveram nas colónias regimes facínoras, pensamos na Argélia francesa, “porque aqueles povos eram atrasados”. Os traços bonapartistas vêm rapidamente ao de cima nas nossas democracias assim que há greves que afectam a produção, por exemplo – nunca houve requisição civil de hospitais, em pandemia, mas houve-a contra enfermeiros em greve fora da pandemia.

Qualquer regime político tem que ser criticamente vigiado, escrutinado, e, para ser realmente democrático, tem que partir de baixo para cima e ter mandatos revogáveis. O meu lema pessoal é nunca confiar, nem nos “meus”. A esquerda não está imune a apoiar ditaduras, infelizmente. Nem a apoiar limitações de direitos – há muita gente de esquerda que quando é o seu governo aceita limitar direitos. Isso é lamentável. Mas comparar as ideias de extrema-esquerda com a extrema-direita é uma ofensa aos que nos deram quase tudo o que de melhor existe hoje, e que só foi conseguido depois de derrotados os regimes fascistas, o que, na Europa, custou 80 milhões de mortos. 80 milhões, repito. Pelo que dizer que “são duas faces da mesma moeda” não é só ignorante, é uma ofensa à memória.

Dizia o filósofo Walter Benjamin, marxista que se suicidou na fronteira com França depois de lutar contra o nazismo, que no capitalismo nem os mortos estão a salvo. É quando a memória se transforma em amnésia colectiva.

Steve Banon (antes de ser preso) deu uma entrevista, creio que ao Expresso, onde dizia que as ideias de extrema-direita iam crescer porque não há extrema-esquerda para ocupar esse lugar. Dizia-o feliz, bonacheirão. Alegrou-se com a ausência de uma esquerda, porque sabe, melhor do que ninguém, que a culpa do crescimento da extrema-direita é a demissão da esquerda em ter políticas realmente de esquerda. Não há alternativa ao centro que não seja a extrema-direita que cresce nesse vazio, regozijou-se o “pai teórico” de Trump e do Chega.

Comparar o nazismo à resistência ao nazismo é um delírio, é uma ideologia criada pelo centro político, e o seu neoliberalismo económico, para justificar perante milhões de seres humanos o seu colapso moral em 2008 – quando tiveram que se socorrer dos Estados que diziam rejeitar, para salvar os seus bancos, criando uma onda de miséria mundial e retrocesso nas classes médias. É a ideia do mal menor, do virtuoso centro entre dois extremos. A ideia ignorante das “duas faces da mesma moeda” cumpre hoje um papel evidente: legitimar o neoliberalismo. Depois de 2008 nada lhes sobra a não ser a ignorância histórica. O que têm hoje os partidos do centro na Europa a oferecer aos seus cidadãos, antes ou depois da pandemia? Uma longa travessia no deserto de mais sacrifícios, desemprego com automação, e um futuro negro de retrocesso social para os filhos das classes médias, e os pais já reformados, além do já evidente colapso do pequeno empresariado/empreendedores (mesmo antes da pandemia). Salvar os mortos é uma forma de proteger os vivos – conhecer a história, era o alerta de Benjamin, é fundamental para preparar o futuro.

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Categorias: Crónica, Sociedade

About Author

Raquel Varela

Raquel Varela é Historiadora, Investigadora e professora universitária/ Universidade Nova de Lisboa /IHC e Fellow do International Institute for Social History (Amsterdam). Foi Professora-visitante internacional da Universidade Federal Fluminense. É coordenadora do projeto internacional de história global do trabalho In The Same Boat? Shipbuilding industry, a global labour history no ISSH Amsterdam / Holanda. Autora e coordenadora de 25 livros sobre história do trabalho, do movimento operário, história global. Publicou como autora 51 artigos em revistas com arbitragem científica, na área da sociologia, história, serviço social e ciência política. Foi responsável científica das comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril (2014). Em 2013 recebeu o Santander Prize for Internationalization of Scientific Production. É editora convidada da Editora de História do Movimento Operário Pluto Press/London e comentadora residente do programa semanal de debate público O Último Apaga a Luz na RTP.

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