‘Faça-se um estudo nacional sobre acesso à cultura dos alunos deste país’

Estamos avariados

Estamos avariados

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Quando há 30 anos, num país com menos capacidade de produção e conhecimento, estudei na escola pública fiz, com a escola, dezenas de visitas de estudo. Tiveram um grande papel no meu gosto pela escola. Era um dia de brincadeira, conversa alegre, cantorias ao motorista e muitos “Adeus!” aparvalhados aos automobilistas que nos seguiam. Era também, para mim, um dia de comida má com direito a rissóis e batatas fritas. Para os adolescentes era o espaço de namoro, conhecer a turma, fazer amigos, fazer asneiras e erros, construir relações de confiança. Eram espaços onde aprendemos a gostar cada vez mais dos professores, que, fora da sala, olhávamos agora de outra forma.

Conheci o país com os meus colegas, saíndo da Linha do Estoril, no tempo em que ainda havia na nossa turma quem habitasse, lado a lado, em vivendas com piscina e barracas: Templários, Mosteiro de Alcobaça, Palácio Nacional da Ajuda, Sintra, Batalha, Conímbriga, Santuário de Fátima! (e eu não tinha Religião e Moral), Almourol… muitos outros lugares “clássicos”. A ideia era levar-nos a todo o lado, para conhecermos o país onde vivíamos.

Acompanhei estes últimos 20 anos a escola pública de vários adolescentes da família, que, até ao 12º ano, nunca tinham ido a um único lugar com a escola. Um. Quanto muito vai um teatro – e é pedido aos pais que paguem – à escola. Para colmatar este grau de exclusão tenho eu assumido as vezes da escola e levo-os a vários passeios. Não faço contas ao que significa fazer turismo com a família cá dentro, porque à partida 80% da população está excluída. Mas contas simples, de ir ali, aos monumentos ao lado de casa.

O último foi ao Jardim Tropical – a cair aos pedaços e metade fechado “em manutenção”, cobram 4 euros por pessoa à entrada; liguei para a Torre de Belém e Jerónimos, não há visita guiada, nada preparado, cuidado, e a livre paga-se, com desconto apenas para estudantes. Idem para o Museu de História Natural, paga-se. Penso que no périplo o único gratuito foi o do Aljube. Ainda este verão fomos ao Palácio de Sintra e a coisa ficou com almoço normal perto de 1/5 do salário mínimo nacional, sendo que de facto o acesso aos jardins foi privatizado. Hoje liguei para o Planetário e a resposta foi, cito ipsis verbis, “estamos avariados, sem previsão de abertura”. Pensei, não foi um lapso – estamos avariados.

Desafio sobre  o acesso à cultura pelos jovens estudantes

Deixo um desafio – um estudo nacional sobre acesso à cultura dos alunos deste país. Quantos deles alguma vez visitaram as principais cidades, museus e monumentos. E depois façamos conjuntamente uma reflexão sobre o que isto significa em termos de expropriação do direito à cultura e do aumento substancial das desigualdades.

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Imagem: CCM

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About Author

Raquel Varela

Raquel Varela é Historiadora, Investigadora e professora universitária/ Universidade Nova de Lisboa /IHC e Fellow do International Institute for Social History (Amsterdam). Foi Professora-visitante internacional da Universidade Federal Fluminense. É coordenadora do projeto internacional de história global do trabalho In The Same Boat? Shipbuilding industry, a global labour history no ISSH Amsterdam / Holanda. Autora e coordenadora de 25 livros sobre história do trabalho, do movimento operário, história global. Publicou como autora 51 artigos em revistas com arbitragem científica, na área da sociologia, história, serviço social e ciência política. Foi responsável científica das comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril (2014). Em 2013 recebeu o Santander Prize for Internationalization of Scientific Production. É editora convidada da Editora de História do Movimento Operário Pluto Press/London e comentadora residente do programa semanal de debate público O Último Apaga a Luz na RTP.

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