Raquel Varela

Ensino | Cidadania no Auditório BPI

Ensino | Cidadania no Auditório BPI

 

 

A polémica do currículo escolar pode ser-nos útil. É um fait divers que durará o tempo de um café, pouco mais de uma semana, até ao próximo, de uma direita (e de uma esquerda) que não se distinguem no essencial – a política económica, o desemprego e os baixos salários de um país periférico sem estratégia independente. Podemos, porém, usar o sururu para pensar algumas questões que são estruturantes.

Devemos debater currículos escolares? Sim, Claro. Não devem existir dogmas. Tão ou mais importante que debater o currículo da cidadania é debater o currículo de geografia (lançado no dogma – e não na hipótese – do aquecimento global/economia “verde”, sem geografia humana, base da nossa relação com a natureza), de filosofia (repetição de ideologias frágeis, sem conhecimento do pensamento estruturado), para dar dois exemplos. Recentemente contactei com uma escola em que lhes transmiti a minha perplexidade por em pleno 10º ano não ser obrigatório ler nenhum livro completo a filosofia, esta – privada e religiosa – respondeu-me que dão o currículo normal para o exame, e a leitura obrigatória de clássicos para que os alunos aprendam. Isto é, a Igreja – hoje como no passado -, não abdica de formar quadros dirigentes. A escola pública (e a maioria da escola privada) contentam-se cada vez mais com força de trabalho barata para um mercado periférico onde o que interessa é a flexibilidade, multi aprendizagem, currículos superficiais em disciplinas fundamentais, para futuros apêndices de máquinas, linhas de montagem e turismo, sem espírito crítico.

Esta flexibilidade vem a par da municipalização que quer o PS quer o PSD têm defendido, e que implicará coisas tão incríveis como Presidentes de Câmara e empresários opinarem sobre os currículos de acordo com as necessidades de força de trabalho da região. Um construtor civil terá o direito de afirmar que a filosofia é inútil e que o que é necessário é apertar porcas. E um gestor hoteleiro afirmará, com segurança, que a história é pouco produtiva, o que é preciso é dominar o tipo de algodão a esticar para camas de hotéis. O papel de muitos conselhos em escolas e universidades já é esse, hoje. Onde têm assento representantes de empresas como supermercados e bancos, e até, imagine-se, dão o nome a auditórios. Onde antes estava o auditório Cervantes nasceu o palco Pingo Doce ou a sala BPI
Este facto – que destrói o conhecimento universalista e por isso destrói qualquer hipótese de cidadania – não mobilizou nenhum dos partidos de direita (nem de esquerda) porque diz respeito a questões fundamentais. E as causas fracturantes têm sido o que resta, quer à esquerda – quer à direita, que zangada no fundo adora nelas navegar…. É o fait divers que oculta os debates que não se fazem. E o debate central é: que educação queremos, com que professores e para que país? Vamos ser uma monocultura de trabalho barato e turismo sem mercado interno?

A rigor a cidadania é uma cadeira onde pouco ou nada se aprende – quem tem filhos na escola nunca deu por ela… Porque é dada de forma etérea por vários docentes, sem profundidade, que engoliram a contra gosto mais uma cadeira de grandes princípios e valores e sem nenhuma execução real. Isto porque se queremos ensinar igualdade e direitos humanos não podemos fazê-lo apenas em palavras, enfiadas na última semana do período escolar. Para ensinar igualdade era preciso que existisse igualdade. As escolas estão segregadas por bairros de habitação, e brancos não convivem com negros e, quando convivem, as brutais diferenças de classe tornam o convívio quase impossível. Um dos líderes negros dos EUA, aquando da libertação da escravatura, propôs a criação de oficinas comuns onde negros e brancos construíam juntos peças de teatro, instrumentos de trabalho, porque o estar junto – em comunidade e a fazer-junto – criava laços de confiança. Ensinar às crianças valores humanos – e a direita sabe-o bem -, não faz com que elas os aprendam, porque a sua vivência diária é de competição e desigualdade, o contrário dos direitos humanos.

Dito isto, regresso ao meu argumento inicial. Os currículos precisam de um amplo debate científico muito mais denso do que o de cidadania. O facto de termos tido um exame de filosofia em que era possível ter 16 valores sem escrever uma palavra (e palavra e pensamento são indissociáveis, isto é, quem não lê e domina a língua pensa pior, inclusive pensa pior a cidadania), não mobilizou, nem à esquerda nem à direita, debate algum. Ficámos uns quantos de nós, relativamente sós, a explicar a gravidade que significa expropriar a larga maioria dos alunos do saber. No fim poderão identificar como informação o género ou a etnia mas nem saberão como conhecimento o que é o género, ou etnia e as implicações históricas e filosóficas dos mesmos. Idem para disciplinas como matemática e física, ou sociologia. O drama é transversal. Chama-se país sem rumo.

Enquanto não sairmos das causas fracturantes para as estruturantes, não encontraremos rumo.

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Categories: Crónica, Sociedade

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Raquel Varela

Raquel Varela é Historiadora, Investigadora e professora universitária/ Universidade Nova de Lisboa /IHC e Fellow do International Institute for Social History (Amsterdam). Foi Professora-visitante internacional da Universidade Federal Fluminense. É coordenadora do projeto internacional de história global do trabalho In The Same Boat? Shipbuilding industry, a global labour history no ISSH Amsterdam / Holanda. Autora e coordenadora de 25 livros sobre história do trabalho, do movimento operário, história global. Publicou como autora 51 artigos em revistas com arbitragem científica, na área da sociologia, história, serviço social e ciência política. Foi responsável científica das comemorações oficiais dos 40 anos do 25 de Abril (2014). Em 2013 recebeu o Santander Prize for Internationalization of Scientific Production. É editora convidada da Editora de História do Movimento Operário Pluto Press/London e comentadora residente do programa semanal de debate público O Último Apaga a Luz na RTP.

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