Filme evoca origem do comércio da droga na Colômbia dos anos 70 que representou a entrada na modernidade mas também a tragédia dos valores das comunidades ancestrais

Cineclube | ‘Pássaros de Verão’ de Cristina Gallego e Ciro Guerra no regresso do Cineclube de Joane às salas de cinema

Cineclube | ‘Pássaros de Verão’ de Cristina Gallego e Ciro Guerra no regresso do Cineclube de Joane às salas de cinema

 

 

Depois do habitual Cinema Paraíso estival, o Cineclube de Joane regressa ao conforto da sala para mais um ano de divulgação da Sétima Arte, mas também de formação de públicos. O segundo filme a exibir na nova temporada, depois do regresso absoluto com A Vida Invisível de Karim Ainousz, é Pássaros de Verão de Cristina de Cristina Gallego e Ciro Guerra, que tem apresentação marcada para quinta-feira, 10 de setembro, pelas 21h45.

Durante a década de 1960, os EUA vêem nascer o movimento “hippie” altura em que, entre muitas outras coisas, se vulgariza o consumo de estupefacientes. Alguns anos mais tarde, decididos a fazer fortuna, um grupo de norte-americanos investe em Guajira, na Colômbia, onde estabelecem uma plantação de marijuana com o intuito de a exportarem para o seu país. É assim que uma família da tribo Wayuu é atraída para o negócio de tráfico de droga. Ao aceitarem as condições de produção, os Wayuu descobrem o poder do dinheiro fácil, mas também os riscos resultantes da ganância, que ameaça destruir os seus costumes e tradições. Estreado no Festival de Cannes, um drama baseado em factos verídicos sobre a origem do narcotráfico na Colômbia. Com realização de Ciro Guerra (“La Sombra del Caminante”, “Los Viajes del Viento” ou “O Abraço da Serpente”) e da estreante Cristina Gallego.

20 anos de solidão no deserto de la Guajira

Pássaros de Verão é um olhar sobre as tradições de uma família indígena Wayúu corrompida pelo narcotráfico nas décadas de 1970/80. Na verdade, “um épico sobre os efeitos da modernidade numa cultura ancestral e supersticiosa”, disse Inês Lourenço, no Diário de Notícias, ao tempo da estreia em Portugal.

O filme representa “uma história de base real pela via de uma linguagem híbrida, entre o gesto do documentário e uma vibração surreal do drama”. Na sua génese está o boom do tráfico de marijuana, a chamada “Bonanza Marimbera” que, há cerca de 40/50 anos, arrasou as tradições e a honra de uma família indígena Wayúu (povo da região do deserto de La Guajira, no norte da Colômbia), mudando a face de um sistema de valores ancestrais.

A origem do comércio da droga nas comunidades indígenas do norte da Colômbia encontra-se fielmente retratada em Pássaros em Fogo. Baseado em histórias reais, o projeto levou anos de pesquisas e manobras de aproximação dos líderes de clãs em toda a região norte da Colômbia para obter a aprovação da comunidade Wayyu. Esta participou na produção do filme contando as memórias pessoais da guerra. De acordo com os realizadores Ciro Guerra e Cristina Gallego, “Pássaros de Verão é uma metáfora do nosso país, uma tragédia familiar que se torna também uma tragédia nacional. Quando falamos do passado, podemos compreender melhor onde estamos hoje, enquanto país …”, revelou a Comunidade Cultura e Arte.

Ascensão e queda de uma família e uma comunidade ancestral

“Neste misto de ganância, paixão e honra, estala uma guerra fratricida que rapidamente coloca em risco a família, as suas vidas e as suas tradições ancestrais”, relembra-se.

Ora, “é precisamente pela porta de entrada das práticas culturais deste clã que o filme “levanta voo” – numa das suas mais admiráveis cenas – mostrando o ritual de passagem de uma jovem, Zaida, que, depois de um período de isolamento, dança para a comunidade como sinal de que já está preparada para casar. Logo surge o homem, Rapayet, que se sente desafiado nessa dança e que acabará por trazer o veneno da modernidade para dentro da família”, complementa Inês Lourenço.

“Por modernidade entende-se aqui a influência da juventude norte-americana dos anos 1970, cujo apetite por narcóticos significou para indivíduos como Rapayet a oportunidade de fazer fortuna rápida, no seu caso, estabelecendo negócio com um primo, dono de uma plantação de marijuana. Isto sem saber que estava a seguir a estrada da ganância e da violência, com sentido único para a tragédia – ainda que debaixo do olho da matriarca Úrsula, a respeitada líder da família, orientadora dos destinos dos seus, através da supersticiosa interpretação de sonhos e prenúncios”.

Trata-se, por isso, de “um épico moldado pelo semblante clássico da ascensão e queda, mas que no interior da sua estrutura narrativa de cinco “cantos” combina a dureza do filme de gangsters com a intensidade estética do realismo mágico. Não será por acaso que, no desejo documental do olhar de Guerra e Gallego, sempre atento aos aspetos ritualísticos de uma cultura tribal, se insinua um arranjo de imagens profundamente ligadas à verve da literatura de Gabriel García Márquez (ele que evocou o folclore dos Wayúu, por exemplo, na obra Cem Anos de Solidão). E essa dimensão do poder das imagens é o que oferece a Pássaros de Verão uma especificidade garrida, para além de perfeitamente harmonizada com a banda sonora de batimento robusto assinada por Leonardo Heiblum”, conclui a crítica de cinema.

Ficha técnica

Título original: Pájaros de Verano (México/Colombia/Dinamarca, 2018, 125 min.)

Realização: Cristina Gallego, Ciro Guerra

Interpretação: Carmiña Martínez, José Acosta, Natalia Reyes

Produção: Cristina Gallego, Katrin Pors; Argumento: Maria Camila Arias, Jacques Toulemonde Vidal

Música: Leonardo Heiblum; Fotografia: David Gallego; Montagem: Miguel Schverdfinger

Estreia: 20 de Junho de 2019; Distribuição: Alambique Filmes; Classificação: M/12

Sessões de setembro do Cineclube de Joane:

3  – A VIDA INVISÍVEL de Karim Ainouz

Rio de Janeiro, década de 1950. Apesar de terem personalidades muito diferentes, as irmãs Eurídice e Guida têm uma relação de grande proximidade. Ambas vivem com os pais, dois portugueses muito tradicionalistas, que pouco ou nada compreendem as suas necessidades. Um dia, farta de se sentir reprimida, Guida foge de casa. Eurídice, apesar de destroçada com a partida da irmã, tenta perseguir o seu grande sonho de se tornar pianista. Com o passar dos anos, sem nunca perderem a esperança num reencontro, cada uma delas vai superando os desafios das suas vidas, sempre acreditando que o destino da outra é mais feliz. Apresentado no Festival de Cinema de Cannes, onde ganhou o prémio “Un Certain Regard”, um “melodrama tropical” realizado e escrito por Karim Aïnouz (“O Céu de Suely”, “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”), que adapta a obra “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha. Carol Duarte, Julia Stockler, Flávia Gusmão, António Fonseca e Gregório Duvivier assumem as personagens.

10  – PÁSSAROS DE VERÃO de Cristina Gallego, Ciro Guerra

Durante a década de 1960, os EUA vêem nascer o movimento “hippie” altura em que, entre muitas outras coisas, se vulgariza o consumo de estupefacientes. Alguns anos mais tarde, decididos a fazer fortuna, um grupo de norte-americanos investe em Guajira, na Colômbia, onde estabelecem uma plantação de marijuana com o intuito de a exportarem para o seu país. É assim que uma família da tribo Wayuu é atraída para o negócio de tráfico de droga. Ao aceitarem as condições de produção, os Wayuu descobrem o poder do dinheiro fácil, mas também os riscos resultantes da ganância, que ameaça destruir os seus costumes e tradições. Estreado no Festival de Cannes, um drama baseado em factos verídicos sobre a origem do narcotráfico na Colômbia. Com realização de Ciro Guerra (“La Sombra del Caminante”, “Los Viajes del Viento” ou “O Abraço da Serpente”) e da estreante Cristina Gallego.

17  – MOSQUITO  de João Nuno Pinto   (sessão Traz Outro Amigo Também)

Zacarias, de 17 anos, sonhava com a glória nas trincheiras em França, onde soldados mostravam a sua bravura a combater na Primeira Grande Guerra. Mas, para seu desgosto, é enviado para Moçambique, para proteger a então colónia portuguesa dos inimigos alemães. Já em África, depois de manifestar sintomas de paludismo, é deixado para trás pelo seu pelotão. Quando finalmente recupera, o rapaz parte mato adentro em busca dos companheiros, descobrindo um país em tudo diferente do que tinha imaginado. Co-produção com França, Brasil e Moçambique, “Mosquito” foi o filme de abertura do prestigiado Festival de Cinema de Roterdão. Segunda longa de João Nuno Pinto (“América”),inspira-se na figura do avô do realizador.

24 – LIBERTÉ de Albert Serra

1774, alguns anos antes da Revolução Francesa, entre Potsdam e Berlim. A Duquesa de Valseley e a Senhora de Dumeval lideram um bando de libertinos rejeitados pela corte francesa após a subida ao trono de Luís XVI. Partem em busca do lendário Duque de Walchen sedutor e livre pensador alemão. A sua missão: exportar para a Alemanha a libertinagem, filosofia das Luzes fundada na rejeição da moral e da autoridade. Prémio Especial do Júri (Un Certain Regard – Festival de Cannes (2019)

A atividade do Cineclube de Joane irá decorrer seguindo as recomendações da Direcção-Geral de Saúde, em estrita colaboração com a Casa das Artes de Famalicão, através dos procedimentos recomendados, nomeadamente a redução da lotação da sala, lugares marcados de modo a manter-se a distância física adequada, uso de máscara no interior das instalações, desinfecção regular e reforço da limpeza nas áreas de contacto manual, disponibilização de gel desinfectante para as mãos, para utilização dos espectadores.

Fontes: Cineclube de Joane, Comunidade Cultura e Arte, Diário de Notícias

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Categories: Agenda, Cultura

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