Ilídio Torres

Olimpismo | Sentença de Salomão: a vitória partilhada de Lauri Lehtinen nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1932

Olimpismo | Sentença de Salomão: a vitória partilhada de Lauri Lehtinen nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1932

 

 

Nunca será tarde reconhecer o erro.

O fenómeno é mais notório no caso concreto de um desportista, mesmo à custa de muito esforço e sacrifício.

O episódio a desvendar, por certo do conhecimento de alguns, é um exemplo revelador dos princípios e da cultura desportiva de um atleta. Temos de aceitar que, infelizmente, muitas vezes, a verdade desportiva flutua consoante as necessidades e já não é prioridade ou virtude que distinga um atleta.

Faltar à verdade desportiva é frequente e vulgarizou-se.

Nos meios competitivos, no chamado espetáculo, na competição mais assanhada até pode trazer benefícios – então, toca a fingir!

Assim sendo, não admira que a hipocrisia chegue ao ponto de um condutor de homens que é o técnico possa afirmar que nunca dirá a um atleta seu para “não se atirar para o chão”!

Hoje, o carácter de um atleta pode ser ajuizado não pelos seus valores morais, culturais e intrínsecos ao próprio desporto, mas pelas suas capacidades atléticas e o seu rendimento. Não se estranhe que as ditas seleções estejam recheadas de “mau carácter” e que os seus melhores atributos sejam a capacidade futebolística de fazer golos ou defendê-los! Continuam a merecer as convocatórias mesmo depois de haverem sido condenados por ingestão de produtos proibidos ou por agredirem árbitros! Pessoalmente não me revejo nessas condutas mesmo reconhecendo que, como adepto, isso possa trazer benefícios diretos.

Voltemos ao que me animou esta semana.

Aconteceu nos Jogos Olímpicos de 1932, de Los Angeles, Estados Unidos da América, e refere-se à corrida dos cinco mil metros que foi ganha pelo atleta finlandês Lauri Lehtinen, ao tempo recordista mundial daquela distância. Na hora em que foi realizada, os últimos momentos da prova foram dramáticos, em termos de desfecho classificativo. A par de Lauri, corria o norte americano Ralph Hill que, naquele momento se encontrava junto ao finlandês, em termos desportivos, na corda ao lado, isto é na pista um e dois, respetivamente. Quando a corrida se aproximava do fim, já na reta final, Ralph, denotando mais potencial físico, tentou ultrapassar o nórdico pelo lado de fora, como é costume dizer-se, mas foi impedido de o fazer. Nova tentativa, desta vez pela direita, isto é, pelo lado de dentro da pista, sem êxito. O atleta finlandês gorou novamente os intentos de Hill, empurrando-o, lateralmente. A multidão que enchia o estádio deu conta do modo antirregulamentar como decorreu aquele final e como venceu o nórdico. Por sua vez, a Delegação norte-americana, perante a evidência da corrida e dos factos ocorridos nem se deu ao cuidado de apresentar algum protesto por achar que os Juízes teriam que desclassificar Lauri Lehtinen pelas irregularidades cometidas. Todavia ficaram surpresos quando os referidos assim não entenderam e o finlandês foi declarado vencedor dos cinco mil metros.

O menos interessante viria a acontecer na cerimónia oficial da entrega dos prémios, completamente diferente das habituais. No momento em que o vencedor era anunciado, o público vaiou por completo o atleta finlandês, um barulho ensurdecedor que abafou por completo todo o cerimonial decorrente e pelos altifalantes do Estádio foi pedido ao público que mudasse o seu comportamento, fazendo-se menção do estatuto desportivo, das regras e deveres do bom anfitrião: “Por favor recordem-se de que estes senhores são nossos convidados”.

O atleta finlandês que havia vencido a corrida, reconhecendo o seu comportamento resolveu confessar publicamente com um gesto de extrema humildade e de homem. Solicitou ao americano Hill que se colocasse junto a si no ponto mais alto do pódio, gesto que foi recusada pela organização. A cerimónia acabou com o público a manifestar o seu desagrado.

Mas a consciência de Lauri ficaria para sempre a fervilhar.

Terminados os Jogos, de regresso à Finlândia, tomou uma decisão que espantaria o mundo inteiro, a mais acertada. Já que os homens da organização não permitiram na cerimónia a presença de dois homens no primeiro lugar do pódio, resolver fazer como o havia feito Salomão – cortou a medalha ao meio e tratou de enviar uma das metades a Ralph Hill para os Estados Unidos. Não sabemos se o americano aceitou a sua metade – certamente que sim.

Estes jogos Olímpicos de Los Angeles, de 1932, decorreram de 31 de julho a 7 de Agosto.

Foram preparados com o fito de serem os melhores até então. Porém, nem tudo correu bem apesar do dinheiro gasto e do cuidado da organização.

 

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Categories: Crónica, Desporto

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Ilídio Torres

Membro da Academia Olímpica de Portugal, órgão do Comité Olímpico de Portugal.

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