Luís Filipe Sarmento

Literatura | A libertação do livro e a libertação de quem lê

Literatura | A libertação do livro e a libertação de quem lê

 

 

Tudo o que se poderá dizer sobre a escrita correrá o risco de cair no abismo do lugar-comum, um pântano de clichés e de banalidades. A escrita não pode submeter-se a esse lamaçal. Whitman disse que o mundo é uma explicação da escrita. Quando se transmuta em livro ficará sempre dependente da generosidade dos leitores ou não resistirá à erosão do esquecimento. Esta é a condenação geral do escritor. E será, provavelmente, a condenação de tudo o que entendemos hoje por cultura. Mas também poderá não ser. Se depender do poder político instalado será. Se continuar a ser uma fonte de revolta e mudança não será. E o mundo em mutação continuará a ser uma explicação da escrita que se fará. O leitor, enquanto existir será, também ele, dependente da escrita. O não-leitor não será.

Com a queda abissal da venda de livros no chamado mundo ocidental caminhar-se-á para um ocultamento do mundo, ou seja, para a fabricação de seres ignorantes e facilmente manipuláveis. Serão os novos escravos suburbanos felizes e contentes submetidos à violência do medo e à gestão dos poucos recursos onde ficarão de fora, obviamente, o livro, o conhecimento, a sabedoria que poderia guiá-los à sua libertação. O que não interessa a qualquer nova ordem mundial que ambicione controlar as riquezas do planeta. Quanto mais hegemonia política houver mais prisioneiros serão todos aqueles que descenderão dos que desprezam hoje o livro. Luta aparentemente inglória do escritor que continuará a existir no seio de focos de resistência. É o que hoje já temos entre nós. Franjas residuais de leitores onde se encontram os escritores que entendem a escrita como explicação do mundo e o mundo como explicação da escrita. O que é paradoxal é que a escrita nunca moveu tantas paixões como agora. As tecnologias digitais e as redes sociais alimentam o sonho de se ser escritor a uma multidão que paradoxalmente não lê. Donde o que produzem é um amontoado de lugares-comuns, de banalidades, de clichés porque não sabem que a Literatura é uma reflexão profunda sobre a condição humana como resultado, hoje, de tudo o que foi ontem, com todo o ontem, nas palavras de Rilke. Só o século XX produziu milhares e milhares de livros de Literatura, de grande Literatura, que hoje se despreza, que se desconhece, que não se reedita porque há cada vez menos leitores. E o século XXI também já produziu grande Literatura que se abandona.

O escritor, antes de sê-lo, terá necessariamente de ser leitor. Ou nunca será escritor. Se todos os que gostam de escrever umas versalhadas comprassem de três em três meses livros de poesia, que os ajudaria a perceber que escrever poesia é uma coisa muito séria, a poesia seria bestseller. E não é. Longe, muito longe disso. E porquê? Porque desconhecem, por preguiça ou ignorância, que o livro é a fonte de toda a riqueza espiritual do indivíduo. E quem abdica dessa fonte sujeitar-se-á a viver numa espécie de purgatório democrático, ou seja, na ilusão de que vive plenamente. A libertação do livro dos armazéns dos editores e distribuidores é e será sempre a libertação de quem lê. O resto é o folclore da tirania.

 

Obs: Pré-publicação de ‘Rouge – Utopie’ (2020) (excerto)

Imagem: Isabel Nolasco

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Categories: Crónica, Sociedade

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