Luísa Monteiro

Viver | Um ovo cozido continua a ser um espantoso exemplar da morte

Viver | Um ovo cozido continua a ser um espantoso exemplar da morte

 

 

… tive um professor na primária que dava Pitágoras e Platão; eu respondia sempre literariamente. “O que é o amor?” — uma nêspera, respondia eu. “E a morte?” — um ovo cozido, dizia sem a menor dúvida…

Sempre gostei do inesperado, abomino qualquer moda; em 99 achei divertido o Manifesto do Tom McCarthy — pós-humanista, parecia-me – e traduzi-o, por me fazer lembrar os thanatanáuticos de que falava o velho Lorenzo de Zavala.

Tom já não é jovem. Já não somos jovens. Mas um ovo cozido continua a ser um espantoso exemplar da morte.

“Nós, o Primeiro Comité da Sociedade Necronáutica Internacional, declaramos o seguinte:

1. Que a morte é um tipo de espaço que pretendemos mapear, entrar, colonizar e, eventualmente, habitar.

2. Que não há beleza sem morte, a sua imanência. Vamos cantar a beleza da morte – isto é, a beleza.

3. Que devemos assumir, como nossa tarefa, trazer a morte ao mundo. Vamos traçar todas as suas formas e meios: na literatura e na arte, onde é mais aparente; também na ciência e na cultura, onde se esconde submersa, mas não menos potente para o ofuscamento. Tentaremos aceder às suas frequências – por rádio, internet e todos os sites onde os seus processos e avatares estão ativos. No quotidiano, em menor grau, a morte move-se: nos acidentes de trânsito, realizados e evitados por pouco; em carros funerários e funerárias, em grinaldas de floristas, nos frigoríficos do talho e em lixeiras de produtos em decomposição. A morte move-se nos nossos apartamentos, através dos nossos ecrãs de televisão, fios e tubagens dentro das paredes e dos sonhos. Os nossos próprios corpos não são mais do que veículos que nos transportam inelutavelmente para a morte. Somos todos necronautas, sempre, já.

4. O nosso objetivo final deve ser a construção de uma embarcação (1) que nos leve à morte de tal maneira que possamos, se não vivermos, pelo menos persistir. Com a fome, a guerra, as doenças e o impacto dos asteróides ameaçando acelerar bastante a passagem universal para o esquecimento, a única oportunidade de sobrevivência da humanidade reside na sua capacidade, ainda não sintetizada, de morrer de maneiras novas e imaginativas. Entreguemo-nos completamente à morte, não em desespero, mas com rigor e criatividade, olhos e bocas bem abertos, para que possam ser preenchidos pelos poços profundos do Desconhecido.

(1) Este termo deve ser entendido da maneira mais versátil possível, podendo designar um conjunto de práticas, como a usurpação de identidades e personas de pessoas mortas, o desenvolvimento de códigos genéticos ou semânticos especialmente adaptados, com base na recolha meticulosa de dados relativos a mortes certas e específicas, a reabilitação do sacrifício como um ritual social aceite, a perfeição, o patenteamento e a eventual distribuição generalizada de ThanadrineTM (2), ou, de facto, a construção de uma embarcação real – todos os itens acima são projetos atualmente diante do Primeiro Comité.”

(2) Substância usada para cumprimento da eutanásia.

 

Imagem: Sebastien Rippol

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Categories: Crónica, Sociedade

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