Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | Equívocos, dissensos, desvios (Caderno da Residência, n.º 2)

Dar Coisas aos Nomes | Equívocos, dissensos, desvios (Caderno da Residência, n.º 2)

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1 de Agosto, Montemor-o-Novo

(tarde)

Galerias, museus, salas de espectáculo – espaços afins nunca foram propriamente a minha praia. Não por desinteresse, muito pelo contrário: os objectos artísticos, as artes do palco, a dramatização, o cinema, fizeram sempre parte das minhas constelações pessoais, ainda que numa relação muito contígua à experiência de ler um livro. Ou seja, em solidão, segundo temporalidades e ritmos que me são próprios, sem que a presença de outros, em redor, desferisse na relação com o objecto – quadro, filme, texto literário – a injunção simbólica, os condicionamentos socioculturais que fixam a expressão artística em determinados contextos e lugares.

Por exemplo: visitar um museu tem o seu charme, mas a pluralidade dos objectos nele contidos tende a alienar-me daquilo que me circunda – e sem esquecer a cinta turística que circunscreve o espaço e, também, condiciona o olhar, fazendo-o sobrevoar preguiçosamente as coisas. Quer dizer: como me demorar num só quadro, a ponto de não lhe denegrir a dignidade de estar exposto? Não é uma questão de tempo cronometrado, de quanto dura a apreensão estética de uma instalação: trata-se, isso sim, de criar relações com o que vejo sem me sentir cerceado pela instantaneidade, pela pressa, por todos os estímulos que, mesmo estando offline, nos digitalizam os modos da presença com as coisas e com os outros. Somos homine facebookus mesmo quando o smartphone não tem bateria – a ponto de uma ida ao museu só ganhar estatuto de acontecimento se puder ser fotografada, partilhada no momento, em ascese para a cloud ou para os insta-stories, essas vanitas sem rastro.

(Dito isto, e puxando o lustro à facécia bairrista que nunca tenho, o espaço da Ala da Frente, em Famalicão, é nitidamente um exemplo à parte destas sensologias tão frivolamente contemporâneas. A galeria consiste tão-só numa sala de modestas dimensões, acolhendo em exclusivo um artista plástico português e uma determinada obra do seu percurso. Não tem espaço para amplas retrospectivas, nem grandes aparatos autorais: uma peça apenas, uma série fotográfica, uma escultura, um apontamento, uma instalação. Entra-se, e é isso: está-se numa sala, entre o vazio e a obra exposta, numa relação de cumplicidade com esses elementos. E a cumplicidade não implica necessariamente uma adesão positiva àquilo que lá se encontra: agrada-me a ideia de me sentir cúmplice da leveza férrea de Rui Chafes, não porque a sua obra me deixe deslumbrado e de queixo caído, mas, pelo contrário, por me expulsar, por me franzir o sobrolho, por exigir mais silêncio do que aquele que me é habitual e necessário. Mas é isso: uma cumplicidade pode incluir atrito. O importante está na relação, em criar condições para que essa relação se afirme e seja sempre possível. A questão de pensar quando é que a arte se dá, com rigor, paixão e consequência, em vez de tagarelar sobre se é ou não é arte, se é mais ou menos acessível ao público, se os mercados estão contentes e nós também. Quando a arte acontece, acontecemos também com ela. É uma forma de conhecimento, não um devaneio para freaks iluminados ou para gente séria que toma o drink ao fim da tarde. Eduardo Prado Coelho dizia que quem não entende isto, não entende nada da vida.)

 

29 de Julho, Montemor-o-Novo

(15:00)

E porquê este arrazoado todo sobre museus e galerias e cineteatros?

Pelo seguinte: o convívio com as várias experimentações da Terceira Pessoa – o espectáculo Kurt Cobain, o Hey You, o Inscrição, o livro Dizer adeus às coisas… – alterou de modo muito especial a escala da minha relação com os espaços, os públicos e os objectos artísticos. No âmbito deste projecto – Rastro, Margem, Clarão –, fez-se esta luz: enquanto discutíamos as várias possibilidades de realização do livro referente aos três trabalhos fotográficos (Valter Vinagre, Rui Dias Monteiro, Susana Paiva) e aos três respectivos ensaios (Eunice Ribeiro, Vítor Ferreira, eu), ficou claro que a pretensa unidade de um livro, assegurando uma unidade explícita do projecto, mais depressa contribuiria para se desestabilizar. Como se o objecto-livro, na sua evidente unicidade, criasse uma coesão postiça, considerando ter dentro de si, uns sobre os outros, três modos distintos de pensar e realizar a fotografia. A coesão é implícita tanto quanto as três duplas integram o mesmo projecto, partindo da escrita de Rui Nunes – mas o facto de ser implícita não torna a coesão necessariamente exequível, nem visualmente eficaz. Tijolos há muitos, nas obras e em obras. E como disse o Valter, no seu jeito muito pão-pão-queijo-queijo: o livro que desejamos não é um catálogo da exposição que faremos, mas um objecto autónomo. Um objecto que, “sem ter uma cinta à volta” a exteriorizar que estamos todos no mesmo barco, faz questão de ser dissensual na relação consigo mesmo e com as outras criações do Rastro. Que esse dissenso enriquece o próprio projecto, sem esmorecer um princípio tácito de unidade, deixando o barco à deriva. Pelo contrário: três derivas diferentes merecem três livros distintos, um por cada dupla fotógrafo/ensaísta.

Quem está de fora deste processo provavelmente chegará a estas linhas e perguntar-me-á, de ar enfastiado: sim, e daí?

E daí que o processo de criação em grupo, em matérias que me interessam mas que galgam as margens do que me é familiar, seja esta coisa bizarra, às vezes surreal, de ter uma dúzia de pessoas numa sala a ponderar uma cor ou o ziguezague de uma linha.

E daí que, para leigos como eu, o processo de criação se torne cada vez mais a criação de um processo. Tal como para ler Rui Nunes ou outro autor que me seduza, para ler melhor, isto é, intelectual e emocionalmente, para que conhecer seja pathos, um conhecimento apaixonado, eu procuro imaginar o autor a escrever, a evidência física da mão sobre o papel, a relação entre o corpo e a palavra. Imaginar o autor a demorar-se, com a veemência que lhe é própria, numa frase como “O mal é a luz que te ilumina” ajuda-me a pensar com ele, quase como coautor dessa frase, até fingir que a frase é minha (um fingimento, porém, como uma máscara que liberta, não que aprisiona). É o processo de criação dessa frase que se traduz, ao mesmo tempo, na criação de um processo de leitura: ler, devir intruso do texto, sofrer contágio. Às vezes, transcrever frases ajuda a que me relacione com coisas que, de outro modo, me passariam ao lado.

“E daí o caralho”, como diria alguém no andar de cima. Muito sabiamente.

 

1 de Agosto, Montemor-o-Novo

(10:55)

“Tudo o que não é claro na nossa cabeça resulta depois em gestos turvos.” É uma frase da Susana Paiva, fotógrafa. Saiu-lhe no seguimento de uma conversa cujo assunto tinha menos que ver com livros e imagens, do que com maneiras de se estar na vida e na nossa relação com os outros. Sem esquecer que esses outros somos também nós, o nosso novelo enrolado para o lado de dentro. E quão grande é a responsabilidade de aprender a calibrar essas vozes, para que nem sempre falem umas por cima das outras. Dito de outro modo: nenhuma fala se dá se não houver uma escuta. E toda a expressão é sempre um comprometimento ético connosco, com quem nos ouve e com o mundo.

Só em aparência é que uma frase como aquela seria contraditória em alguém que provoca e recebe imagens tão carregadas de gestos turvos. As fotografias da Susana fazem da imprecisão uma ciência do visível: ver o real não significa acolher o imediato de um referente, mas o que é anterior – e interior – às condições que desencadeiam essa imediaticidade. O visível nas suas múltiplas camadas, o nevoeiro imanente ao dia mais claro e mais cheio de sol. Portanto: gestos turvos, ambivalentes, que a película fotográfica, na verdade, não fixa de uma vez só e para sempre – porque depois há todo um processo de intervenção mecânica – o “esventrar” da imagem, como diz a Susana – que abre as imagens a possibilidades radicalmente inesperadas. O infinito num grão de areia.

Quem entrasse na sala onde falávamos, imaginar-nos-ia a brincar aos trabalhos manuais: cortes, recortes, polaroides abertas, estragadas, x-actos, pedaços de fita-cola agarrados à mesa, ao meu antebraço. Esse é o lado que a Susana controla na sua exploração artística: a decisão de riscar, apertar, dobrar, amolgar, mergulhar na água, refrigerar a película fotográfica. A parte que opera sem o seu conhecimento é a dos efeitos de todas as intervenções anteriores: quando a matéria alucina, agindo segundo temperamentos instáveis, e nos acaba por revelar, re-velar e velar coisas insuspeitas. Uma vontade imanente à matéria que escoa para fulgurâncias espantosas. “Quando há desvios”, resume a Susana. “Esse desvio da beleza é o que me interessa.”

(19:23)

Anos do Esteves. Mestre Valter na cozinha. Imaginar alguém sorrir lendo esta frase faz-me sentir bem.

Fotografias: Tiago Moura | arquivo da Terceira Pessoa

Sobre o projecto Rastro, Margem, Clarão, este ensaio a respeito do primeiro encontro da equipa, no espaço da Fábrica da Criatividade, em Castelo Branco: https://vilanovaonline.pt/2020/01/18/dar-coisas-aos-nomes-deita-o-livro-fora-e-le/

Ver também “A fundar distâncias (Caderno da Residência, n.º 1)”: https://vilanovaonline.pt/2020/07/31/dar-coisas-aos-nomes-a-fundar-distancias-caderno-da-residencia-n-o-1/

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Categorias: Crónica, Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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