Teresa Salomé Mota

Mobilidade | Em Braga há escolhas que não podem ser feitas

Mobilidade | Em Braga há escolhas que não podem ser feitas

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Braga é uma cidade que não gosta das pessoas. E por Braga deve entender-se os executivos camarários que, ao longo dos anos, transformaram a cidade num lugar não só pouco convidativo como perigoso para quem nela se desloca sem ser de automóvel. Anualmente, os atropelamentos em Braga chegam a atingir as dezenas, o que não é de espantar se tivermos em conta que a cidade é atravessada por duas vias rápidas.

De pouco parecem valer a indignação dos cidadãos e as críticas e os apelos de movimentos da sociedade civil como, por exemplo, a Braga Zero Atropelamentos, e de associações que lutam para uma mobilidade mais leve e sustentável na cidade, como a Braga Ciclável. O grande objectivo da Braga Zero Atropelamentos, conseguir, à semelhança do que já aconteceu em outras cidades europeias, que não haja vítimas mortais ou graves devido a atropelamento em Braga, parece hoje tão longe como no momento em que o movimento foi criado. O excesso de velocidade com que se circula na cidade é um problema crónico cuja atenuação é contrariada pela existência de autênticas ‘auto-estradas’ que a atravessam e pela ausência de uma fiscalização eficiente.

Já a Braga Ciclável debate-se há anos com a debilidade estrutural do concelho no domínio da mobilidade e com a falta de vontade da Câmara de Braga em efectivar as medidas propostas para que, na cidade, peões e ciclistas não sejam preteridos relativamente ao automóvel. Eis senão, quando parecia que uma das medidas consideradas prioritárias neste contexto é anunciada, a extensão e remodelação da ciclovia, ficamos a saber que é necessário abater dezenas de árvores num dos trechos, a “Variante da Encosta” (vivemos tempos em que nomes deste tipo só podem ser sinónimo de civilização)! Quantas árvores exactamente, ninguém sabe, nem a própria Câmara, pelos vistos: os números dependem de quem, de entre o executivo camarário, se pronuncia e do grau de descaramento que possui!

Tivemos assim a confirmação de algo de que já desconfiávamos: Braga, além de não gostar de pessoas, também não gosta de árvores! No centro histórico da cidade, os espaços verdes são quase inexistentes; a ‘poda’ negligente de árvores em Braga é notícia nacional; o abate de árvores é quase frequente, e o plano de arborização com flora autóctone do Monte Picoto parece ter desaparecido, levando pelo caminho dezenas de milhares de euros.

Quem sabe sobre o assunto, afirma que não há necessidade de abater árvores para fazer uma ciclovia. Que há espaço suficiente para a existência de duas ciclovias, uma em cada sentido, sem necessidade da eliminação de seres vivos, alguns com cerca de 40 anos. Ou seja, tal como pensado, um projecto necessário no contexto de uma mobilidade mais sustentável em Braga, acaba por colocar em causa a existência de um melhor ambiente na cidade, uma vez que a morte de árvores significa menos consumo de dióxido de carbono, menor escoamento e infiltração das águas pluviais e menor conforto para pessoas e animais.

Em Braga, não deveria ser preciso escolher: as árvores ou uma mobilidade mais de acordo com uma verdadeira vivência da cidade! Proceder deste modo é andar para trás a passos largos no caminho de transformar Braga numa cidade mais ecológica, mais saudável e mais justa.

 

Imagem: Carlos Dobreira

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Categorias: Crónica, Política

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Teresa Salomé Mota

Licenciada em Geologia, mestre em Ciências do Ambiente e doutorada em História e Filosofia da Ciência. Foi professora do ensino secundário e, posteriormente, investigadora no Museu Nacional de História Natural e da Ciência e no Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia. Membro do Núcleo Territorial de Braga do partido LIVRE Atualmente, exerce atividade profissional numa empresa de serviços de Geologia e é formadora.

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