Ilídio Torres

Olimpismo | Dorando Pietri na Maratona dos Jogos Olímpicos de Londres 1908: um pasteleiro com sorte, ou não!

Olimpismo | Dorando Pietri na Maratona dos Jogos Olímpicos de Londres 1908: um pasteleiro com sorte, ou não!

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Uma prova exigente, muito difícil.

Alguns quilómetros ainda por vencer e os atletas a evidenciarem, mais intensamente, os efeitos de tão custoso desempenho. Decorria a Maratona dos Jogos Olímpicos de Londres, em 1908, e a temperatura ambiente que se fazia sentir nessa derradeira semana de Julho, inesperada e nada habitual naquele ambiente citadino, começava a tornar mais notório o esforço despendido. Nitidamente estafados, os atletas iam acusando uma natural desidratação, uma menos-valia para o que ainda faltava percorrer.

Em determinado momento, já com a meta muito próxima, um atleta arrastava-se denotando muita dificuldade na sua progressão. Havia alcançado a frente da corrida e no comando, tinha os olhos assestados naquele tão desejado fim, ali tão perto. Alcançou a porta do estádio e, completamente trôpego, enfiou-se pelo lado errado – estatelou-se no início da pista, completamente exaurido, tendo recebido, de imediato, a assistência de alguns juízes mais interessados em valer ao infeliz do que cumprir os regulamentos.

O público presente mexeu-se no estádio e já só tinha olhos naquele depauperado ser humano, o italiano Dorando Pietri, que continuava a receber a ajuda dos juízes de chegada e até de responsáveis médicos presentes. Foram mais quatro, as vezes que voltou a tombar na pista e tantas as que voltou a levantar-se ou a ser levantado, um último esforço em direcção à meta que acabou por alcançar, amparado. Após cortar o almejado risco, desmaiou e foi transportado, em maca, para o posto de socorros. O italiano completava a prova com um tempo de duas horas, cinquenta e quatro minutos e quatro segundos, mas para os derradeiros quinhentos metros foram necessários quase dez minutos!

Era o vencedor da Maratona – o segundo a chegar foi o norte-americano Johnny Hayes. O declarado campeão era o italiano Dorando Pietri, oriundo de uma família de camponeses que, em 1879, se radicou em Capri com a intenção de se entregar ao comércio de frutas e legumes – pai, mãe e quatro filhos. Um deles, o Dorando, optou pelo ofício de pasteleiro e ou de padeiro.

O jovem tinha duas paixões: a bicicleta e correr a pé pelas ruas de Capri, um gosto que mais se acentuou no dia em que foi assistir a uma prova local que incluía um dos mais famosos de então, o italiano Péricles Pagliani. Entusiasmado, em determinado momento, não resistiu e desatou a correr ao lado do ídolo italiano, vestido como estava, sem qualquer adereço desportivo. Teimoso, resistiu e cortou a meta ao lado de Péricles! Esta louca experiência seria o despertar para a modalidade e o embalo futuro para a sua inscrição numa prova de três mil metros, em Bolonha. Participou e ficou em segundo lugar, o tiro de partida para a sua entrega às corridas. Deu, então, início a uma espécie de plano de treinos, depois, os seus primeiros triunfos, em Itália e na França. Foi experimentando maiores distâncias até que, em 1906, ficou apurado para um tipo de Jogos Olímpicos Intermédios a realizar em Atenas, uma prova em que desistiu devido a problemas intestinais quando se encontrava na liderança da corrida. Seguiram-se mais participações e mais vitórias até atingir o topo das provas de fundo italiano, a sua carta de recomendação para Londres.

Antes disso, em 1907, venceu a prova dos cinco mil metros dos Campeonatos Italianos.

A Maratona daqueles Jogos Olímpicos de Londres foi disputada no dia 24 de Agosto de 1908, com a partida muito chegada ao Castelo de Windsor. Logo no início, Dorando Pietri, tomou a dianteira e deu a entender que estava apostado em ganhar a corrida. Dez quilómetros vencidos, quatro atletas seguiam isolados: o já citado italiano e os britânicos Lord, Price e o sul-africano Hefferson. Não tardou que os ingleses encostassem ao passeio, decidindo terminar ali a sua aventura. Por sua vez, o sul-africano, suando por quantos poros tinha, resolveu aceitar uma bebida refrescante que um espectador mais entusiasmado lhe proporcionou – uma garrafa de champanhe! A menos de meia milha do estádio não aguentou uma forte dor de barriga – a bebida gasosa havia-lhe provocado uma tremenda volta nos intestinos – ficou para trás!

Foi então que o italiano, livre de concorrência, forçou o andamento, mas “gripou os rolamentos”.

Após a sua presumível vitória nessa prova da maratona, o pior estava para acontecer. Apesar de vitoriado e considerado primeiro, choveram os protestos e a guerra instalou-se na secretaria. Os dirigentes norte-americanos pediram a desclassificação do italiano baseados no seu desempenho, à chegada, considerada anti-regulamentar, mais concretamente o comportamento dos juízes de pista e dos médicos de serviço que ajudaram, sem dúvidas, o italiano a cortar a meta. De imediato, cientes da consistência da reclamação dos responsáveis, os americanos, convencidos de que o pasteleiro iria ser desclassificado, John Hayes, o americano que havia cortado a meta em segundo lugar, saiu do Estádio Olímpico aos ombros dos seus compatriotas e aclamado campeão!

E, face aos regulamentos, Dorando perdeu mesmo a corrida.

No dia seguinte, já recuperado e livre de ter embarcado para o outro mundo, compareceu no Estádio e ouviu da própria Rainha Alexandra as seguintes palavras que iriam modificar por completo a sua vida futura:

“Não tenho medalha, nem diploma, nem uma coroa de louro para lhe dar, senhor Pietri, mas, para que não leve só más recordações do nosso país, receba esta taça de ouro, como prova da nossa admiração pelo seu comportamento”.

Entusiasmado, o italiano deu uma volta de honra ao Estádio, vibrantemente aclamado pelo público, como se fosse o verdadeiro campeão olímpico da maratona. O jornal londrino Daily Mail abriu uma subscrição pública que rendeu 300 libras, uma considerável importância para a época.

Posteriormente, Dorando enveredou pelo profissionalismo.

Numa das viagens que efectuou aos Estados Unidos, voltou a correr a maratona e a ganhar a John Hayes por duas vezes, em 1908 e 1909.

Foi considerado um grande maratonista.

Acabou a vida não se sabe como, dizem que como motorista de táxi, na cidade italiana de Capri, sem um vintém, vítima de um golpe financeiro de um seu irmão de sangue com quem havia estabelecido uma parceria na hotelaria – outros dão-no como responsável por uma oficina de automóveis e ainda mais que ficou verdadeiramente rico, dono de uma cadeia de lojas de pastelaria!

Viveu os últimos anos da sua vida em Sanremo onde encontraria a morte vitimado por um ataque cardíaco – tinha cinquenta e seis anos de vida- nasceu a 16 de Outubro de 1885 e faleceu a 7 de Fevereiro de 1942.

Um homem de pouca sorte!

 

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Categorias: Crónica, Desporto

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