Agostinho Fernandes

Pandemia | Voltar à normalidade…. Que normalidade?…

Pandemia | Voltar à normalidade…. Que normalidade?…

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Pouco a pouco, em Portugal e no mundo… a Covid-19 vai-nos deixando em paz mas de sobreaviso… apesar de vozes mais cientificamente autorizadas nos prevenirem de que todo o cuidado será pouco… pois que ele teima em continuar imprevisível, invisível e intangível por todos os cantos do planeta Terra.

Aparentemente fomos apanhados de surpresa mas a voz e os avisos repetidos do secretário-geral da ONU eram preventivos mas periódicos e resilientes, manifestos que eram e são ainda os abusos sem lei e freio que teimamos em repetir no dia a dia do nosso quotidiano… pouco usando a cabeça e repetindo gestos costumeiros e práticas ancestrais… obcecados que andam todos com o crescimento económico.

Covid-19: terror e sossego

De um dia para o outro, a Covid impôs a ditadura do terror e nações e governos tiveram que adotar procedimentos de ordem variada, chegando a ficar sem algum valor ou apenas valor residual o deus petróleo e toda a forma organizacional da economia mundial. As grandes cidades do mundo, desde Tóquio, Shangai, Nova Deli e Madrid… começaram a ver de novo o céu azul, o nível de poluição da atividade humana descer drasticamente como que por milagre, ouvindo-se novamente os pássaros nas cidades de Paris, Londres e Lisboa e até os gatos dormem por aí boas sonecas nos bancos de jardim… pelo sossego inaudito a que o clarim viral deu nova ordem para o relaxamento mundial.

Nunca passámos semelhante prova desde a 2ª Guerra Mundial, uma verdadeira pandemia que chegou a toda a parte, pondo em causa o modo generalizado e irrefletido como vivemos e que estultícia grosseira seria se, de agora em diante, o regresso à tão badalada e consensual “normalidade”, se traduzisse em retomar e repetir maquinalmente, como procedem os animais na generalidade e desde o começo do Mundo, em imitar e reproduzir todas as atividades e comportamentos anteriores e que a tanta desordem dos elementos naturais conduziram.

Mudar de rumo

Não são os ditos animais irracionais que a isto conduziram mas sim aquele que se diz o rei da criação e o único racional. Pasme-se!… No ar, terra e mares… nunca os animais provocaram a alteração substantiva da ordem das coisas. Repetir daqui em diante e continuamente o status a que chegou a humanidade seria emitir um atestado à burrice humana. Há que parar e pensar e aprender com as dificuldades. Não vamos mudar tudo já. Não seria possível… mas temos de começar por algures e para isso estão os governos e os cientistas, havendo que inverter muito do nosso comportamento global e hábitos de hiperconsumo… se é que a espécie humana quer mudar de caminho e rumo… que chega de exploração desenfreada de recursos naturais sem limites, de inquinação de rios, mares e fontes, de uso e abuso de pesticidas, incêndios criminosos, poluição aérea e automóvel, uso e abuso de carburantes poluentes… enfim, uma autêntica barbaridade, só semelhante a uma dança macabra de percevejos em enxerga podre.

Recursos: exploração e desperdício

Os recursos da Terra chegam para todos e bem que é mais que urgente pensar em todos aqueles que ainda não chegam à mesa pois que todo o Homem é meu irmão. Madre Teresa de Calcutá dizia que não tinha nada contra os ricos quando vivia na Índia, terra de algumas grandes fortunas do mundo e de gravíssimas desigualdades, insurgindo-se mais e sobretudo contra o desperdício de bens e alimentos que se perdem… enquanto morrem 25.000 crianças por dia de fome segundo dados recentes da Unicef. Não à desbastação generalizada de árvores e de que a Amazónia é apenas a ponta do iceberg de uma grande catástrofe ecológica. África tem direito a viver depois de usada, explorada e abusada e escravizada durante séculos pelos grandes colonizadores como Inglaterra, Holanda, Alemanha, EUA e Rússia, Espanha, França, Itália e Portugal, Bélgica, China e Índia e é preciso a ONU e a Unicef para chegar o alimento, saúde e a água a todo o africano. É grande a dívida de todos por África… depois dos milhões de toneladas de ouro e diamantes, madeiras e especiarias que lhes roubámos desde sempre e dos largos milhares de seres humanos que escravizámos …abusámos e separámos, matámos e fomos capazes de práticas cruéis e hediondas…em nome da ganância e orgulhos nacionais… frequentemente em nome da lei e da grei!…

E tudo isto em nome de quê?… Fome, perseguição, intolerância e desprezo são as causas. A quem não emocionam aquelas dramáticas imagens de sofrimento e miséria que nos entram pela porta e janela dentro, dos refugiados e migrantes, das crianças famintas ou daquela que morreu no mar e veio morrer numa praia da Europa rica mas empobrecida de coração e liderança… de bruços na areia, de calções azuis e camisa vermelha… Aylan…era seu nome!… Não há remorsos?!….

Injustiças: um escândalo global

Os lucros excessivos, os dividendos e os juros das dívidas dos países pobres… são um escândalo internacional e em que os principais figurões e mafiosos deste mundo são cordelinhos importantes, a fome e o analfabetismo, as doenças e todo o tipo de racismo ou de discriminação, não pagar o justo salário a quem trabalha e outros tipos de exploração desumana e desenfreada, têm que ser punidas com justiça, isto é, com exemplaridade e severamente em qualquer continente ou parte, pequena ou grande, no mundo do século XXI em que vivemos.

É mais que urgente e prioritário acabar com os paraísos fiscais e instituir uma autoridade pública de finanças por forma a libertar a democracia e os estados soberanos das grilhetas dos desvios financeiros… que aproveitam sempre e só aos mesmos ladrões deste Mundo por muito ufanos, piedosos  e triques que se exibam estes valdevinos roedores. O visionário e grande filósofo inglês Thomas Hobbes, nascido um pouco depois de Shakespeare, bem o intuiu e pressagiou no seu Leviatão quando escreveu que o homem é o lobo do homem como que dizendo, que o homem só quer a companhia do outro para se afirmar e o poder dominar e as razões de discórdia entre os homens são a competição, a desconfiança e a vaidade.  Ainda hoje é uma obra atual e não precisa de ser explicada, manifesta que é a sua evidência.

A mudança começa em nós

Se cada um de nós pensar no planeta-mãe em que habita por alguns anos e se tem familiares e amigos, gosta dos animais que precederam o homem no aparecimento na Terra, aprecia a paisagem e a beleza dos mares e rios… não pode deixar, com humildade e trabalho, de recomeçar a alterar muitos dos seus hábitos ancestrais, de viver sem produzir lixo, de poupar recursos e energias essenciais para todos, de acautelar e respeitar rios e fontes, de ajudar o seu semelhante e partilhar… pois que ouvido foi que estávamos todos no mesmo barco durante esta louca pandemia… só que há barcos e barcos em forma de iates, e quem quer que seja Homem e racional tem que pensar no nosso destino comum.

Sabedoria de mãe

E, como dizia minha mãe, na sua sabedoria acumulada de séculos pelo mimetismo de certas fórmulas simples e arcaicas, mas prenhes de filosofia e ensinamentos… pois que a vida foi madrasta para ela nem lhe permitindo ir à escola por razões de ser a mais velha, ser menina e ficar em casa para ajudar a criar os seus irmãos… “ Tudo é nosso neste mundo e nada é definitivamente nosso. Nascemos nus e morreremos nus e sem levar nada connosco… senão o Bem que eventualmente tenhamos feito ao nosso Irmão”.

Cupertino de Miranda e a ‘normalidade’ do sistema

E remato contando uma história verdadeira e recente e que continua ainda hoje algo palpitante e atual… como uma lição para muitos. Cupertino de Miranda foi um grande famalicense e um dos homens mais ricos de Portugal, com bens, muitas participações e interesses financeiros múltiplos, banqueiro que era e rivalizando com os maiores deste Mundo. Viveu muito… até que um certo dia morreu… e pouco a pouco tudo se desmoronou desde quintas e vinhos, banco e interesses. Resiste a Fundação e todas as obras de bem que ajudou a criar, mas murchou a chama que a alimentava do seu fundador. A sua casa e muitos outros bens sem fim… vão passando de mão em mão e pertencem já a outros, donde se verifica que… se calhar… não precisávamos de tanto para viver bem e ser razoavelmente felizes… coisa que não é muito fácil nem o é quem quer, merece ou pode… neste tempo meio maluco em que nos é dado viver com espanto… graças aos Trump, Bolsonaros, Orbans e Erdogans, Kim, pam, pum…Pings e Pongs… e outros idiotas deste velho e relho Mundo que procura ansiosamente, se possível, repetir a tão desejada e perdida… ”normalidade” do sistema… acrescentaria eu.

Renascer das cinzas

Anormalidade é que é preciso… renascendo das cinzas… pondo em questão o velho sistema carunchoso de séculos… em busca de uma nova ordem internacional e de um mundo novo mais justo e fraterno e em que todo o Homem seja mesmo e onde quer que esteja e situe… como na pureza edénica dos começos, o centro de toda a obra da criação exemplar. Para além do tema da “mudança”… tão grato a Camões e genialmente escrito em original soneto… acabaria com um pensamento do Livro do Desassossego de outro ícone da nossa língua quando escreve que… “buscar o prazer é o que todos fazem na vida e o único vício negro é fazer o que toda a gente faz”… e há sempre aquele dito popular que remata… “Para melhor está bem, está bem… para pior já basta assim!”…
Imagem: FamaTV

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Categorias: Crónica, Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Agostinho Fernandes

Agostinho Peixoto Fernandes nasceu em Joane, em 1942. Após a instrução primária, ingressou na austera Ordem do Carmo, em Viana do Castelo, tendo terminado a licenciatura em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Como professor do ensino Secundário ocupou, a partir de 1974, vários cargos de gestão em estabelecimentos de ensino. Entre 1980 e 1982 foi vereador da Cultura, pelo Partido Socialista, na Câmara Municipal de Famalicão, sendo Presidente Antero Martins do PSD, onde alicerçou uma política inovadora nesta área. Promoveu os Encontros Municipais e de Formação Autárquica, fundou o Boletim Cultural. Dinamizou o movimento associativo local. Em 1983 foi eleito presidente da Câmara de Famalicão, cargo que ocupou até 2001. O seu trabalho de autarca a favor da educação, ensino e acção social (foi um dos primeiros autarcas do país a criar no seu concelho uma rede pública de infantários) foi reconhecido em 1993 pela UNICEF, que o declarou “Presidente da Câmara Amigo das Crianças”. Ao longo dos seus sucessivos mandatos – que se estenderam por um período de quase 20 anos – o concelho transfigurou-se. A ele se deve a implantação de importantes infra-estruturas como o Citeve, Matadouro Central, Universidade Lusíada, Escola Superior de Saúde do Vale do Ave, Biblioteca Municipal, Artave, Centro Coordenador de Transportes, Casa das Artes, Museu da Indústria Têxtil e piscinas municipais. Também tomou decisões polémicas, como a urbanização da parte dos terrenos de Sinçães, a instalação de grandes e médias superfícies comerciais à entrada da cidade e a demolição do Cine-Teatro Augusto Correia. Foi um dos fundadores da Associação de Municípios do Vale do Ave, tendo, neste âmbito, enfrentando a maior contestação popular dos seus mandatos com a construção da ETRSU de Riba de Ave. É sócio de inúmeras associações cívicas, culturais e de solidariedade social e foi mandatário concelhio de Mário Soares e Jorge Sampaio (1º mandato) nas suas campanhas à Presidência da República.

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