Raquel Varela

Suicídio | Sem tabus: como chegámos aqui? Como saímos daqui?

Suicídio | Sem tabus: como chegámos aqui? Como saímos daqui?

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A OMS afirma que divulgar o suicídio aumenta o suicídio. Muitos na área estão contra a posição da OMS. Esta directiva foi seguida durante anos, sem contraditório, por quase todos os jornalistas, em várias partes do mundo. Contra ela estão centenas (ou milhares) de profissionais de saúde, entre eles psiquiatras e psicólogos, em todo o mundo, que afirmam a hipótese contrária – temos que falar sobre o suicídio porque isso ajuda a preveni-lo. Em Portugal o Professor Coimbra de Matos é contra a posição da OMS, em França Dejours também, são duas referências mundiais no campo da psiquiatria.

Não quero falar sobre o suicídio do actor Pedro Lima, porque não posso, desconheço totalmente os contornos do mesmo e é preciso um grupo muito especializado de cientistas de várias áreas para se compreender, ao longo de muito tempo de pesquisa, porque alguém se matou. Resta-me enviar os sentimentos à familia e aos próximos. Mas é evidente que ele nos convoca a todos, e por isso choca-nos mais. Trata-se não só de um de nós – ser humano -, mas uma figura pública do mundo da cultura. Que se suicidou no meio de uma profunda crise económica, cultural e sanitária da humanidade. Não quer dizer que tenha sido por qualquer uma destas razões que aconteceu, mas cada um pensou em si, nos seus, na humanidade e na terrível decadência social com que todos os dias nos deparamos. O que quero aqui defender é que se ponha fim ao tabu. E se abra a hipótese de falarmos abertamente sobre o tema, não no caso particular, mas no geral. No geral ocorre-me dizer algumas coisas:

Há um tipo de suicídio que tem subido sistematicamente desde os anos 90. O suicídio no trabalho (ou em casa, na rua, mas por causa do trabalho). Isto mexe com questões profundas da organização competitiva do trabalho, o homem como lobo de Homem está sempre em risco. Só, desamparado, ainda que cheio de gente no local de trabalho. Os métodos de gestão, a avaliação de desempenho individual, a precariedade, o assédio moral, tudo isso é um caldo catastrófico de mal estar. Quando há um suicídio no trabalho é porque há um mal-estar generalizado nesse trabalho em quase todos os outros que não se suicidaram, o suicídio é como que a ponta do icebergue que mostra um método de trabalho tóxico. O que propõe Dejours e a sua equipa é que se abra uma discussão colectiva nos locais de trabalho quando há um suicídio, não se oculte porque ocultar é que vai trazer mais mortes porque aumentam as razões que levaram ao mesmo – a individualização, a solidão dos problemas. Não podemos permitir que cada um vá para casa, sozinho, pensar porque se matou o colega, temos que fazer esta discussão colectivamente, porque aí aumentamos os laços e por isso prevenimos o suicídio. Em Portugal preocupa-nos, como equipa do Observatório para as Condições de Trabalho e Vida, o suicídio nos médicos ou juízes, por causa – pensa-se – do sofrimento ético. São pessoas que têm a decisão sobre a vida dos outros na mão. Mas a questão do suicídio ultrapassa estas profissões, e está a aumentar em muitos sectores.

Sabemos – poderão ler no nosso site – que com as crises económicas actuais sucessivas deste modo de produção aumenta de certeza o suicídio.

Sabemos que ele é sub-notificado, porque há tabus religiosos, mas também questões legais, de seguros por exemplo. Uma aluna minha uma vez, médica de saúde pública, contou (publicamente) como era coagida no norte do país a não escrever suicídio na declaração de óbito, e no sul não. No norte escreve-se com frequência “fractura do pescoço” (termo médico análogo) e no sul “suicídio”.

A questão do suicídio no trabalho tornou-se pública em França quando o psiquiatra Christophe Dejours, com quem colaborámos no Observatório, levou aos tribunais a France Telecom (e antes a Renault), quando gestores, bem pagos, se tinham morto, uns no trabalho, outros em casa mas “por causa” dos métodos de gestão. Em geral, aliás, as cartas de suicídio, comuns em grande parte dos casos, deixam explícito ou pistas importantes sobre as razões do mesmo. Essa contenda jurídica culminou no ano passado com a condenação dos administradores da empresa, acusados. Isso levanta questões muito complexas, porque implica questionamento do poder político, cúmplice, indemnizações para a família e, talvez o mais importante, retirar a “culpa” da família para o local de trabalho. Em França Dejours conseguiu ajudar a pôr fim ao tabu. Recentemente suicidou-se uma directora de uma escola e a sua carta foi pública, acusava a direcção de Educação regional e o Ministério de uma pressão e indicações que ela considerava intoleráveis. O debate abriu-se na sociedade francesa, mais avançada do que a nossa. E o debate não foi sobre publicar ou não a carta pelos sindicatos e jornais, a questão foi que economia e que organização do trabalho levou à tragédia.

A componente genética nas depressões é secundária. Tem que haver um ambiente social tóxico que faça o gene da depressão espoletar/actuar. Reduzir as depressões à biologia não faz hoje (nem nunca fez) qualquer sentido. As pessoas deprimem porque as relações sociais estão mal, a depressão tem sistematicamente aumentado em todo o mundo desenvolvido em 30 anos e a genética não mudou. Estou pessoalmente cansada da genética da hiper-actividade das crianças drogadas com ritalina, da genética dos trabalhadores exaustos drogados com ansiólitos, da genética das depressões drogadas com medicações cada vez mais alienantes dos problemas de fundo.

Achar que tudo é culpa da família, porque provoca ou não salva, é judaico-cristianismo – não é ciência médica e social. A família é uma entidade que faz milagres, num mundo em colapso. E nós não vivemos de milagres. A família é subsídio de desemprego, casa, afecto, cooperação, cuidar das crianças, dos idosos, dos deprimidos, é banco de empréstimos para falências, é apoio, é tudo e não pode ser. A família não aguenta mais. Temos que construir uma sociedade melhor, baseada na cooperação e partilha de bens e riqueza social. A acumulação infinita, que se baseia na inevitável competição, e tem como consequência a desigualdade social, gera um mal-estar que é impossível ocultar.

Escrevi sobre o suicídio no trabalho porque é o que conhecemos. Reitero que não conheço os contornos da morte do actor Pedro Lima. Pode ser ou não ser, jamais o poderei afirmar hoje. Não tenho sequer suspeitas, tudo está em aberto, nada conhecemos.

O que quis com este post foi defender uma hipótese na qual acreditamos profundamente – é preciso falarmos de suicídio. Sem tabus. Só assim saberemos a verdade. E só assim podemos ajudar os que cá estão, a mentira e a ocultação corroem-nos por dentro. Porque a ideia de que criando linhas telefónicas (não sou contra elas), drogando depressões (o eufemismo é medicalizando) se pode pôr fim a este drama tem-se revelado falsa. A depressão é um drama social, muito mais do que pessoal, cresce sem parar, e isto não se resolve em sessões de auto-ajuda. O suicídio convoca-nos a pensar – e creio – sobretudo a transformar o mundo que nos pode salvar.

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Categorias: Crónica, Sociedade

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