José Ilídio Torres

RIP | Um polícia na América matou um homem

RIP | Um polícia na América matou um homem

 

 

Era alto? Baixo? Gordo? Magro? Moreno, escuro, preto, branco, amarelo, cor de rosa?

Somos todos uns santos populistas, ao ponto do André Ventura, à nossa beira, quase parecer um menino de coro.

O adolescente estúpido da manif de Braga deve ter as orelhas a arder de tanta porrada que levou nas redes sociais, e bem, diga-se de passagem, mas pronto, já chega.

O Louçã e mais uns quantos, desenterraram o moço do PSR, assassinado por extremistas no tempo do arroz de quinze, e toda uma população armada em anti-racista, fez das tripas coração para dar porrada em alguém.

A própria justiça, engoliu um croissant num rápido, para dar boa imagem nos crimes “coloridos” que tinha em carteira.

Isto é uma guerra, não é?

Então, se é, mostrem as armas. De que cor são?

Eu prefiro as prateadas, com coronha em madeira de carvalho e incrustações em ouro de lei, e vocês?

Na pressa de querermos parecer bons, melhores que qualquer um, logo tratamos de rebuscar no armário da igualdade, um argumento que nos fizesse sentir melhor, digam lá a verdade, não foi?

Os quilómetros de paleio gasto nas redes sociais e na comunicação social. Parecia que os confinados santos populares, de repente, estouraram como foguetes no ar.

Homem é homem. Não tem cor, não tem raça nem credo que se lhe imputem como preconceito.

Um crocodilo-lontra no Douro parece valer mais que qualquer um de nós, não é?

Já encontraram o bicho?

Há por aí muito racista declarado, mas esses sabemos quem são. Já os que começam por dizer que nada têm contra os ciganos, ou os negros, e terminam a conversa a dizer que são uns arruaceiros, que vivem de subsídios, que não querem trabalhar, esses sim, são perigosos, e para além do mais, muitos.

Há ovelhas negras em todo os rebanhos, ou as cadeias não têm brancos?

Custa-me ver o aproveitamento, custa-me sentir que se esganiçam as partes, quando o que era importante era fazer o enfoque naquele homem que morreu às mãos (ou ao joelho) de um polícia prepotente, um entre muitos outros homens, que continuaram desconhecidos na morte, indigentes de um reconhecimento público e da punição dos seus zelosos carrascos.

Não pensem que estou com tudo isto a branquear o racismo. Ele existe por todo o lado, e não é exclusivo de brancos sobre negros.

Aliás, num mundo onde as guerras civis, a fome, a exploração entre gente de um mesmo povo, matam mais que 100 coronavírus juntos, torna-se difícil distinguir quem é quem e o quê.

A diferença deve fazer-nos humanos e não predadores.

Quando há um crime violento, logo surgem os sequiosos de vingança a exigir a pena de morte, ou a sugerir o dente-por-dente.

Todos temos as mãos manchadas de sangue, até pela omissão, pela falta de um espírito crítico, que não se arranja em conversa de tasco, mas nos bancos da escola.

Num tempo em que desrespeitamos professores, enfermeiros, e tantos outros profissionais dignos, e é o próprio estado a não dar o exemplo, a inversão dos valores é a mais preocupante das epidemias.

RIP por todos os «John Doe», a quem os holofotes da media nunca fixaram o nome, mortos às mãos de criminosos que o sistema alimenta em liberdade.

RIP por todos nós.

 

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Categories: Crónica, Sociedade

About Author

José Ilídio Torres

José Ilídio Torres nasceu em Barcelinhos em 1967. Estudou Direito e Arqueologia, mas acabou licenciado em ensino, variante de educação física, leccionando ao 1º e 2º ciclo do ensino básico. É formador em futebol há cerca de 20 anos. Trabalhou como jornalista na imprensa regional, em jornais como o Notícias de Barcelos e Primeiro de Janeiro, bem como na Rádio Cávado. É autor de 11 livros, em romance, conto, infanto-juvenil e poesia. Foi deputado municipal em Barcelos e candidato à Câmara Municipal pelo Bloco de Esquerda, tendo-se afastado recentemente da vida política activa.

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