José Ilídio Torres

Encontro | O ‘Quim Zé’

Encontro | O ‘Quim Zé’

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A noite passada conheci o Quim Zé. Foi numa esplanada com as devidas distâncias, que mais tarde se tornariam físicas apenas.

Um grupo de jovens amigos, a um dos cantos, recordava histórias de acidentes de carro, de mota e até de bicicleta, não faltando relatos de muros caídos, carros espatifados, ou volantes na mão e dentes partidos. Mas a nenhum deles faltava uma perna como ao Quim Zé, que numa mesa, mais afastado, ouviu como eu os relatos, até resolver participar na conversa.

– Vocês estão a falar de acidentes, mas deixem-me que lhes conte o que é um acidente a sério…

Pareceu-me que todos engoliram em seco por um momento, preparados já para ouvir uma história dolorosa de vida, não fosse a surpresa e o riso a todos tomar de assalto nos momentos que se seguiram.

E o Quim Zé, que assim se apresentou, contou como um carro que não respeitou a sinalização num cruzamento o colheu na sua moto pesada, levando-lhe, segundo ele, “um pé para junto de uma orelha”.

Foram 8 meses num hospital para tentarem consertar uma perna completamente desfeita, com enxertos sucessivos e rejeições, até, segundo o próprio, se ter apercebido, que aquilo era uma cambada de “mamões” a alimentarem-se como sanguessugas do dinheiro do seguro…

Disse-lhes: – chega! Cortem-me a porra da perna. Não tenho mais pachorra para vos aturar.
E cortaram.

Todo este relato era acompanhado de um fino humor, que metia enfermeiras jeitosas, aparadeiras, banhinhos dados, até, ainda segundo o cada vez mais peculiar narrador, “a coisa ter começado a levantar”, e aí as enfermeiras nunca mais por ali apareceram. Foi a pior parte, lamentava-se.

Sempre que alguém ousava fazer uma interjeição do género  “deve ter sido lixado”, o Quim Zé, do alto dos seus 50 anos bem cuidados, logo dizia: – qual quê, foi a melhor coisa que me aconteceu. Corta uma perna e tu vais ver…

Repetiu a frase várias vezes, e se alguém argumentava que a perna lhe faria muita falta, ele respondia: – pronto, se achas que a perna te faz falta, corta um braço, uma mão talvez…

E explicava: – Não pode ser propositado, senão não recebes do seguro… pedes a um amigo que te passe por cima, ou vais cortar lenha com ele de motosserra…

Os risos eram constantes, e o meu juntava-se aos demais.

Era inacreditável como alguém era capaz de brincar com uma situação tão dramática, com a sua própria condição.

– Lixado mesmo é um gajo não ter noção, nos tempos seguintes, que lhe falta a perna. Bati com os queixos várias vezes no armário, sempre que saía da cama pelo lado errado…

Contou depois o que fez com a indemnização que recebeu do seguro: – Comprei uma casa naquele cruzamento e uma moto pesada adaptada, que está ali…

O Quim Zé, a única vez que tomou um ar mais sério, foi para dizer que a perna que perdeu lhe trouxe uma coisa fundamental: mudou a sua forma de estar na vida, fez dele um homem melhor, pois antes do acidente era um bom “car*lho”.

A certa altura, continuando em tom jocoso, referiu que já tinha pensado escrever um livro, mas para quê, a malta não lê a ponta de um corno…

Foi quando intervim pela primeira e última vez naquela conversa.

– Concordo em absoluto consigo, até porque sou escritor. Mas não se preocupe, eu escrevo por si…

Ele achou piada e eu também.

Paguei, despedi-me de todos, montei na minha moto e saí.

Confesso que, ao entrar na estrada, pensei:

– E se agora viesse um carro e me atirasse “um pé para junto de uma orelha”?

Seria eu capaz de me tornar um homem melhor como o Quim Zé?

Cheguei são e salvo a casa e escrevi, tal como lhe prometi.

 

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Categorias: Crónica, Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

José Ilídio Torres

José Ilídio Torres nasceu em Barcelinhos em 1967. Estudou Direito e Arqueologia, mas acabou licenciado em ensino, variante de educação física, leccionando ao 1º e 2º ciclo do ensino básico. É formador em futebol há cerca de 20 anos. Trabalhou como jornalista na imprensa regional, em jornais como o Notícias de Barcelos e Primeiro de Janeiro, bem como na Rádio Cávado. É autor de 11 livros, em romance, conto, infanto-juvenil e poesia. Foi deputado municipal em Barcelos e candidato à Câmara Municipal pelo Bloco de Esquerda, tendo-se afastado recentemente da vida política activa.

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