Carlos Ortiga

Ensino | O ensino artístico e a pandemia

Ensino | O ensino artístico e a pandemia

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Não há dúvida que a pandemia veio alterar muito daquilo que outrora demos como garantido. Até este momento, era quase impensável uma solução de lecionação que não passasse por uma solução presencial.

A distância que hoje vivemos é fruto de algo sobre o qual muito pouco conhecemos, mas certamente que nos dará muitos ensinamentos para o futuro, se assim tivermos a consciência de aprender.

Na educação, o ensino à distância está a ser um grande desafio para todos. Se por um lado qualquer criança poderá ter acesso a meios digitais que possam de certa forma compensar a ausência dos professores, outras há que nem acesso a uma rede pública gratuita da televisão têm.

Esta pandemia vem demonstrar, mais uma vez, que o sistema educacional do nosso país não é um sistema democrático.

O Ensino Artístico Especializado (EAE) tem um valor importantíssimo para a evolução cultural da sociedade. É inquestionável o valor deste tipo de ensino para o desenvolvimento global da criança, quer a nível cultural e social, mas principalmente a nível pedagógico.

As escolas do ensino artístico, habitualmente conhecidas como Conservatórios, da rede pública ou do ensino privado, realizam aulas por videoconferência com todos os alunos, mantendo assim toda a componente letiva presencial através deste método – aula ou comunicação síncrona, destinando fora desse tempo uma parte da componente letiva para esclarecimento de dúvidas e correções aos quais são chamados de aulas ou comunicação assíncronas.

Para nós, Professores e restante comunidade educativa, é muito bom vermos em vídeo todos os alunos a tocarem ou a dançarem uma obra resultante da conjugação de pequenos vídeos que os alunos enviaram para os professores, para que estes depois os possam juntar e assim criarem belas apresentações para deleite de toda a sociedade.

Estes pequenos momentos são fruto do esforço dos alunos, dos professores e dos pais que criam condições para que sejam realizadas gravações com um mínimo de qualidade. São horas de aulas, tentativas frustradas de gravação, dúvidas de componente técnica e artística, dúvidas da parte tecnológica, enfim, um sem número de entraves que apenas são resolvidos com boa vontade de todos.

Parece nunca ter existido um verdadeiro interesse pelo ensino Cultural por parte dos Ministérios ao longo destes anos, a não ser o facto da criação de um currículo que já está muito desgastado e afastado da realidade, datado de 1971, e muito poucas vezes ligado a uma comunidade pedagógica na qual se inserem as diversas escolas. O currículo pedagógico foi sempre tido em conta como uma parente pobre do ensino regular, sempre à parte de tudo.

Existem escolas com autonomia pedagógica que vão tentando mudar o rumo e estabelecendo pontes, entre uma Cultura de qualidade e a sociedade em que se encontram estabelecidas.

Este trabalho tem obtido resultados excelentes, criando comunidades Culturais nos locais onde estas mesmas EAE estão implantadas, criando condições para que a Cultura seja um dos pontos positivos dessa mesma sociedade, sendo mesmo uma referência a nível nacional e internacional.

Ainda antes do final do segundo período letivo, as EAE, especialmente as da rede particular e cooperativa, enfrentaram esta pandemia com uma força inacreditável e ainda muito pouco se falou sobre este assunto, sobretudo na comunicação social com cobertura nacional.

Se por um lado temos um ensino genérico que se debate com dificuldades para criar uma corrente de aprendizagem, mesmo utilizando recursos como a telescola, para fazer chegar a todos quantos possível a informação necessária, para que sejam realizadas, de alguma forma, aprendizagens com algum conteúdo; por outro lado temos um ensino artístico especializado que luta diariamente para desenvolver um trabalho pedagógico e artístico de qualidade – razão principal da sua existência.

Desde o momento que a pandemia foi decretada, as EAE foram implementando um plano de contingência, deixando desde o primeiro dia, como exemplo de uma mensagem de responsabilidade a toda a comunidade educativa e social onde se inserem, apelando à responsabilidade social.

Todas as aulas com mais de 12 alunos por sala de aula foram imediatamente suspensas. Nestas aulas que foram interrompidas, cabem desde logo as aulas de Orquestra e Classe de Conjunto nas Escolas de Música dos Conservatórios. Apenas continuaram a ser lecionadas as aulas de Instrumento, porque são individuais, e as aulas de Ciências Musicais, dando as EAE e os Conservatórios a opção aos alunos de não se apresentarem nas mesmas.

Imaginem alunos que não tenham material necessário para as aulas… imaginem alunos que não consigam transporte para as escolas… parece um cenário estranho e não do nosso país, certo? Pois, mas é, e tem sido assim durante muitos anos. Principalmente nos alunos do 1º Ciclo, do 1º ao 4º anos de escolaridade, e nos alunos que ingressam nestas escolas diretamente nos 2º e 3º ciclos de ensino.

Quando um aluno não tem instrumento durante algum tempo quer por razões familiares quer por razões económicas ou até por outras razões que nos são desconhecidas e que não questionamos, as EAE muitas vezes são a ponte Cultural para estas crianças e famílias a quem são emprestados instrumentos e material didático, para que possam realizar as aulas condignamente sendo esse material muitas vezes alugado por um valor irrisório para que os alunos possam assim desenvolver um estudo técnico em casa, para assim poderem evoluir enquanto artistas conscientes.

O corpo docente destas escolas é dos mais especializados do país.

Atualmente todos os professores têm que realizar uma Licenciatura em Música, numa área específica como, por exemplo, Violino, e não apenas em música, após o que realizam uma profissionalização em Educação, que desde o processo de Bolonha, 1999, foi designado como Mestrado em Ensino de Música. Apenas este Mestrado permite habilitação para lecionar nas EAE e Conservatórios, tendo os professores que, no mínimo, ter esta habilitação académica para poderem lecionar nestas escolas.

Como todas as escolas, as escolas de EAE têm o dever de dar as mesmas oportunidades a todos os alunos que fazem parte da sua comunidade educativa. E fazem-no! Fazem-no com tanto empenho, ao ponto de na esmagadora maioria, quando um aluno tem alguma dificuldade, os professores contactarem diretamente os pais. Quando os pais não conseguem ajudar os filhos a resolver uma questão técnica, contactam os professores e são esclarecidos in loco.

É muito bom vermos os nossos alunos ansiosos por terem aulas com os nossos professores. É sinal que a motivação, tanto falada e disseminada por todos os entendidos pedagogos, está em alta, tal como sempre está durante todo o processo de ensino/aprendizagem deste “tipo” de ensino.

Os pais frequentemente saúdam-nos com palavras de alento, demonstrando gratidão por estarmos a realizar um trabalho são em prol dos seus filhos, porque afinal é disto que se trata, ensinar os Nossos filhos a enfrentar dificuldades sem nunca deixar cair a toalha, porque neste EAE todos os alunos aprendem a não deitar a toalha ao chão, aprendem que os resultados dependem do seu esforço e suor, que os professores estão lá para os ajudar. Mesmo que não tenham aulas com esses mesmos professores, eles estão lá para eles. Porque os alunos não são alunos da turma A, B ou C, eles são alunos de uma comunidade escolar que tem o DEVER de cuidar da sua EDUCAÇÃO e do seu desenvolvimento enquanto parte dessa mesma comunidade.

A grande diferença que realmente salta à vista entre estes dois mundos, que nunca deveriam estar separados, EAE e o ensino regular, é que os alunos no EAE se sentem acolhidos, protegidos contra o mal que está a assolar muitas crianças neste país, a solidão da autoaprendizagem.

O ensino à distância tornou-se, infelizmente, num mar de trabalhos sem autoavaliação e autocontagem de pontuações realizadas por inquéritos do Google Classroom.

Certamente que não é fácil a muito professores conseguirem fintar as matreirices de um sistema informático ou até mesmo configurar uma ligação com qualidade. Certamente que é um desafio, especialmente se estivermos a pensar em zonas remotas ou com redes de comunicação muito frágeis, isto quando existem.

Se pensarmos numa aula da disciplina de Instrumento, em que a aula é feita cara a cara com o aluno, em que não podemos passar para o aluno B porque o aluno A tem a conexão fraca, tudo isto a juntar ao facto de que, para a aula ter qualidade, convém que o áudio dessa mesma conexão esteja estável e com qualidade para que tanto o professor como o aluno tenham uma representação fidedigna da execução de ambos, então temos todos os ingredientes para que tudo corra mal ao mínimo fraquejar de uma rede de internet saturada.

Felizmente isso não acontece, e aqui quero dar os parabéns a todos os colegas do EAE, que tanto esforço fazem e dinheiro investiram em equipamento, como microfones, colunas e outros adereços vídeo e áudio, porque nem todos temos um estúdio em casa, para que os alunos da sua comunidade escolar tenham uma escapatória saudável a todo este pântano que está a ser o “ensino”.

Um ano mais de ensino à distância é uma catástrofe anunciada. Tal como Raquel Varela diz e muito bem “O ensino à distância não é conhecimento, são doses homeopáticas de informação fragmentada.”

Custa muito receber relatos dos alunos dizendo que sentem falta dos colegas, de estar connosco, que as nossas aulas eram, e felizmente continuam a ser, o ponto alto da sua semana, que estão fartos de receber fichas e fichas desprovidas de contacto e emoção, sim emoção, porque ensino é, na sua essência, emoção.

Os alunos não vão conseguir adquirir conhecimento algum, porque o conhecimento depende da relação emocional e coletiva que se estabelece. Apenas vão adquirir informação que podem ver no Google.

Com o ensino à distância tornamos tudo em “coisas”. Tanto professores como alunos amamos um computador ou amamos quem abraçamos, cheiramos, sentimos? Não por acaso, Nuno Lobo Antunes explicou que os alunos com espectro do autismo dão-se bem neste formato à distância, porque são alunos cujo relacionamento preferencial é com coisas, e o computador não é uma relação humana, é uma coisa (tão pouco fará bem aos que têm este espectro, mas fará muito mal a todos os outros).

Se tiverem a oportunidade de matricular os vossos filhos no Ensino Artístico Especializado, façam-no!!!

Façam-no por eles!

Não vai ser fácil. Muitas vezes eles vão quebrar, vão desmotivar, mas é nessa altura que este “tipo de ensino” mostra toda a sua força, mostra que somos TODOS CAPAZES de fazer qualquer coisa, basta ter força, basta ter apoio.

Adoraria que todos nós, população deste belo país, tivéssemos este ensino, não como um ensino especializado, mas sim como um ensino genérico.

Adoraria que este ensino fosse a base do Nosso sistema educacional!!

 

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Categories: Crónica, Sociedade

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Carlos Ortiga

Natural da freguesia de Delães, concelho de Vila Nova de Famalicão, é Mestre em Ensino de Música pela Universidade Católica, tendo realizado vários cursos de aperfeiçoamento técnico e MasterClass na área da Guitarra com vários professores de renome internacional, dos quais de se destacam os professores Mestre Alberto Ponce (Paris), Ken Murray (Austrália), Carlos Perez (Paraguai) e o professor Tomás Camacho (Espanha) . Atualmente exerce a sua profissão no Conservatório de Guimarães enquanto professor de Guitarra. Durante o seu percurso realizou trabalho em diversas áreas, das quais se destacam a produção musical e a fotografia. Trabalhou com produtores como Chris Lord-Alge e Andrew Schepps, sendo atualmente uma das caras dos produtos da OLLO Audio (Eslovenia). É atualmente produtor de Costinha, Juako, Neno Barros, Lucas & Matheus e Isabel Maria (fadista) na área comercial. Na área de música erudita é produtor de Carlos Ortiga, Luís Ribeiro, Gil Magalhães, Ingrid Sotolarova, Giousué DiVicenti, e Orquestra do Conservatório de Guimarães.

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