‘O futebol vai mesmo arrancar no início de junho. É uma indústria demasiado poderosa para estar tanto tempo confinada.’

Futebol vai mesmo recomeçar nem que a vaca tussa

Futebol vai mesmo recomeçar nem que a vaca tussa

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O futebol vai mesmo arrancar no início de junho. Nem que a vaca tussa, ou mesmo tenha febre…

É uma indústria demasiado poderosa para estar tanto tempo confinada.

Os jogos serão à porta fechada, que aberta faz muita corrente de ar. A mesma que anda pelos corredores da Liga, com o senhor “árbitro” de alguns, muitos interesses, principalmente económicos, Pedro Proença, a ser fortemente contestado, tendo sido pedida a sua demissão.

Ao que se sabe, Proença terá enviado uma carta ao Presidente da República, solicitando a transmissão em sinal aberto dos jogos na reta final do campeonato, o que não agradou aos clubes, porque não agradou às operadoras, nem à NOS, patrocinadora direta da prova.

Por estes dias também, soube-se por um estudo do Sunday Times, que o jogo que opôs Liverpool a Atlético de Madrid a dois dias de ser decretado o estado de alarme em Espanha, foi responsável por 41 mortes por Covid-19. E isso sim, devia fazer reflectir a todos, mas rapidamente será esquecido, não passando de uma aragem mais ou menos constrangedora de pesar.

Ser campeão ou ter acesso a uma prova europeia, é muito mais que um feito desportivo, é um efeito económico, que poderá render muitos milhões, quase sempre aos mesmos, os chamados «grandes» do futebol português.

São os prémios pagos e a possibilidade de fazer negócios chorudos com jogadores colocados por essa via na montra europeia.

E foram estes ditos «grandes», o núcleo restrito de três, aqueles que há uns tempos, no início de abril, caminhando juntos, entraram pela porta aberta de S. Bento para reunir com o Primeiro Ministro António Costa.

Se tivessem ido ter com o Presidente Marcelo, talvez fossem quatro em vez de três, pois os minhotos não foram chamados e, pelos vistos, ainda não atingiram o refinado estatuto, mesmo estando em terceiro lugar no campeonato e serem neste momento considerados, por muitos, a segunda melhor escola de formação do país.

Terá pretendido António Costa preservar-se, não fosse Salvador, equivocado, esquecido das regras, dar-lhe um abraço tão comprometido, quanto a relação que PM e PR mantêm.

Estou ligado ao futebol de formação há quase duas décadas, coordeno um clube do distrito de Braga, e sei melhor que ninguém o que custa aos miúdos não praticarem o jogo que tanto gostam.

A formação é aliás uma das vítimas desta hegemonia de poucos, que espalhados pelo país em franchisados, recolhem os melhores que os «pequenos» formam.

Depois, largam-nos, e os pais, principalmente os pais, lá vêm de ombros caídos pedir aos clubes que os aceitem de volta.

E se porventura estavam enganados, e alguns voltam a dar nas vistas, porque os miúdos eram mais livres e felizes nos clubes de bairro ou concelhios, surgem de novo os de emblema na lapela, para os levarem, qual mercadoria capitalizável.

Não me venham por isso falar de democracia no futebol. O «Pedrito» ainda tentou um ar da sua graça ao falar de transmissões em sinal aberto, para que o povo pudesse ver os jogos à borla, mas está sujeito a cair em desgraça, ou talvez não, que tudo se perdoa com uns pactos de bastidor.

Vão lucrar os cafés e as esplanadas, tão necessitados de facturar.

Com tanto adepto a vociferar e a festejar o golo, vão ser milhões de gotículas no ar. Vão dar-se abraços e cumprimentos efusivos de mão aberta, do tipo «give me five», e o álcool-gel, vai jorrar, principalmente nas gargantas.

Quando chegarem a casa, alguns «grunhos» vão libertar a frustração na mulher e nos filhos, esses sim confinados a um papel menor, o de comer e calar.

Mas cada vez menos, mas cada vez menos.

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Categorias: Crónica, Sociedade

Acerca do Autor

José Ilídio Torres

José Ilídio Torres nasceu em Barcelinhos em 1967. Estudou Direito e Arqueologia, mas acabou licenciado em ensino, variante de educação física, leccionando ao 1º e 2º ciclo do ensino básico. É formador em futebol há cerca de 20 anos. Trabalhou como jornalista na imprensa regional, em jornais como o Notícias de Barcelos e Primeiro de Janeiro, bem como na Rádio Cávado. É autor de 11 livros, em romance, conto, infanto-juvenil e poesia. Foi deputado municipal em Barcelos e candidato à Câmara Municipal pelo Bloco de Esquerda, tendo-se afastado recentemente da vida política activa.

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