Luísa Monteiro

Memória | … era Valentina, de seu nome…

Memória | … era Valentina, de seu nome…

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… não consigo dormir, nem pegar em nenhuma fotografia; em quase todas, tem um gato ao colo, lembrando as meninas de Renoir, dizendo de uma ternura por haver…

… e foi assim, para que fique escrito sem ser no tom frio com que nos servem as notícias à mesa: em tempo de peste, uma criança desaparece; vivia com quem não queria porque a mãe tinha que trabalhar; ela, o gato ao colo, a casa, o pijama, fazia frio e as horas eram muito longas porque ela era uma criança só… tinha aquele olhar doce de quem pede que seja olhado, testa pálida de quem tem muitos sonhos e aquele sorriso timidamente cordial de quem está à espera de ser escutado baixinho… os gatos vão sentir a falta do seu colo… os gatos vão dizer do colo roubado, da lua que tudo viu, das sombras na procura, do afago que não regressa jamais…

… mas continuando: não houve aldeia que não estremecesse, porque parecia que se vivia uma espécie de longa noite de natal com a família toda à mesa e pela sala, e no entanto surgiu a notícia de uma menina que se perdia pela noite…

… não fosse a memória um baloiço, jamais haveria natal nas aldeias… os gatos vão dizer da menina e do monstro por todo o sempre: há mãos que nem sempre embalam os berços; os algozes sempre tiveram mãos…

… era Valentina, de seu nome… todos os gatos no mundo falarão dela, para todo o sempre e jamais nas aldeias se voltará a olhar a lua sem lembrarem que ela viu o que os nossos olhos não viram, fazendo de todos nós, cegos errantes… e sempre que um gato miar na noite, haverá a certeza que é pela menina que ainda chama…

Imagem: Pierre-Auguste Renoir

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Categorias: Crónica, Sociedade

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Luísa Monteiro

Escritora.

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